A Linguagem do Realismo

Daniela Diana

A Linguagem do Realismo é direta, clara, culta, descritiva, detalhada, impessoal, universal, objetiva e realista.

Caraterísticas do Realismo

O Realismo representou um movimento artístico e cultural que teve início em meados do século XIX na Europa.

Teve como marco inicial a publicação de “Madame Bovary” (1857) de Gustave Flaubert.

No Brasil, o Realismo tem como marco inicial a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) de Machado de Assis.

Em Portugal, o Realismo começa em 1865, com a Questão Coimbrã, travada entre dois grupos de literatos: os ultrarromânticos e os defensores do Realismo.

Oposto ao Romantismo, os artistas realistas buscam demostrar a realidade tal como ela é, ou seja, destituída de idealizações e subjetivismos.

Por esse motivo, os temas cotidianos, sociais, urbanos são os mais explorados pelos escritores desse momento.

Embora tenha tido destaque na poesia, a prosa realista foi o tipo de texto mais utilizado pelos autores. Eles tinham o intuito de denunciar e criticar os valores burgueses, bem como os problemas sociais, políticos, econômicos e culturais.

Como exemplos: a pobreza, as diferenças sociais, a fraqueza humana, o egoísmo, a falsidade, os adultérios, o casamento por interesse, dentre outros.

Assim, as obras desenvolvidas nesse período descrevem objetivamente e de maneira mais realista possível, a realidade e as personagens que a compõem.

Em resumo, o Realismo busca retratar de maneira mais fidedigna os aspectos da realidade.

Um recurso muito utilizado pelos escritores realistas é o aprofundamento psicológico das personagens com o intuito de aproximá-las cada vez mais do real, ou seja, sem idealizações.

Saiba mais sobre o tema:

Principais Representantes no Brasil

Os principais escritores realistas brasileiros foram:

Principais Representantes em Portugal

Os principais escritores realistas portugueses foram:

Exemplos

Segue abaixo dois exemplos da prosa realista brasileira e portuguesa:

Trecho de “Memórias Póstuma de Brás Cubas” de Machado de Assis

A Borboleta Preta

“No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera e na dignidade que, apesar dele, soube conservar.

A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite.O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

— Também por que diabo não era ela azul? disse eu comigo.”

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Trecho da obra “O Primo Basílio” de Eça de Queirós

Capítulo II

Aos domingos à noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma cavaqueira, na

sala, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa. Vinham apenas os íntimos. O "Engenheiro", como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco à estudante. Luísa fazia croché, Jorge cachimbava.

O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de Jorge e seu antigo condiscípulo nos primeiros anos da Politécnica. Era um homem seco e nervoso, com lunetas azuis, os cabelos compridos caídos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escola. Muito inteligente, estudava desesperadamente, mas, como ele dizia, era um tumba. Aos trinta anos, pobre, com dívidas, sem clientela, começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vinténs, do seu paletó coçado de alamares; e entalado na sua vida mesquinha, via os outros, os medíocres, os superficiais, furar, subir, instalar-se à larga na prosperidade! "Falta de chance", dizia. Podia ter aceitado um partido da Câmara numa vila da província, com pulso livre, ter uma casa sua, a sua criação no quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades, na sua ciência, e não se queria ir enterrar numa terriola adormecida e lúgubre, com três ruas onde os porcos fossam. Toda a província o aterrava: via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléia, morrendo de caquexia. Por isso não "arredava pé"; e esperava, com a tenacidade do plebeu sôfrego, uma clientela rica, uma cadeira na Escola, um cupê para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do seu direito a estas felicidades, e como elas tardavam a chegar ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se prolongavam mais os seus silêncios hostis, roendo as unhas; e, nos dias melhores, não cessava de ter ditos secos, tiradas azedadas — em que a sua voz desagradável caía como um gume gelado.

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Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.