Evo Morales: biografia, governo e renúncia

Juliana Bezerra

Juan Evo Morales Ayma foi presidente da Bolívia de 2006 a 2019. Seu governo foi marcado pela redução da pobreza e pelo discurso anticapitalista.

Após 14 anos no poder, Evo Morales renunciou ao cargo em 10 de novembro de 2019, devido à pressões das Forças Armadas e da Polícia boliviana.

Evo Morales e a crise na Bolívia

No dia 20 de outubro de 2019, a Bolívia realizava mais uma eleição presidencial. O resultado oficial dava a vitória a Evo Morales logo no primeiro turno, mas o candidato da oposição, Carlos Mesa, contestou os números.

Seguiu-se uma semana de protestos onde os opositores e partidários do governo se enfrentaram nas ruas. Muitos pediam a convocação de novas eleições.

Após duas semanas, a Organização dos Estados Americanos (OEA) concluiu que havia indícios de fraude eleitoral. Embora o presidente Evo Morales negasse as acusações, acabou anunciando a realização de novas eleições e que ele não concorreria às mesmas.

Isso não foi suficiente para que os ânimos da população se acalmassem. As Forças Armadas e a Polícia boliviana assinaram, então, um manifesto exigindo sua renúncia.

Sem o apoio dessas instituições, Evo Morales renuncia ao cargo presidencial em 10 de novembro de 2019. Em seguida, o vice-presidente também o faz, assim como vários dirigentes da cúpula boliviana.

Segue-se um vazio de poder e tanto opositores como partidários de Morales se enfrentaram nas ruas de La Paz, capital da Bolívia. Por sua parte, Evo Morales aceita o oferecimento de asilo político no México e é transladado para este país.

Biografia de Evo Morales

Evo Morales nasceu em 26 de outubro de 1959, na cidade de Orinoca, no departamento de Oruro. Ele pertence à etnia indígena uru-aimará. Evo Foi o primeiro indígena a ser eleito presidente na Bolívia e o terceiro que não precisou passar pelo segundo turno.

Os pais de Evo Morales se mudaram para a cidade de Chapare e ali trabalhavam como agricultores. Dos sete filhos, apenas três chegaram à vida adulta. Desde cedo, Evo Morales ajudou os pais na lavoura indo à escola de forma irregular.

Em 1981 foi nomeado Secretário de Esportes no sindicato de cocaleros da região. Dessa forma, iniciou sua carreira política na qual seria eleito deputado em 1997 e candidato à presidência da República em 2002. Nesta ocasião, ele ficou em segundo lugar e perderia para Sánchez de Lozada.

Evo Morales
Evo Morales, presidente da Bolívia

Presidência da República

Evo Morales concorreu às eleições presidenciais pelo partido MAS – Movimento al Socialismo – e apoiado fortemente pela população indígena que representa 51% da população boliviana.

Vitorioso, Morales se aproximou dos outros governos de esquerda, especialmente do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Igualmente, buscou apoio em Rafael Correa, Equador; Nestor Kirchner, Argentina; Fidel Castro, em Cuba; e Lula da Silva, Brasil.

Desta maneira, alguns países da América Latina se uniram na "Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América" – ALBA – que compreendia onze países do continente. Dita Aliança deseja ser uma alternativa de esquerda aos organismos tradicionais existentes na região.

A retórica de Evo Morales se pautou por discursos contra o capitalismo e extremamente antiamericano. Renegociou o contrato com as empresas multinacionais exploradoras de hidrocarburantes e expulsou o embaixador americano da Bolívia em 2008, acusando-o de conspirar contra a democracia boliviana.

Governo de Evo Morales

Desde que chegou à presidência, Morales tem imprimido um estilo pessoal de governar. Renunciou ao uso do terno e da gravata e os substituiu por uma jaqueta com motivos indígenas.

Igualmente, antes da posse presidencial no Parlamento boliviano, Evo Morales se submeteu a uma cerimônia indígena quando foi eleito presidente pela primeira vez em 2006. A celebração ocorreu no sítio arqueológico de Tiwanaku, um importante centro de peregrinação para esta civilização pré-incaica.

Morales afirmou que poria em prática os princípios ancestrais indígenas: Ama k’ella (Não seja preguiçoso), Ama llulla (Não seja mentiroso) e Ama sua (Não seja ladrão).

Posse de Evo Morales
Posse de Evo Morales em cerimônia indígena

Pontos Positivos no governo de Evo Morales

  • A média de crescimento do PIB boliviano foi de 4,8% no período 2006-2012;
  • o investimento estatal aumentou 252%: de cerca de US$ 581 milhões entre 1999-2005 para cerca de US$ 2,046 bilhões entre 2006-2012;
  • a construção de estradas praticamente dobrou: de 887 km construídos entre 2001-2005 para 1676 km entre 2006-2012;
  • Entre 1999-2005 o poder de compra do salário mínimo subiu 17%, enquanto entre 2006-2012 aumentou 41%;
  • a receita com petróleo e gás natural subiu de 5% do PIB em 2004 para 13,3% em 2006;
  • o governo central apoiou os governos locais para a edificação de pequenas obras investindo US$ 567 milhões em 4187 projetos.

Pontos Negativos no governo de Evo Morales

Apesar das melhorias obtidas, Evo Morales também foi criticado em várias ocasiões.

Uma delas se trata da construção, em 2017, do Museu da Revolução Democrática e Cultural Orinoca, na sua cidade natal. O acervo se constituiu principalmente de presentes recebidos das comunidades indígenas e conta com uma estátua do próprio presidente.

O custo da obra foi de 7 milhões de dólares e a construção está localizada numa cidade pequena de 600 habitantes. Isto serviu para que a oposição o reprovasse por desperdício de dinheiro.

Nos últimos anos de governo, Morales também tem sido acusado de tráfico de influência e foi apontado pela sua ex-namorada de ser pai de seu filho. Posteriormente, Zapata seria condenada por enriquecimento ilícito e ficou provado que a criança não era filho de Evo Morales.

No plano econômico, a Bolívia ainda não conseguiu diversificar sua pauta de exportação e continua vender principalmente matérias-primas como gás, minérios e soja.

No plano político, Morales conseguiu mudar as regras eleitorais e até a própria Constituição, para que pudesse concorrer por três vezes às eleições presidenciais.

O tráfico de drogas também preocupa as autoridades, pois os traficantes se aproveitam da precariedade do país para plantar e exportar drogas desde o altiplano boliviano.

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Juliana Bezerra
Juliana Bezerra
Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.