Prosa Historiográfica

Daniela Diana

A prosa historiográfica é um tipo de crônica histórica que teve início na Idade Média (Trovadorismo) com os Cronicões, atingindo seu apogeu com o movimento humanista, sobretudo com as obras do escritor português Fernão Lopes.

Vale lembrar que o humanismo foi um movimento artístico e filosófico de transição entre o trovadorismo e o classicismo, ou ainda, da Idade Média para Idade Moderna. Ele surgiu na Itália, durante o período do Renascimento.

Sendo assim, o teocentrismo medieval (Deus como centro do mundo) foi aos poucos, sendo substituído pelo antropocentrismo humanista (homem como centro do mundo).

Características

As principais características da prosa historiográfica são:

  • Crônica narrativa
  • Relato de fatos e eventos reais
  • Retrato Fidedigno da realidade
  • Teor historiográfico
  • Fontes documentais
  • Ordem cronológica
  • União da literatura e da história
  • Linguagem simples e racional
  • Visão imparcial dos fatos
  • Retrato psicológico das personagens
  • Antropocentrismo, nacionalismo e cientificismo
  • Aproximação com a Epopeia

Prosa Historiográfica de Fernão Lopes

Considerado o “pai da historiografia portuguesa” Fernão Lopes (1390-1460) foi quem iniciou o movimento humanista no país, em 1418, quando foi nomeado "Guarda-Mor da Torre do Tombo".

A prosa historiográfica de Fernão Lopes foi desenvolvida nas crônicas que escreveu donde se destacam:

  • Crônica de El-Rei D. Pedro I (1434)
  • Crônica de El-Rei D. Fernando (1436)
  • Crônica de El-Rei D. João I (1443)

De tal modo, através de pesquisas historiográficas e muita investigação documental, ele relatou a vida dos principais reis de Portugal, unindo a literatura com a história.

Com elevado valor estético e um estilo literário único, ele utilizou uma linguagem simples, coloquial, histórica e racional com foco no psicológico de seus personagens.

Relatou com uma visão imparcial os fatos, uma vez que o intuito principal era registrar os acontecimentos históricos e marcantes da história de Portugal.

Exemplo

Para compreender melhor a prosa historiográfica humanista segue abaixo um trecho do primeiro capítulo da “Crônica de Dom João I”, de Fernão Lopes:

Capítulo I

“Razões em prólogo do auctor d'esta obra, ante que fale dos feitos do Mestre.

Grande licença deu a affeiçâo a muitos, que tiveram cargo de ordenar historias, mormente dos Senhores, em cuja mercê e terra viviam, e onde foram nados seus antigos avós, sendo-lhe muito favoraveis no recontamento de seus feitos. E tal favoreza, como esta, nace de mundanal affeiçâo, a qual não é, salvo conformidade de alguma cousa ao entendimento do homem.

Assim que a terra em que os homens, por longo costume e tempo, foram criados, gera uma tal conformidade entre o entendimento, e ella, que havendo de julgar alguma sua cousa assim em louvor, como por contrario, nunca por elles é direitamente recontada, porque louvando-a, dizem sempre mais d'aquello, e se d'outro modo não escreverem suas perdas tão minguadamente, como acontecerem, outra cousa gera ainda esta conformidade e natural inclinação, segundo sentença d'algnns, que o pregoeiro da vida é a fama, recebendo refeição, para o corpo, o sangue, e espiritos gerados de tantas viandas teem uma tal similhança entre os que causa esta conformidade. Alguns outros tiveram que isto descia na semente, no tempo de geração, a qual dispõem por tal guisa aquello, que d'ella é grado, que lhe fica esta conformidade, tambem ácerca da terra, como de seus divides, e ao que parece que o sentiu Tu-lio, quando veiu a dizer:

Nós não somos nados a nós mesmos, porque uma parte de nós tem a terra, e a outra os parentes; e porém o juizo do homem ácerca de tal terra, ou pessoas recontando seus feitos sempre copega.

Esta mundanal affeição fez alguns historiadores, que os feitos de Castella, com os de Portugal, escreveram, posto que homens de boa authoridade fossem, desviar da verdadeira estrada, e colher por semideiros escuses, por as minguas das terras de que eram em certos passos claramente não serem vistas, especialmente no grande desvairo, que o mui virtuoso Rei de boa memoria D. João, cujo regimento e reinado se segue, houve com o nobre e poderoso rei D. João de Castella, pondo parte de seus bons feitos fóra do louvor, que merecia, e evadindo em alguns outros de guisa que não aconteceram atrevendo-se a publicar esto em vida de taes que lhe foram companheiros bem veadores de todo o contrario.”

Curiosidade: Você Sabia?

Prosa Historiográfica

O Arquivo Nacional Torre do Tombo (ANTT), ou simplesmente “Torre do Tombo”, está localizada em Lisboa. Fundada em 1387, o local reúne os principais arquivos do Estado português desde a Idade Média.

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Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.