Probabilidade e genética: como calcular a chance de características hereditárias

Rafaela Ribeiro
Rafaela Ribeiro
Professora de Biologia

Você já se perguntou qual é a chance de uma criança herdar uma característica dos pais? A genética utiliza a probabilidade para responder a perguntas como essa e prever quais características podem aparecer nos descendentes.

A probabilidade é uma medida da chance de um evento acontecer. Ela pode ser expressa como uma fração, um número decimal ou uma porcentagem.

A fórmula básica é:

P = número de eventos desejados / número de eventos possíveis

Por exemplo, ao lançar uma moeda equilibrada, a chance de sair cara é de 1 em 2, ou seja, 50%.

Ao lançar uma moeda equilibrada, há 1 resultado desejado (cara) entre 2 resultados possíveis (cara ou coroa).

P = 1 ÷ 2 = 0,5 = 50%

Na genética, o raciocínio é semelhante: analisamos as combinações possíveis de alelos que os pais podem transmitir aos filhos.

Neste conteúdo você encontra:

Por que a genética usa probabilidade

A probabilidade ajuda a prever as possíveis combinações genéticas dos descendentes. Um dos primeiros cientistas a utilizar esse raciocínio foi Gregor Mendel, conhecido por seus experimentos com ervilhas.

Mendel estudou características como a cor e a forma das sementes e observou que os resultados dos cruzamentos seguiam determinadas proporções.

Imagine duas plantas heterozigotas para uma característica, representadas pelo cruzamento Aa × Aa. Nesse exemplo, A é dominante e a é recessivo.

Cada planta pode produzir dois tipos de gametas: A ou a. Como a fecundação ocorre ao acaso, existem quatro combinações possíveis:

  • AA
  • Aa
  • Aa
  • aa

Assim, a probabilidade de um descendente apresentar cada genótipo é:

Genótipos Probabilidade (%)
AA 25%
Aa 50%
aa 25%

Observe a imagem:
Exemplo de cruzamento

Se A determina uma característica dominante, 75% dos descendentes esperados apresentarão o fenótipo dominante, enquanto 25% apresentarão o fenótipo recessivo.

É importante lembrar que essas porcentagens representam as chances esperadas. Elas não garantem que, em uma família com quatro filhos, exatamente três apresentarão a característica dominante.

Saiba mais em Leis de Mendel: resumo e contribuição para a Genética.

Regra do "e" (eventos simultâneos)

A regra do "e" é utilizada quando queremos calcular a probabilidade de dois eventos independentes acontecerem juntos.

Nesse caso, multiplicamos as probabilidades de cada evento.

P = (número de eventos desejados / número de eventos possíveis) x (número de eventos desejados / número de eventos possíveis)

Ou simplesmente, P(A e B) = P(A) × P(B)

Exemplo:

Considere o cruzamento Aa × Aa. Sendo, A dominante e a recessivo.

Queremos saber qual é a probabilidade de nascer uma menina com genótipo aa.

Passo 1: descobrir a probabilidade de cada evento.

Primeiro, vamos analisar o genótipo. O cruzamento Aa × Aa produz quatro combinações possíveis: AA, Aa, Aa e aa.

  • Resultados possíveis: AA, Aa, Aa e aa.
  • Resultado desejado: aa, que aparece em apenas uma das quatro combinações.

Portanto:

P = (número de eventos desejados / número de eventos possíveis)

P(aa) = 1 ÷ 4 = 25%

Agora, vamos analisar o sexo do bebê, considerando o modelo escolar simplificado:

  • Resultados possíveis: menina ou menino.
  • Resultado desejado: menina, que corresponde a um dos dois resultados possíveis.

Portanto:

P = (número de eventos desejados / número de eventos possíveis)

P(menina) = 1 ÷ 2 = 50%

Passo 2: calcular a probabilidade de os dois eventos acontecerem juntos.

Queremos que o bebê seja menina e tenha o genótipo aa. Como estamos considerando eventos independentes, multiplicamos as probabilidades:

P = P(aa) × P(menina)

P = (1 ÷ 4) × (1 ÷ 2)

P = 0,25 x 0,5 = 0,125 = 12,5%

Resposta: a probabilidade de nascer uma menina com genótipo aa é de 12,5%.

Dica:

Quando a questão pede uma característica e outra condição ao mesmo tempo, verifique se os eventos são independentes. Se forem, multiplique as probabilidades.

Regra do "ou" (eventos excludentes)

A regra do "ou" é utilizada quando queremos calcular a probabilidade de acontecer um evento ou outro, desde que sejam mutuamente exclusivos, ou seja, não possam ocorrer ao mesmo tempo no mesmo resultado.

Nesse caso, somamos as probabilidades.

P = (número de eventos desejados / número de eventos possíveis) + (número de eventos desejados / número de eventos possíveis)

Ou, simplesmente P(A ou B) = P(A) + P(B)

Exemplo:

No cruzamento Aa × Aa, queremos saber qual é a probabilidade de um descendente apresentar o fenótipo dominante.

Isso pode acontecer de duas maneiras: o descendente pode ter o genótipo AA ou o genótipo Aa.

Passo 1: identificar os resultados possíveis.

O quadro de Punnett apresenta quatro combinações:

  • AA
  • Aa
  • Aa
  • aa

Essas são as quatro combinações possíveis para o cruzamento.

Passo 2: identificar os resultados desejados.

Como A é dominante, os genótipos AA e Aa apresentam o fenótipo dominante.

  • Resultados desejados: AA, Aa e Aa.
  • Quantidade de resultados desejados: 3.
  • Quantidade de resultados possíveis: 4

Nesse caso, podemos calcular diretamente:

P = (número de eventos desejados / número de eventos possíveis)

P(fenótipo dominante) = 3 ÷ 4 = 0,75 = 75%

Também podemos resolver usando a regra do "ou".

A probabilidade de AA é:

P = (número de eventos desejados / número de eventos possíveis)

P(AA) = 1 ÷ 4 = 25%

A probabilidade de Aa é:

P = (número de eventos desejados / número de eventos possíveis)

P(Aa) = 2 ÷ 4 = 50%

Como o descendente não pode ter os genótipos AA e Aa ao mesmo tempo, somamos as probabilidades:

P(AA ou Aa) = P(AA) + P(Aa)

P = 25% + 50% = 75%

Resposta: a probabilidade de um descendente apresentar o fenótipo dominante é de 75%.

Dica:

Quando a questão pede um resultado que pode acontecer de duas maneiras diferentes e excludentes, some as probabilidades.

Atenção!

Se os eventos puderem ocorrer simultaneamente, a soma simples pode contar alguns resultados duas vezes. Nesse caso, é necessário considerar a parte em comum entre eles.

Aplicando ao quadro de Punnett

O quadro de Punnett é uma ferramenta visual que permite organizar as combinações possíveis entre os gametas dos pais e calcular a probabilidade dos genótipos dos descendentes.

Vamos utilizar o cruzamento Bb × bb.

Cada quadrado representa uma combinação possível entre os alelos transmitidos pelos pais.

Quadro de punnet no cruzamento Bb x bb

A partir do quadro, podemos calcular:

Resultado Probabilidade
Genótipo BB 0 ÷ 4 = 0%
Genótipo Bb 2 ÷ 4 = 50%
Genótipo bb 2 ÷ 4 = 50%
Fenótipo dominante 2 ÷ 4 = 50%
Fenótipo recessivo 2 ÷ 4 = 50%

Observe que o genótipo Bb aparece em dois quadrados. Por isso, sua probabilidade é de 2 ÷ 4, ou 50%. E o genótipo BB não apareceu em nenhum quadrado, Por isso, sua probabilidade é de 0 ÷ 4, ou seja, 0%

O quadro de Punnett ajuda a visualizar as possibilidades, enquanto as regras da probabilidade permitem resolver questões que envolvem mais de uma característica.

Saiba mais em Quadro de Punnett: o que é e como usar (com exemplos de cálculos).

Exemplo resolvido passo a passo

Em uma espécie fictícia de planta, a cor roxa das flores (R) é dominante sobre a cor branca (r), e o caule alto (A) é dominante sobre o caule baixo (a).

Duas plantas heterozigotas para as duas características foram cruzadas: RrAa × RrAa.

Qual é a probabilidade de nascer uma planta com flores brancas e caule alto?

Passo 1: analisar a cor das flores

Para que a planta tenha flores brancas, ela precisa apresentar o genótipo rr.

No cruzamento Rr × Rr, existem quatro combinações possíveis: RR, Rr, Rr e rr.

  • Resultados possíveis: RR, Rr, Rr e rr.
  • Resultado desejado: rr, que aparece uma vez.

Portanto:

P(flores brancas) = 1 ÷ 4 = 25%

Passo 2: analisar a altura do caule

Para que a planta tenha caule alto, ela pode apresentar o genótipo AA ou Aa, pois A é dominante.

No cruzamento Aa × Aa, existem quatro combinações possíveis: AA, Aa, Aa e aa.

  • Resultados possíveis: AA, Aa, Aa e aa.
  • Resultados desejados: AA, Aa e Aa, que correspondem a três combinações.

Portanto:

P(caule alto) = 3 ÷ 4 = 75%

Passo 3: aplicar a regra do "e"

A questão pede uma planta com flores brancas e caule alto.

Como estamos considerando que os genes são independentes, multiplicamos as probabilidades:

P(flores brancas e caule alto) = P(flores brancas) × P(caule alto)

P = (1 ÷ 4) × (3 ÷ 4)

P = 0,25 x 0,75 = 0,1875 = 18,75%

Resposta: a probabilidade de nascer uma planta com flores brancas e caule alto é de 18,75%.

E se a questão pedisse flores brancas ou caule baixo?

Nesse caso, utilizaríamos a regra do "ou". Porém, precisamos tomar cuidado: esses dois eventos podem acontecer juntos, pois uma planta pode ter flores brancas e caule baixo ao mesmo tempo.

Primeiro, calculamos as probabilidades individuais:

  • Flores brancas (rr): 1 ÷ 4 = 25%.
  • Caule baixo (aa): 1 ÷ 4 = 25%.

Se simplesmente somarmos 25% + 25%, contaremos duas vezes as plantas que apresentam flores brancas e caule baixo.

A probabilidade de apresentar as duas características recessivas é:

P(flores brancas e caule baixo) = (1 ÷ 4) × (1 ÷ 4) = 0,25 x 0,25 = 0,0625 = 6,25%.

Assim, para calcular a probabilidade de flores brancas ou caule baixo, subtraímos a parte contada duas vezes:

P = 25% + 25% − 6,25%

P = 43,75%

Esse exemplo mostra que a regra do "ou" exige atenção: quando dois eventos podem ocorrer simultaneamente, é necessário descontar a parte que eles têm em comum.

Perguntas frequentes

Quando uso a regra do "e" e quando uso a regra do "ou"?

Use a regra do "e" para calcular a chance de eventos independentes ocorrerem juntos. Nesse caso, multiplique as probabilidades.

Use a regra do "ou" quando os eventos forem mutuamente exclusivos, ou seja, não puderem acontecer simultaneamente no mesmo resultado. Nesse caso, some as probabilidades.

Como calcular a probabilidade de um casal ter um filho com determinada doença genética?

Primeiro, é necessário conhecer o padrão de herança da doença e, quando possível, os genótipos dos pais. Depois, pode-se utilizar um quadro de Punnett para identificar as combinações possíveis.

Por exemplo, se uma doença é recessiva e ambos os pais são heterozigotos (Aa), o cruzamento Aa × Aa apresenta uma probabilidade de 25% de um filho ter o genótipo aa. Esse exemplo considera uma condição mendeliana simples. Para estimar o risco de uma doença real, é necessário conhecer sua genética específica.

A probabilidade muda a cada filho?

Em cruzamentos independentes, a probabilidade esperada para cada filho permanece a mesma. Se a chance de determinado genótipo é de 25%, ela continua sendo de 25% em cada nova concepção, mesmo que os filhos anteriores tenham apresentado outros genótipos.

Qual é a diferença entre genótipo e fenótipo?

O genótipo corresponde à combinação de alelos de um indivíduo para determinada característica. O fenótipo é a característica observável ou detectável, que pode depender dos genes e também de fatores ambientais.

Toda característica genética segue as proporções de Mendel?

Não. As proporções mendelianas clássicas são aplicáveis a determinados padrões de herança. Existem características influenciadas por vários genes, pelo ambiente, por interações entre genes e por outros mecanismos, que podem apresentar resultados diferentes.

Para praticar: Exercícios de Genética para testar seus conhecimentos

Referências Bibliográficas

LOPES, Sônia; ROSSO, Sergio. Bio: volume 3. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2016.

SILVA JÚNIOR, César da; SASSON, Sezar; CALDINI JÚNIOR, Nelson. Biologia: ensino médio, volume 3. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 2016.

Rafaela Ribeiro
Rafaela Ribeiro
Professora de Biologia licenciada em Ciências Biológicas e mestranda em Zoologia, com pesquisa voltada à paleontologia e evolução de mamíferos.

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