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Exercícios sobre a Cecília Meireles (com gabarito)

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Português e Literatura

Confira a seguir os exercícios comentados sobre a escritora Cecília Meireles. Treine seus conhecimentos e continue estudando.

Leia o texto a seguir para responder às próximas questões.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Questão 1

No poema, a construção da identidade do eu lírico articula-se a partir de uma tensão entre permanência e transitoriedade. Tal tensão se manifesta estruturalmente por meio

a) da oscilação entre afirmações categóricas e a confissão reiterada de incerteza, compondo uma subjetividade que se define pelo próprio ato de cantar, mais do que por estados emocionais fixos.

b) da predominância de imagens concretas da natureza, que ancoram o sujeito poético em uma experiência sensorial estável e objetiva do mundo.

c) da narrativa linear da experiência biográfica do eu lírico, que apresenta começo, desenvolvimento e conclusão claramente delimitados.

d) da oposição entre vida prática e vida contemplativa, resolvida pela recusa explícita do fazer artístico como forma de alienação.

e) da progressiva tematização do engajamento social, que transforma o canto em instrumento de intervenção histórica.

Gabarito explicado

A alternativa correta é A, pois o poema estrutura-se na tensão entre afirmações (“Eu canto”, “Sei que canto”) e a reiterada incerteza (“não sei, não sei”), configurando um sujeito que se define menos por atributos psicológicos e mais pelo exercício da poesia.

As demais alternativas deslocam o foco para elementos ausentes (narratividade linear, engajamento social ou crítica ideológica explícita). 

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Questão 2

Considerando a perspectiva estética associada à obra de Cecília Meireles, o poema evidencia traços que o aproximam de uma lírica de orientação metafísica, sobretudo porque

a) constrói uma crítica direta às convenções sociais, substituindo-as por uma afirmação ideológica da autonomia individual.

b) privilegia a reflexão sobre o tempo e o destino humano, convertendo o canto em expressão de uma consciência que reconhece a transitoriedade da existência.

c) investe na experimentação formal radical, com ruptura sintática e abandono completo da métrica tradicional.

d) tematiza conflitos urbanos e históricos do século XX, explicitando o contexto político de sua produção.

e) desenvolve uma narrativa alegórica em que o poeta representa simbolicamente a coletividade nacional.

Gabarito explicado

A resposta correta é B, uma vez que o poema tematiza explicitamente a fugacidade (“irmão das coisas fugidias”), a instabilidade do ser e a consciência da morte (“um dia sei que estarei mudo”), traços recorrentes na lírica reflexiva de Cecília; não há crítica social direta nem experimentalismo radical.

Leia o texto a seguir para responder às próximas questões.

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Questão 3

No poema, a percepção da transformação do eu é construída por meio de determinados procedimentos estruturais. Considerando a organização sintática e imagética do texto, é correto afirmar que a mudança identitária se configura

a) como resultado de um evento externo claramente identificado, responsável por alterar radicalmente a trajetória do sujeito.

b) como crítica à passagem do tempo histórico, associada a transformações sociais e coletivas.

c) como superação de um conflito amoroso, sugerido pelas referências ao “lábio amargo” e ao “coração que nem se mostra”.

d) como processo gradual e quase imperceptível, evidenciado pela repetição anafórica e culminando na imagem do espelho como metáfora da crise de identidade.

e) como estratégia de autopromoção do sujeito poético, que dramatiza sua mudança para enfatizar sua singularidade.

Gabarito explicado

A alternativa correta é D, pois a repetição da estrutura “Eu não tinha” organiza o poema como uma enumeração retrospectiva que enfatiza a transformação involuntária e não percebida (“Eu não dei por esta mudança”), culminando na metáfora do espelho, que simboliza a perda ou fragmentação da identidade.

As demais alternativas projetam no texto causas externas ou dimensões sociais que não se sustentam estruturalmente.

Questão 4

O poema exemplifica o intimismo característico da segunda geração modernista sobretudo porque

a) privilegia a análise introspectiva do eu, focalizando a consciência da passagem do tempo e a experiência subjetiva da perda de identidade.

b) incorpora elementos da linguagem coloquial urbana, com forte marca de oralidade e crítica às convenções literárias tradicionais.

c) desenvolve temática nacionalista, associando a mudança individual ao destino histórico do país.

d) constrói um retrato objetivo e descritivo, próximo da observação realista do corpo envelhecido.

e) apresenta experimentalismo formal radical, rompendo com qualquer vestígio de musicalidade ou regularidade sintática.

Gabarito explicado

A resposta correta é A, uma vez que o poema concentra-se na interioridade do sujeito, explorando a consciência da passagem do tempo e a sensação de estranhamento diante de si mesmo — traços centrais do intimismo da segunda geração modernista — sem tematização histórica, nacionalista ou experimentalismo formal extremo, o que invalida as demais opções.

Questão 5

Elegia

Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.

Mas tudo é inútil,
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícias
do mundo que circula no vento.

No poema, a temática da morte organiza-se a partir do contraste entre as duas estrofes. Considerando essa construção, é correto afirmar que o texto apresenta a morte como

a) dissolução do indivíduo na plenitude da natureza, sugerindo continuidade sensorial após o fim da vida.

b) etapa transitória do ciclo natural, equiparando o destino humano aos movimentos recorrentes da paisagem descrita.

c) experiência subjetiva de recolhimento interior, enfatizando o silêncio como forma de contemplação do mundo.

d) metáfora do afastamento amoroso, relativizando sua dimensão física por meio da idealização da ausência.

e) suspensão definitiva da experiência sensível, contrapondo a vitalidade do mundo natural à impossibilidade de percepção do ser ausente.

Gabarito explicado

A alternativa correta é E, pois o poema constrói a morte como interrupção irreversível da experiência sensorial: a primeira estrofe intensifica sons, movimentos e cheiros da natureza, evidenciando a plenitude vital do mundo, enquanto a segunda declara a inutilidade dessa vitalidade diante de sentidos que já não funcionam (“ouvidos como conchas vazias”, “narina imóvel”), estabelecendo um contraste estrutural entre a continuidade da vida natural e a impossibilidade perceptiva daquele que morreu.

As demais alternativas atribuem ao texto ideias de continuidade, transitoriedade cíclica, interiorização contemplativa ou mera metáfora amorosa, interpretações que não se sustentam na oposição temática central do poema.

Leia o trecho da obra "Romanceiro da Inconfidência" para responder às próximas questões.

ROMANCE XIV OU DA CHICA DA SILVA

Que andor se atavia
naquela varanda?
É a Chica da Silva:
é a Chica-que-manda!

Cara cor da noite
olhos cor de estrela.
Vem gente de longe
para conhecê-la.

(Por baixo da cabeleira,
tinha a cabeça rapada
e até dizem que era feia.)

Vestida de tisso,
de raso e de holanda
– é a Chica da Silva:
– é a Chica-que-manda!

Escravas, mordomos
seguem, como um rio,
a dona do dono
do Serro do Frio.

(Doze negras em redor,
– como as horas, nos relógios.
Ela, no meio, era o sol!)

Um rio que, altiva,
dirige e comanda
a Chica da Silva,
a Chica-que-manda.

[...]

Questão 6

No trecho, a construção da figura de Chica da Silva evidencia uma tensão social característica do universo colonial representado na obra. Tal tensão se manifesta porque a personagem é apresentada como

a) símbolo da mobilidade social plena, integrada harmonicamente à elite colonial sem qualquer marca de contradição.

b) figura alegórica da mestiçagem brasileira, cuja ascensão elimina diferenças raciais e hierárquicas.

c) mulher que, embora elevada à posição de mando e ostentação, carrega marcas explícitas de origem e marginalidade.

d) personagem historicamente secundária, cuja presença apenas ornamenta o panorama narrativo da Inconfidência.

e) representação idealizada da beleza feminina, construída segundo padrões europeus de prestígio e distinção.

Gabarito explicado

A alternativa correta é C, pois o poema constrói Chica da Silva como figura ambígua: ao mesmo tempo em que é apresentada como autoridade (“Chica-que-manda”, “dona do dono”), cercada de luxo e séquito, conserva marcas explícitas de sua origem escravizada e racializada, o que evidencia as tensões de poder e pertencimento na sociedade colonial.

Questão 7

No plano formal, o trecho aproxima-se da tradição do romanceiro sobretudo porque

a) organiza-se em versos livres e irregulares, rompendo com qualquer traço de musicalidade ou repetição estrutural.

b) constrói-se por meio de redondilhas, paralelismos e refrões, incorporando recursos de oralidade e cadência narrativa.

c) adota estrutura fixa de soneto, com rimas interpoladas e progressão argumentativa conclusiva.

d) privilegia longos períodos hipotáticos, próprios da narrativa em prosa historiográfica.

e) desenvolve descrição puramente objetiva, sem marcas de ritmo ou encadeamento sonoro.

Gabarito explicado

A alternativa correta é B, já que o trecho mobiliza recursos típicos do romanceiro, como redondilhas, paralelismos e refrões reiterativos, que conferem musicalidade, ritmo e caráter narrativo-cantável ao poema, aproximando-o da tradição oral ibérica.

Questão 8

Considerando o conjunto da obra Romanceiro da Inconfidência, o episódio de Chica da Silva contribui para a temática geral ao

a) deslocar o foco exclusivamente para dramas amorosos, afastando-se do contexto histórico da Inconfidência Mineira.

b) apresentar figuras marginais ao núcleo dos inconfidentes, ampliando o panorama histórico e social do ciclo do ouro em Minas Gerais.

c) negar a dimensão histórica da narrativa, substituindo-a por fantasia lendária desvinculada de fatos.

d) concentrar-se apenas na exaltação heroica dos líderes revolucionários.

e) romper com a perspectiva crítica da obra, ao privilegiar descrição pitoresca e decorativa da sociedade colonial.

Gabarito explicado

A alternativa correta é B, porque o episódio de Chica da Silva amplia o panorama histórico da obra ao incluir personagens que compõem o tecido social do ciclo do ouro, indo além da focalização exclusiva dos inconfidentes e revelando as contradições e hierarquias da sociedade mineira setecentista.

Saiba mais em: Cecília Meireles

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Língua Portuguesa e Literatura formado pela Universidade de São Paulo (USP) e graduando na área de Pedagogia (FE-USP). Atua, desde 2017, dentro da sala de aula e na produção de materiais didáticos.