Exercícios sobre Carlos Drummond de Andrade (com gabarito explicado)
Confira a seguir os exercícios sobre Carlos Drummond de Andrade. Treine seus conhecimentos com as questões e continue estudando.
Questão 1
O trecho a seguir integra a lírica social de Carlos Drummond de Andrade, produzida no contexto da Segunda Guerra Mundial:
[...]
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
[...]
DRUMMOND, Carlos. Carta a Stalingrado. In.: A rosa do povo, 1945.
Considerando o projeto estético da chamada “poesia social” de Drummond, especialmente em A rosa do povo (1945), é correto afirmar que o trecho evidencia:
a) a recusa do poeta em dialogar com a tradição literária, substituindo-a integralmente pela linguagem jornalística e objetiva dos fatos históricos.
b) a incorporação da realidade histórica imediata ao fazer poético, fundindo referências clássicas e acontecimentos contemporâneos para redefinir o papel da poesia.
c) a defesa de uma poesia puramente épica, centrada na exaltação heroica das nações aliadas durante o conflito mundial.
d) a valorização da subjetividade individual como forma de evasão diante da violência histórica e da destruição das cidades europeias.
e) a afirmação de que a poesia perdeu sua função estética, tornando-se apenas registro documental dos eventos políticos do século XX.
O fragmento evidencia a inserção da matéria histórica no poema, característica central da fase social de Drummond.
Ao afirmar que “a poesia fugiu dos livros” e está “nos jornais”, o eu lírico sugere a incorporação do noticiário da guerra ao campo poético. A referência a Homero estabelece um diálogo com a tradição épica, mas não para negá-la; antes, para atualizá-la, pois os “telegramas de Moscou” passam a cumprir função análoga à da epopeia antiga.
Trata-se, portanto, de uma redefinição do estatuto da poesia diante do mundo moderno, que articula tradição e contemporaneidade, estética e engajamento histórico.
Questão 2
Leia o poema a seguir.
ÁPORO
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
No poema “Áporo”, de Carlos Drummond de Andrade, observa-se um trabalho rigoroso com a linguagem, em que recursos sonoros contribuem para a construção de sentido. Considerando especialmente a recorrência do fonema /s/ ao longo do texto, assinale a alternativa correta.
a) A repetição do fonema /s/ cria um efeito de suavidade sonora que contrasta com a ideia de esforço e tensão expressa pela imagem do inseto que cava.
b) A aliteração em /s/ reproduz acusticamente o movimento contínuo e insistente do inseto, sugerindo o som da escavação e reforçando a sensação de persistência silenciosa.
c) O uso reiterado do fonema /s/ estabelece uma musicalidade épica, aproximando o poema de uma tradição heroica semelhante à das epopeias clássicas.
d) A concentração do fonema /s/ ocorre apenas na última estrofe, intensificando o caráter ornamental da imagem da orquídea.
e) A aliteração em /s/ tem função meramente estética, sem estabelecer relação significativa com o conteúdo temático do poema.
A recorrência do fonema fricativo alveolar surdo /s/ (em palavras como “inseto”, “sem”, “escape”, “exausto”, “país”, “enlace”, “desata”, “sozinha”) produz um efeito sonoro sibilante que remete ao ruído contínuo e discreto da escavação. Esse procedimento reforça o caráter insistente, silencioso e subterrâneo da ação do inseto, articulando forma e conteúdo — traço característico da poesia de Drummond. Assim, o recurso fônico não é apenas ornamental, mas estrutural na construção do sentido do poema.
Questão 3
Anoitecer
A Dolores
É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.
[...]
É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz – morte – mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,
agasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.
ANDRADE, C. D. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 2005 (fragmento).
Nesse fragmento, a substituição do “sino” por “buzinas”, “sirenes” e “apitos” contribui para expressar
a) a valorização do progresso técnico-industrial como marca do novo tempo histórico.
b) a neutralidade do espaço urbano diante dos conflitos internacionais.
c) a transformação da paisagem sonora em metáfora do mundo em guerra.
d) a celebração da vida noturna como espaço de movimento e liberdade individual.
e) a retomada nostálgica de tradições religiosas como forma de enfrentamento do medo.
A oposição entre o “sino” (tradicionalmente associado à religiosidade e ao recolhimento) e os ruídos urbanos (“buzinas”, “sirenes”, “apitos”) constrói uma paisagem sonora tensa e desarmoniosa. No contexto histórico da guerra, esses sons remetem a alarmes e à insegurança coletiva, funcionando como metáfora da experiência moderna marcada pelo medo e pela instabilidade. Assim, a expressividade do poema associa o espaço urbano à atmosfera de conflito e angústia própria do período.
Questão 4
ELEGIA 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
No poema “Elegia 1938”, de Carlos Drummond de Andrade, o eu lírico constrói um retrato crítico do indivíduo inserido na modernidade urbana e nas engrenagens históricas do século XX.
Considerando o contexto histórico da década de 1930 e os procedimentos expressivos do poema, assinale a alternativa correta.
a) O poema exalta a capacidade heroica do indivíduo moderno de transformar a realidade por meio da ação revolucionária imediata.
b) A menção à “ilha de Manhattan” reforça a admiração do eu lírico pelo progresso econômico e tecnológico norte-americano.
c) A enumeração de dificuldades cotidianas (fome, desemprego, guerra) é empregada para valorizar a resignação como atitude moral superior.
d) O texto defende a literatura como instrumento eficaz de transformação social, capaz de substituir a ação política concreta.
e) A referência à “Grande Máquina” sugere uma visão crítica da sociedade industrial e capitalista, que reduz o indivíduo à condição de peça insignificante.
A expressão “Grande Máquina” opera como metáfora da engrenagem social, econômica e histórica que submete o indivíduo. Inserido em um “mundo caduco”, o sujeito poético é reposicionado “pequenino” diante de forças estruturais que o excedem, como o sistema capitalista simbolizado pela “ilha de Manhattan”. O poema articula desencanto histórico e crítica à alienação do homem moderno, evidenciando a impotência individual frente às macroestruturas sociais.
Questão 5
Leia o texto a seguir para responder a questão.
A trajetória poética de Carlos Drummond de Andrade costuma ser dividida, para fins didáticos, em fases que não se excluem rigidamente, mas revelam mudanças de ênfase temática e formal. Em sua produção inicial, marcada pelo diálogo com o Modernismo de 1922, predominam a ironia, o coloquialismo e o foco na subjetividade problemática do indivíduo moderno. Em momento posterior, intensifica-se a dimensão social de sua poesia, com maior atenção às tensões históricas, políticas e coletivas, sobretudo no contexto das décadas de 1930 e 1940. Já em sua maturidade, observa-se um aprofundamento metafísico, em que questões como o tempo, a morte, a memória e o sentido da existência passam a ocupar lugar central, muitas vezes com linguagem mais reflexiva e elaborada.
Considerando as fases poéticas de Carlos Drummond de Andrade, assinale a alternativa correta.
a) A chamada fase gauche caracteriza-se pelo nacionalismo ufanista e pela exaltação heroica do povo brasileiro, em consonância com o projeto romântico do século XIX.
b) A fase social distingue-se pela recusa de qualquer engajamento histórico, privilegiando exclusivamente conflitos íntimos e existenciais do eu lírico.
c) A fase metafísica apresenta abandono completo da reflexão subjetiva, substituída por uma linguagem objetiva e descritiva, voltada à representação documental da realidade.
d) A fase inicial modernista combina ironia, autocrítica e questionamento da identidade individual, enquanto a fase social amplia o foco para conflitos históricos e coletivos.
e) As diferentes fases do poeta são estanques e independentes entre si, não havendo permanências temáticas ou formais ao longo de sua obra.
O gabarito correto é a alternativa D, pois descreve adequadamente a evolução predominante — embora não rígida — das fases poéticas de Carlos Drummond de Andrade: na fase inicial modernista, associada ao chamado “gauche”, predominam a ironia, o coloquialismo e a problematização da identidade individual; já na fase social, intensifica-se a consciência histórica e coletiva, sobretudo diante das tensões políticas das décadas de 1930 e 1940.
Questão 6
Leia os trechos de “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, e de A náusea, de Jean-Paul Sartre, e responda à questão.
Texto I
A flor e a náusea [trecho]
[...]
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade
Texto II
A náusea [trecho]
“Alguma coisa começa para terminar: a aventura não se deixa prolongar; só tem sentido através de sua morte. Para essa morte, que será talvez também a minha, sou arrastado inexoravelmente. Cada instante só surge para trazer os que lhe seguem. Apego-me a cada instante com todo o meu coração: sei que é único, insubstituível – e no entanto não faria um gesto para impedi-lo de se aniquilar. Esse último minuto que passo – em Berlim, em Londres – nos braços de uma mulher que conheci na antevéspera – minuto que amo apaixonadamente, mulher que estou perto de amar – vai terminar, eu sei. Dentro em pouco partirei para outro país. Não tornarei a encontrar essa mulher, nem essa noite, nunca mais. Debruço-me sobre cada segundo, tento esgotá-lo; nada se passa que eu não capte, que não fixe para sempre em mim, nada, nem a ternura fugaz desses belos olhos, nem os ruídos das ruas, nem a claridade titubeante do amanhecer: e no entanto o minuto se esgota e não retenho, gosto que passe.
E depois, subitamente, algo se quebra. A aventura terminou, o tempo retoma sua languidez quotidiana. Viro-me; atrás de mim aquela forma melódica mergulha inteira no passado. Diminui, contrai-se ao declinar, agora o fim se confunde com o começo. Acompanhando com o olhar esse ponto dourado, penso que aceitaria – ainda que tivesse estado ameaçado de morte, ou tivesse perdido um amigo, uma fortuna – reviver tudo na mesma circunstância, de cabo a rabo. Mas uma aventura não recomeça, nem se prolonga.”
Jean-Paul Sartre
Considerando a tematização da experiência moderna nos dois textos, é correto afirmar que ambos:
a) apresentam a náusea como experiência paralisante e definitiva, anulando qualquer possibilidade de superação simbólica ou ação transformadora.
b) associam a percepção do tempo à ideia de repetição cíclica, defendendo que a experiência humana pode ser integralmente revivida nas mesmas condições.
c) tematizam a condição moderna como marcada pela precariedade e pela consciência aguda do tempo, mas divergem quanto à resposta simbólica.
d) recusam qualquer dimensão histórica ou urbana, concentrando-se exclusivamente na interioridade subjetiva do narrador ou eu lírico.
e) propõem uma visão harmoniosa da existência, na qual o sujeito encontra plenitude ao aceitar a fugacidade dos instantes vividos.
A alternativa C é correta porque ambos os textos partem de uma experiência de mal-estar ligada à modernidade: em Drummond, materializada no “tédio, nojo e ódio” do espaço urbano; em Sartre, na consciência da fugacidade e da irreversibilidade do tempo.
No entanto, os textos divergem na elaboração simbólica dessa experiência: enquanto no poema a flor que “fura o asfalto” funciona como imagem de resistência e possibilidade histórica em meio à degradação, no trecho do romance predomina a percepção existencial da contingência e da impossibilidade de reter ou reiniciar a experiência vivida, característica central da filosofia.
Questão 7
A poesia de Carlos Drummond de Andrade, especialmente a partir da década de 1930, dialoga com transformações estéticas e históricas do chamado “segundo momento” do Modernismo brasileiro.
Considerando esse contexto, é correto afirmar que a obra de Drummond, nesse período,
a) retoma o formalismo parnasiano, valorizando métrica rígida e impessoalidade como forma de reação à liberdade estética da Semana de 1922.
b) radicaliza o experimentalismo visual e sonoro típico das vanguardas europeias, aproximando-se integralmente do futurismo e do dadaísmo.
c) combina herança modernista — como verso livre e linguagem coloquial — com aprofundamento crítico da realidade social e histórica brasileira.
d) abandona qualquer reflexão individual, priorizando exclusivamente a exaltação patriótica do Estado Novo.
e) substitui a subjetividade lírica por uma narrativa épica de caráter nacionalista e heroico.
A alternativa C está correta porque a poesia drummondiana da década de 1930 mantém conquistas formais do Modernismo de 1922 , como o verso livre, a oralidade e a ruptura com modelos tradicionais, mas as articula a uma consciência histórica mais aguda, refletindo tensões políticas, sociais e existenciais do período entre-guerras e da industrialização brasileira.
Questão 8
O chamado “eu gauche”, recorrente na obra inicial de Carlos Drummond de Andrade, tornou-se uma das marcas da lírica modernista brasileira.
Em termos histórico-literários, essa figura do sujeito pode ser compreendida como
a) expressão de inadequação e deslocamento do indivíduo diante da modernização urbana e das transformações socioculturais do século XX.
b) retomada do ideal romântico de herói sensível, plenamente integrado à natureza e à pátria.
c) representação alegórica do trabalhador industrial como protagonista da revolução social iminente.
d) síntese do otimismo futurista, que celebra a técnica e o progresso como solução para o mal-estar humano.
e) manifestação de uma religiosidade tradicional, que encontra na fé a superação dos conflitos modernos.
A alternativa A é correta porque o “gauche” drummondiano encarna o sentimento de inadequação do sujeito moderno diante da urbanização acelerada, da fragmentação das experiências e das crises ideológicas do século XX, constituindo uma figura emblemática do Modernismo brasileiro ao articular subjetividade crítica e consciência histórica.
Saiba mais em: Carlos Drummond de Andrade
Continue praticando: Exercícios sobre a segunda geração modernista
LUIS, Rodrigo. Exercícios sobre Carlos Drummond de Andrade (com gabarito explicado). Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/exercicios-sobre-carlos-drummond-de-andrade-com-gabarito-explicado/. Acesso em: