O Navio Negreiro de Castro Alves


O Navio Negreiro é uma obra do escritor baiano romântico Castro Alves (1847-1871) que foi publicada em 1869.

Trata-se de uma poesia abolicionista, onde o autor aborda o tema da escravidão no Brasil.

Características da Obra

O Navio Negreiro um poema épico dramático dividido em seis partes. Nessa obra, Castro Alves relata as condições dos navios negreiros, os quais traziam escravos africanos para o Brasil.

Sentimento de liberdade, nacionalismo ufanista, denúncia social e busca de uma identidade nacional, são algumas das principais caraterísticas da poesia abolicionista de Castro Alves.

Além de descrever aspectos do navio de escravos, Castro Alves apresenta também a natureza circundante (o mar, o céu, o luar).

Numa narrativa vibrante e com uma linguagem expressiva, o autor vai aos poucos denunciado as precárias condições dos escravos. Dessa forma, ele vai tecendo diversas críticas a esse sistema tão desumano.

Para compor essa obra dramática ele utiliza diversas figuras de linguagem: metáforas, comparações, personificação, anáforas, dentre outras.

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Castro Alves

Castro Alves, conhecido como “poeta dos escravos”, foi um dos maiores representantes da Terceira Geração Romântica no Brasil (1870 a 1880).

Esse período foi chamado de “Geração Condoreira” (associado a ave condor, emblema dos Andes) ou “Geração Hugoniana” (referente ao poeta francês Victor Hugo).

Os poetas dessa fase estavam dedicados em apresentar uma poesia social e libertária, bem diferente das características das outras gerações românticas.

Ainda que seja um dos maiores representantes da poesia abolicionista e social, Castro Alves apresenta obras de caráter lírico-amoroso. Por esse motivo, é também conhecido como “poeta do amor”.

Além de O Navio Negreiro destacam suas obras: Espumas Flutuantes (1870), A Cachoeira de Paulo Afonso (1876) e Os Escravos (1883).

Na infância, Castro Alves chegou a morar numa fazenda. Isso lhe permitiu conhecer as condições de muitos escravos nas senzalas e se posicionar contra os horrores da escravidão.

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Trechos da Obra

Para compreender melhor a linguagem utilizada por Castro Alves na composição de sua obra, segue abaixo alguns trechos do poema:

I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Confira a obra na íntegra, fazendo o download do PDF aqui: O Navio Negreiro.

Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.