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Revolta dos Malês

Lucas Pereira
Lucas Pereira
Professor de História

A Revolta dos Malês ocorreu em Salvador, Província da Bahia, na madrugada do dia 25 de janeiro de 1835, liderada por personagens como Pacífico Licutan e Manuel Calafate.

A revolta foi organizada pelos escravos de origem islâmica (sobretudo das etnias hauçá e nagô). Eles buscavam principalmente a liberdade religiosa, o combate à forma como a escravidão era praticada e o fim dos castigos físicos.

Por conta da superioridade bélica e também de uma delação realizada, as tropas imperiais conseguiram sufocar o movimento.

Neste conteúdo você encontra:

Quais eram os objetivos da Revolta dos Malês

A Revolta dos Malês buscava mudar completamente a forma como a sociedade da Bahia funcionava. Seus objetivos misturavam objetivos religiosos e políticos, porque eles eram oprimidos de duas maneiras ao mesmo tempo: por serem escravizados e por serem muçulmanos.

Desta forma, os revoltosos buscavam:

  • Libertar os escravizados muçulmanos: o objetivo principal era libertar todas as pessoas que seguiam a religião islâmica. Mas eles também convidaram outros africanos que não eram muçulmanos (como os praticantes do candomblé) para lutarem juntos contra o domínio dos brancos.
  • Criar um governo islâmico: alguns historiadores defendem que os rebeldes queriam tomar o controle da cidade de Salvador e criar um novo tipo de governo, liderado por africanos e baseado nas leis da religião muçulmana. Seria como fundar um país novo dentro da Bahia.
  • Acabar com as torturas e a imposição religiosa: eles estavam revoltados com os castigos violentos, as humilhações e o fato de serem obrigados a seguir o catolicismo. Queriam ter liberdade total para praticar sua própria cultura e religião.
  • Eliminar a elite dominante e tomar suas propriedades: segundo documentos da época, o plano incluía atacar e eliminar os brancos, mulatos e crioulos (negros nascidos no Brasil) que fossem contra o movimento.

Quem eram os principais líderes dessa revolta

A revolta foi organizada por lideranças africanas muçulmanas que tinham grande influência na comunidade. Muitos deles eram mestres religiosos (conhecedores do Alcorão e da tradição islâmica) e também participaram do planejamento do levante.

Entre as lideranças, destacam-se:

  • Pacífico Licutan (também chamado de Bilal): era um professor religioso bastante influente entre os africanos muçulmanos de Salvador. Mesmo estando preso antes do início da revolta, continuou sendo uma figura de referência para o grupo. Os revoltosos pretendiam libertá-lo logo nos primeiros momentos do levante.
  • Manuel Calafate: era um africano liberto. Possuía uma loja com porão na Ladeira da Praça, local que teria sido utilizado para reuniões nos dias que antecederam a revolta. Era reconhecido como conhecedor da religião islâmica e morreu nos primeiros confrontos com as forças oficiais.
  • Luis Sanim: possuía notório conhecimento do Alcorão (livro sagrado do islamismo) e participou da mobilização e da organização do movimento.
  • Ahuna: era identificado como nagô e atuou como uma das principais lideranças do levante. Desempenhou papel relevante tanto na articulação das ações quanto na orientação religiosa do grupo.
  • Mala Abubaker: é apontado pelas fontes como participante do planejamento da revolta. Há registros de que teria redigido, em árabe, documentos relacionados à organização do movimento.

Quais foram os acontecimentos da Revolta (linha do tempo)

A Revolta dos Malês foi planejada com muito cuidado, mas acabou sendo descoberta no último momento por causa de uma traição. Vamos entender como tudo aconteceu:

O planejamento e a escolha da data: os líderes marcaram o ataque para a madrugada do dia 25 de janeiro de 1835. Essa data foi escolhida de propósito porque era o fim do Ramadã (um período sagrado para os muçulmanos) e também tinha festas católicas acontecendo. A ideia era aproveitar que as autoridades estariam distraídas com as comemorações.

A traição (24 de janeiro): na tarde anterior ao ataque, um homem chamado Domingos Fortunato contou sobre os planos da revolta para sua esposa, Guilhermina Rosa de Souza. Ela, então, avisou as autoridades sobre o que estava para acontecer.

O começo forçado (23h do dia 24): após a denúncia do plano, a polícia cercou o prédio na Ladeira da Praça, onde os líderes estavam reunidos. Os Malês foram obrigados a iniciar a revolta antes do previsto, tentando escapar. Com a denúncia, o elemento surpresa da revolta foi perdido.

As batalhas na cidade (madrugada de 25 de janeiro):

  • Ladeira da Praça: aconteceu a primeira luta. Os Malês até conseguiram vencer no início, mas perderam alguns de seus líderes importantes.
  • Praça do Palácio: tentaram invadir a cadeia para soltar o líder Pacífico Licutan, mas não conseguiram.
  • Água dos Meninos: o último e um dos maiores combates. No Quartel da Cavalaria, os rebeldes foram derrotados pelas armas de fogo e pelos soldados a cavalo.

A punição (maio de 1835): depois da derrota, centenas de africanos foram presos. No dia 14 de maio de 1835, alguns foram executados, outros receberam chicotadas e muitos foram deportados (mandados embora do Brasil).

Linha do tempo sobre a revolta dos Malês
Clique na imagem para ampliar.

As punições para os envolvidos

Cerca de 200 revoltosos foram presos e julgados, e o resultado foi:

  • pena de morte para os principais líderes do movimento;
  • fuzilamentos, açoites e trabalhos forçados para os outros envolvidos.

Embora tenha sido reprimida, a Revolta dos Malês aumentou o medo das autoridades do Império e dos senhores de escravizados.

Muitos temiam que o Brasil enfrentasse uma revolta semelhante à que ocorreu no Haiti, onde uma grande insurreição levou ao fim da escravidão e à independência do país.

Por isso, a repressão foi intensificada. Houve maior controle sobre os africanos escravizados, incluindo restrições à prática de religiões não católicas e à circulação nas ruas durante a noite.

Contexto histórico da Revolta dos Malês

Em meados do século XIX, durante o Período Regencial, muitas revoltas ocorreram no país. Por exemplo, o período foi marcado pela eclosão da Cabanagem, da Sabinada, da Balaiada, da Farroupilha e da Revolta do Malês.

Os motivos dessas revoltas são diversos. No entanto, destacam-se as:

  • disputas políticas entre grupos da elite brasileira, agravadas pela ausência de um imperador adulto no poder.
  • insatisfação das camadas mais pobres da população.

No caso da Revolta do Malês, a mobilização dos escravizados se espalhou pela Bahia por dois principais motivos:

  • o sistema político e econômico baseado na escravidão;
  • a luta pela liberdade religiosa, já que muitos eram obrigados a participar de cultos católicos.

A Revolta dos Malês contou com a participação de cerca de 1.500 africanos escravizados, principalmente muçulmanos, que lutavam pela liberdade religiosa e contra a violência da escravidão.

Curiosidades

  • A data em que ocorreu o Levante dos Malês foi escolhida pelos líderes, de forma que representava o período mais importante para os muçulmanos denominado “Ramadã”, em que ocorrem muitas preces e jejuns. Assim, a revolta aconteceu exatamente no dia 25 de janeiro, no final do mês de jejum.
  • Mala Abubaker é o escravo que escreveu o plano de ataque da Revolta dos Malês.
  • Durante a Revolta dos Malês, somente na cidade de Salvador, existiam aproximadamente 27.500 escravos, ou seja, cerca de 42% da população.
  • No levante dos Malês, alguns escravos utilizaram técnicas de luta da capoeira.

Para praticar: Exercícios sobre a Revolta dos Malês (com gabarito explicado)

Para saber mais:

Referências Bibliográficas

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2013.

REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos malês (1835). São Paulo: Brasiliense, 1986.

SCHWARCZ, Lilia M; STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Lucas Pereira
Lucas Pereira
Bacharel e Licenciado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2013), com mestrado em Ensino de História pela mesma instituição (2020). Atua como professor de História na educação básica e em cursos pré-vestibulares desde 2013. Desde 2016, também desenvolve conteúdos educativos na área de História.