África Portuguesa

Juliana Bezerra

A África Portuguesa compreende os territórios que foram colonizados pelos portugueses durante o século XV-XVI no continente africano.

Em consequência da expansão ultramarina foram dominados os territórios hoje pertencentes a Guiné-Bissau, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Moçambique.

Além do passado colonial, estes países hoje compartilham a língua portuguesa como idioma oficial e fazem parte de organizações como Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Origem

A necessidade de estabelecer novas relações mercantilistas levaram Portugal a edificar um importante império na África.

Na busca por uma nova rota de chegada à Índia, os navegadores lusos percorreram a costa africana e estabeleceram o circuito de incursões que ficou conhecido como Périplo Africano.

As riquezas no território africano eram imensas, contudo, foi a exploração do tráfico negreiro a atividade que mais rendeu lucros à Coroa.

No processo cultural dos povos africanos, os dominantes escravizavam os dominados e esse fator contribuiu para o sucesso dos europeus em capturar com mais facilidade as pessoas que serviriam como propriedade nas demais colônias.

A mão de obra escrava era destinada aos engenhos de açúcar instalados na América Portuguesa, em São Tomé e na Ilha da Madeira.

Ocupação

No início, a Coroa instalou feitorias que consistiam em pontos no litoral africano onde os portugueses construíam fortes.

As feitorias eram essenciais para o abastecimento das caravelas que iam rumo às Índias e, mais tarde, seriam ponto de embarque de pessoas que seriam escravizadas na América.

Igualmente, tinham como objetivo a negociação de produtos com nativos da região

Angola

Bandeira de Angola

  • Nome Oficial: República de Angola
  • Capital: Luanda
  • Nº de habitantes: 28,82 milhões (2016)
  • Superfície:1.246.000 km2
  • Independência: 11 de novembro de 1975

O primeiro desembarque português na África continental ocorreu entre 1483 e 1485, quando Diogo Cão (1440-1486) chegou a Angola.

O processo de colonização só começou em 1575, quando cerca de 400 colonos liderados por Paulo Dias Novais (1510-1589) fundaram a cidade de São Paulo de Luanda.

Também se aliaram ao rei local Ngola Kiluanji Kiassamba e combatiam os rivais deste em troca de autorização para circular naquelas terra.

Como suporte ao povoamento, a Coroa estabeleceu em Angola os regimes de Capitanias Hereditárias e Sesmarias que, a essa altura, já eram aplicados no Brasil.

Angola era a mais rica das províncias ultramarinas portuguesas e onde foram encontrados diamantes, petróleo, gás, ferro, cobre e urânio.

Moçambique

Bandeira de Moçambique

  • Nome Oficial: República de Moçambique
  • Capital: Maputo
  • Nº de habitantes: 28,83 milhões (2016)
  • Superfície: 801 590 km2
  • Independência: 25 de junho 1975

A primeira investida portuguesa ao território de Moçambique ocorreu em 1490, sob o comando de Pero da Covilhã (1450-1530).

Situado na África oriental, na costa do Oceano Índico, os portugueses se instalaram na ilha de Moçambique e na cidade de Sofala fundada por Covilhã em 1505.

A interiorização se deu através da navegação pelo rio Zambeze onde foi criada da feitoria de Tete, em 1537, destinada a controlar o comércio local.

Assim como ocorreu com Angola, o transporte de escravos era o setor que mais rendia lucros à Coroa na região. Moçambique servia também como base para os portugueses combaterem os árabes que disputavam o mercado das Índias.

Somente no final do século XIX, entre 1890 e 1915, com a iminente colonização da África por ingleses e alemães, Portugal vai ocupar o território moçambicano.

Moçambique é rico em minérios, metais preciosos e importante reserva de gás natural.

Guiné-Bissau

Bandeira da Guiné

  • Nome Oficial: República de Guiné-Bissau
  • Capital: Bissau
  • Nº de habitantes: 1,796 milhões (2016)
  • Superfície: 36 125 km2
  • Independência: 24 de setembro de 1975

Guiné-Bissau está localizada na África ocidental e foi o navegador Nuno Tristão (séc. XV) quem aportou no local logo após a transposição do Cabo do Bojador realizada por Gil Eanes em 1434.

Em Cacheu foi fundada a primeira feitoria em 1588 aonde se comercializavam os escravos. Hoje em dia, nesta cidade, há um museu e memorial sobre a escravatura e tráfico negreiro.

Estima-se que em Guiné-Bissau haja mais de 30 etnias que utilizam a língua crioula para comunicar-se entre si.

Atualmente, o português está perdendo espaço para o francês e calcula-se que apenas 10% da população o entenda.

Igualmente, a religião católica trazida pelos colonizadores portugueses, convive com o crescimento do islamismo e das religiões evangélicas.

O arroz é a base da alimentação da população, enquanto o principal produto de exportação é o caju. O turismo tem um grande potencial devido às belezas naturais e aos hipopótamos marítimos, no entanto, é pouco desenvolvido.

Cabo Verde

Bandeira de Cabo Verde

  • Nome Oficial: República de Cabo Verde
  • Capital: Praia
  • Nº de habitantes: 560 mil (2016)
  • Superfície: 4 033 km2
  • Independência: 5 de julho de 1975

O arquipélago de Cabo Verde está localizado no Oceano Atlântico e é composto por cerca de dez ilhas vulcânicas.

O desembarque português nas ilhas ocorreu inicialmente entre 1460 e 1462 e as terras estavam completamente desabitadas. A falta de nascentes de água doce explicam o motivo de nenhum ser humano ter povoado a região.

Dentre os primeiros navegantes que chegaram ali estão o veneziano Alvise Cadamosto (1429-1488) e o genovês Antonio Noli (1415-1491) que faziam parte dos exploradores a serviço do Infante Dom Henrique (1394-1460), na "escola" de Sagres.

O arquipélago recém-descoberto foi essencial na diplomacia entre o reino de Castela e Portugal, pois era o marco divisório do Tratado de Tordesilhas.

A primeira feitoria foi fundada na Ilha de Santiago e as demais ilhas foram usadas como escala para abastecer navios e ao tráfico de escravos.

A formação do povo local contou com cristãos, judeus, mouros e os escravos que eram transportados de Guiné-Bissau.

Com a proibição do tráfico negreiro e a gradual abolição da escravidão no Brasil, a economia cabo-verdiana foi entrando em decadência.

Hoje, o país depende principalmente do turismo e dos investimentos externos para sobreviver.

São Tomé e Príncipe

Bandeira de São Tomé e Príncipe

  • Nome Oficial: República Democrática de São Tomé e Príncipe
  • Capital: São Tomé
  • Nº de habitantes: 158 mil (2016)
  • Superfície: 1011 km2
  • Independência: 12 de julho de 1975

Distribuído em uma área de 964 quilômetros quadrados, São Tomé e Príncipe foi reconhecido pela primeira vez em 1470, pelos navegadores Pero Escobar, Fernão Pó e João de Santarém. As terras estavam desabitadas e o povoamento começou 15 anos depois, sob o comando de Álvaro de Caminha.

Caminha foi donatário das ilhas e introduziu a plantação de cana de açúcar e iniciou a ocupação da mesma com filho de judeus recém conversos, degredados e negros escravizados para as plantações.

Serviu ainda de entreposto de escravos que seguiam para a América Portuguesa e parada das caravelas rumo às Índias.

A partir do século XIX é introduzido o cultivo de cacau e já em 1900, o arquipélago chegou a ser o maior produtor de cacau do mundo e hoje ainda figura como um grande exportador. O turismo também traz divisas às ilhas.

Independência

A independência das antigas colônias portuguesas deve ser entendida no contexto do mundo pós Segunda Guerra e da Guerra Fria.

Em 1945, com a fundação da ONU e diante das atrocidades cometidas no conflito, a sociedade havia mudado sua percepção sobre o termo “colonização”.

Assim, este organismo passa a pressionar os países que ainda possuíam colônias para que lhes concedessem a independência.

Para driblar esta imposição, muitos países imperialistas mudam os status de seus territórios. O Reino Unido reúne uma parte de suas colônicas na Commonwealth; e a França, Holanda e Portugal os transformam em "províncias ou territórios de ultramar".

Portugal, particularmente, não aceita a resolução da ONU e mesmo trocando o nome das colônias para Províncias do Ultramar continua a ter uma relação de metrópole-colônia com seus territórios africanos.

No entanto, houve territórios que não se encaixaram em nenhuma das alternativas oferecidas pelas suas metrópoles e entraram em guerra para garantir sua autonomia

Este movimento era acompanhado com grande interesse por Estados Unidos e União Soviética, sempre cuidadosos em marcar sua influência na periferia do mundo.

África Portuguesa

Neste momento, Portugal vivia sob a ditadura de Antônio Salazar (1889-1970) que era contrário à política de descolonização. Declara as colônias como territórios ultramarinos e começa a dotá-las de infraestruturas como escolas e hospitais. Igualmente estimula a imigração de portugueses.

Essas medidas, contudo, não bastam para as populações locais. Os nacionalistas do territórios de língua portuguesa na África, por inspiração do cabo-verdiano Amílcar Cabral (1924-1973), unem-se para fazer frente a um adversário comum.

Assim foi fundada a Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das colônias portuguesas, em 1960. Estava integrado por Angola, Cabo Verde, Guineia-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Revolução dos Cravos

Foi, contudo, a Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974, ocorrida em Portugal, que impulsionou o reconhecimento à liberdade desses estados africanos.

Com a instalação do governo de transição instituído após a deposição de Marcello Caetano, são reconhecidas as independências das províncias ultramarinas portuguesas.

O primeiro desses estados a conseguir a independência foi Guiné, em 1974. O processo de liberdade do Moçambique Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Angola viriam no decorrer de 1975.

Após a independência de Angola e Moçambique entraram numa sangrenta guerra civil.

Leia mais:

Juliana Bezerra
Juliana Bezerra
Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.