Autores da Segunda Fase do Modernismo no Brasil

Daniela Diana

A produção literária do segunda fase do movimento modernista no Brasil (1930-1945) é encabeçada na poesia por Murilo Mendes, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes.

Na prosa, os destaque são: Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado, Érico Veríssimo e Dyonélio Machado. Esse grupo ficou conhecido como geração de 30.

Poesia de 30

Murilo Mendes

Murilo Mendes

Murilo Mendes (1901-1975) teve forte identificação com o Surrealismo europeu. Essa tendência é notada em seu primeiro livro Poemas, publicado em 1930.

O poeta vai da sátira ao poema-piada e chega ao estilo oswaldiano. Também passeia pela poesia religiosa e social. Confira abaixo um poema do escritor:

Solidariedade

Sou ligado pela herança do espírito e do sangue
Ao mártir, ao assassino, ao anarquista,
Sou ligado
Aos casais na terra e no ar,
Ao verdadeiro da esquina,
Ao padre, ao mendigo, à mulher da vida,
Ao mecânico, ao poeta, ao soldado,
Ao santo e ao demônio,
Construídos à minha imagem e semelhança.

Jorge de Lima

Jorge de Lima

Chamado de “príncipe dos poetas alagoanos”, a poesia social e de caráter religioso é verificada na fase madura de Jorge de Lima (1895-1943).

Antes disso, viajava pelo estilo parnasiano. No Modernismo, contudo, denuncia as desigualdades sociais e se utiliza de expressão poética habilidosa e jogo elaborado de palavras.

Mulher Proletária

Mulher proletária - única fábrica,
Que o operário tem, (fábrica de filhos)
Tu
Na tua superprodução de máquina humana
Forneces anjos para o Senhor Jesus,
Forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
O operário, teu proprietário
Há de ver, há de ver:
A tua produção,
A tua superprodução,
Ao contrário das máquinas burguesas
Salvar o teu proprietário.

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrada

Drummond foi precursor da poesia de 30 com a publicação da obra "Alguma Poesia".

A atualidade e os acontecimentos rodeiam a poesia de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Sua obra poética reproduz o mundo, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria.

Por essas características, nega a fuga da realidade porque a poesia é tida como meio de transformação.

Confira abaixo um trecho do poema a Carta a Stalingrado:

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Cecília ​Meireles

Cecília Meireles

A principal característica de Cecília Meireles (1901-1964) é a poesia intimista que possui uma característica introspectiva e com um ar de fantasia.

Considerada uma das maiores poetisas do Brasil, sua produção dessa fase foi muito importante para consolidar o grupo modernista da poesia de 30.

Confira abaixo um trecho do poema Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência:

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia,
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.

Vinícius de Moraes

Vinicius de Moraes

Além de escritor renomado e grande destaque na poesia de 30, Vinicius de Moraes (1913-1980) foi um dos precursores da Bossa Nova no Brasil.

O sensualismo erótico, o amor e os prazeres da carne são destacados em sua poesia. Em sua obra, o escritor fala da felicidade, da infelicidade, da alegria e tristeza.

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste.

​​​​Prosa de 30

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

O nordestino Graciliano Ramos (1892-1953) foi preso em 1936 e acusado de ser comunista. Essa experiência em várias prisões embasaram um de seus romances mais famosos: Memórias do Cárcere. O livro relata as injustiças do Estado Novo e a realidade brasileira do cárcere.

Retratou o universo do sertanejo nordestino desde o fazendeiro até o caboclo comum. Conseguia fazer a análise psicológica e sociológica em sua obra, em personagens que relatam o coletivo.

Além de romances, Graciliano Ramos também escreveu contos. Entre seus romances mais conhecidos está "Vidas Secas", em estilo machadiano, com linguagem rigorosa, enxuta e minuciosamente trabalhada.

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.

Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.

(Trecho da obra Vidas Secas)

Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz

Primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) foi colaboradora do jornal O Ceará. Nele, publicou diversos poemas e crônicas.

Militante do Partido Comunista Brasileiro, foi presa em 1937, sete anos depois da publicação de um de seus livros mais conhecidos, O Quinze.

Entre suas características estão: uso do discurso direto, prosa enxuta e intensa preocupação social. Escreveu também: Caminho de Pedras, As Três Marias e Memorial de Maria Moura.

"O povo se apinhava na avenida, o dinheiro circulava alegremente, as lâmpadas de carbureto espargiam sobre o burburinho focos de luz muito branca, que tornava baça e triste a cara afilada da lua crescente. Num grupo, a um recanto iluminado, Conceição, Lourdinha e o marido, Vicente e o novo dentista da terra - um moço gordo, roliço, de costeletas crespas e o pince-nez sempre mal seguro no nariz redondo - conversavam animadamente."

(Trecho da obra O Quinze)

José Lins do Rego

José Lins do Rego

O paraibano José Lins do Rego (1901-1957) foi eleito para a Academia Paraibana de Letras e para a Academias Brasileira de Letras, em 1955. Nessa fase, seus romances regionalistas foram essenciais para consolidar o chamado romance de 30.

Destacam-se em sua obra: Menino de Engenho, Doidinho, Banguê, Fogo Morto e Usina, todos com a temática da cana-de-açúcar. Pedra Bonita e Os Cangaceiros, retratam o ciclo do cangaço, da seca e misticismo.

"Aqueles meninos, aquelas mulheres, aquele coronel Lula, todos do mundo que o cercava eram grades de ferro que o prendiam, que faziam de um homem trabalhador como ele um monstro, um perigo, um criminoso. A filha se fora. Pensava que Sinhá voltasse às boas mas enganara-se. Estava só no mundo, mais só que José Passarinho. E não tinha saúde para ganhar pela terra afora, e fugir de todos. Lobisomem! Seria que os homens, as mulheres o tomavam mesmo por um filho do diabo, por uma calamidade? José Passarinho, dentro de casa, lhe parecia agora outro homem. Há muito que o negro não bebia. Era, ali em sua casa, quem lhe cozinhava o feijão, quem lhe fazia as coisas. Era um bom negro. Via-o sujo, de pés cambados, de olhar quase morto, e mesmo assim o julgara mais feliz do que ele"

(Trecho da obra Fogo Morto)

Jorge Amado

Jorge Amado

O baiano Jorge Amado (1912-2001) é um dos escritores mais populares do Brasil. Ficou conhecido a partir de 1931, com o romance "O País do Carnaval" e, em seguida, "Cacau e Suor".

Foi eleito em 1959 pela Academia Brasileira de Letras e entre suas obras mais conhecidas está Tieta do Agreste.

"Dúzia, dúzia e meia de casebres provisórios, mudando-se ao sabor do vento e da areia a invadi-los e soterrá-los, morada dos poucos pescadores a habitar desse lado da barra. Durante o dia, as mulheres pescam no mangue de caranguejos, os homens lançam as redes ao mar. Por vezes partem em pesca milagrosa, audazes a cruzar os vagalhões altos como as dunas nos únicos barcos capazes de enfrentá-los e prosseguir mar afora, ao encontro marcado com navios e escunas, em noites de breu, para o desembarque do contrabando."

(Trecho da obra Tieta do Agreste)

Érico Veríssimo

Érico Veríssimo

O gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975) começou a trabalhar na Revista do Globo como secretário a partir de 1930. Entrou no jornalismo literário sob a influência de Augusto Meyer.

Entre suas obras de destaque estão: "Fantoches" e "Clarissa". Sua obra prima é a trilogia "O Tempo e o Vento", onde narra a formação socioeconômica e política do Rio Grande do Sul, da origem, no século XVIII, até 1946.

"Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão. Agachado atrás dum muro, José Lírio preparava-se para a última corrida. Quantos passos dali até a igreja? Talvez uns dez ou doze, bem puxados. Recebera ordens para revezar o companheiro que estava de vigia no alto duma das torres da Matriz. “Tenente Liroca”, dissera-lhe o coronel, havia poucos minutos, “suba pro alto do campanário e fique de olho firme no quintal do Sobrado. Se alguém aparecer pra tirar água do poço, faça fogo sem piedade."

(Trecho da obra O tempo e o vento)

Dyonélio Machado

Dyonélio Machado

Também gaúcho, Dionélio Machado (1895-1985) atuou também como jornalista no jornal Correio do Povo. Escritor e psiquiatra, ele recebeu o prêmio Jabuti em 1981.

Suas obras são marcadas pelo intimismo, problemas sociais e as relações humanas. Escreveu "Os Ratos", "O Loco do Cati", "Desolação" e "Deuses Econômicos".

"Com um relance de vista, Naziazeno percebe que o jogo está quase feito. Mete nevosamente a mão no bolso da calça e tira os cinco mil-réis. Tinha feito o propósito, a promessa, quase!- De jogar no 28 o primeiro dia que entrasse na roleta outra vez. A bolinha já gira. O olhar acostumado encontra facilmente o 28. Já abriu uma passagem. O seu braço estende-se, levando os cinco mil-réis para aquele número. Mas o medo prudente o detém. E como o tempo urge, deposita rapidamente a cédula no retângulo da terceira dúzia."

(Trecho da obra Os Ratos)

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Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.