Exercícios sobre A Moreninha (para o ENEM)

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Português e Literatura

Confira a seguir os exercícios comentados sobre A Moreninha, importante obra de Joaquim Manuel de Macedo.

Questão 1

Leia o trecho:

— Que interessante terceto! exclamou com tom teatral Augusto; que coleção de belos tipos!... uma jovem de dezessete anos, pálida... romântica e, portanto, sublime; uma outra, loura... de olhos azuis... faces cor-de-rosa... e... não sei que mais: enfim, clássica e por isso bela. Por último uma terceira de quatorze anos... moreninha, que, ou seja, romântica ou clássica, prosaica ou poética, ingênua ou misteriosa, há de, por força, ser interessante, travessa e engraçada; e por conseqüência qualquer das três, ou todas ao mesmo tempo, muito capazes de fazer de minha alma peteca, de meu coração pitorra!... Está tratado... não há remédio... Filipe, vou visitar tua avó. Sim, é melhor passar os dois dias estudando alegremente nesses três interessantes volumes da grande obra da natureza do que gastar as horas, por exemplo, sobre um célebre Velpeau, que só ele faz por sua conta e risco mais citações em cada página do que todos os meirinhos reunidos fizeram, fazem e hão de fazer pelo mundo

No trecho, Augusto imagina as características das jovens antes mesmo de conhecê-las. Essa postura aproxima-se do Romantismo porque

a) privilegia a análise científica dos comportamentos humanos a partir da observação objetiva da realidade.

b) enfatiza a idealização da figura feminina construída pela imaginação do sujeito antes da experiência concreta.

c) valoriza a crítica social e a denúncia das desigualdades econômicas da sociedade imperial.

d) apresenta uma descrição neutra das personagens ante qualquer julgamento subjetivo.

e) demonstra a preocupação em representar fielmente a realidade cotidiana sem interferência emocional.

Gabarito explicado

O trecho evidencia uma característica fundamental do Romantismo: a idealização amorosa. Antes mesmo de conhecer as jovens, Augusto projeta nelas atributos físicos e morais, construindo imagens perfeitas a partir de sua imaginação. A mulher surge como objeto de contemplação e fantasia, não como figura observada realisticamente.

A alternativa A pode atrair estudantes por mencionar a observação do comportamento humano, mas essa é uma perspectiva mais próxima do Realismo e do Naturalismo, enquanto o fragmento valoriza claramente a subjetividade e a idealização.

Questão 2

Leia o trecho:

— Está romântico!... está romântico!... exclamaram os três, rindo às gargalhadas.

— A alma que Deus me deu, continuou Augusto, é sensível demais para reter por muito tempo uma mesma impressão. Sou inconstante, mas sou feliz na minha inconstância, porque apaixonando-me tantas vezes não chego nunca a amar uma vez.

— Oh!... oh!... que horror!... que horror!...

— Sim! esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só dia, às vezes, numa mesma hora, não é amor, certamente. Por minha vida, interessantes senhores, meus pensamentos nunca têm dama, porque sempre têm damas; eu nunca amei... eu não amo ainda... eu não amarei jamais...

A fala de Augusto contribui para a construção de sua personagem porque

a) revela um herói movido exclusivamente pelo dever moral e pela honra familiar.

b) apresenta um sujeito racional que rejeita qualquer influência dos sentimentos.

c) caracteriza um jovem sentimental e contraditório, marcado pela instabilidade afetiva.

d) demonstra um personagem determinado pelas condições biológicas e hereditárias.

e) evidencia uma personalidade voltada para questões políticas e sociais.

Gabarito explicado

A declaração de Augusto apresenta uma das principais características de sua personalidade: a inconstância amorosa. O personagem valoriza suas sucessivas paixões superficiais e afirma não ter experimentado o amor verdadeiro. Essa postura o aproxima do perfil do jovem romântico, marcado por emoções intensas e contradições internas.

A alternativa A pode parecer plausível para quem associa protagonistas românticos a ideais elevados, mas o trecho enfatiza justamente a volubilidade sentimental do personagem.

Questão 3

Leia o trecho:

Além destas, algumas outras senhoras aí estavam, valendo bem a pena de se olhar para elas meia hora sem pestanejar. Toda a dificuldade, porém, está em pintar aquela mocinha que acaba de sentar-se pela sexta vez, depois que Augusto entrou na sala: é a irmã de Filipe. Que beija-flor! Há cinco minutos que Augusto entrou e em tão curto espaço já ela sentou-se em diferentes cadeiras, desfolhou um lindo pendão de rosas, derramou no chapéu de Leopoldo mais de duas onças d’água-de-colônia de um vidro que estava sobre um dos aparadores, fez chorar uma criança, deu um beliscão em Filipe e Augusto a surpreendeu fazendo-lhe caretas: travessa, inconseqüente e às vezes engraçada; viva, curiosa e em algumas ocasiões impertinente. O nosso estudante não pode dizer com precisão nem o que ela é, nem o que não é: acha-a estouvada, caprichosa e mesmo feia; e pretende tratá-la com seriedade e estudo, para nem desgostar a dona da casa, nem se sujeitar a sofrer as impertinências e travessuras que a todo momento a vê praticar com os outros. [...]

A descrição da Moreninha evidencia uma característica frequente do romance de Joaquim Manuel de Macedo, que é o(a)

a) utilização de humor e leveza na caracterização das personagens.

b) exploração de conflitos psicológicos profundos e trágicos.

c) denúncia das injustiças sociais do Segundo Reinado.

d) emprego de linguagem técnica e científica para descrever comportamentos.

e) construção de ambientes sombrios e ameaçadores.

Gabarito explicado

A caracterização de Carolina é marcada pela leveza, pelo dinamismo e pelo humor. O narrador destaca suas travessuras e sua espontaneidade, produzindo um efeito cômico que contribui para o tom agradável do romance. Essa combinação de humor, sentimentalismo e idealização é típica da prosa romântica urbana.

A alternativa B pode confundir leitores que associam o Romantismo apenas ao sofrimento amoroso, mas o trecho privilegia a comicidade e não o drama psicológico.

Questão 4

Leia o trecho:

A Sra. D. Ana, este o nome da avó de Filipe, é uma senhora de espírito e alguma instrução. Em consideração a seus sessenta anos, ela dispensa tudo quanto se poderia dizer sobre seu físico. Em suma, cheia de bondade e de agrado, ela recebe a todos com o sorriso nos lábios; seu coração se pode talvez dizer o templo da amizade cujo mais nobre altar é exclusivamente consagrado à querida neta, irmã de Filipe; e ainda mais: seu afeto para com essa menina não se limita à doçura da amizade, vai ao ardor da paixão. Perdendo seus pais, quando apenas contava oito anos, a inocente criança tinha, assim como Filipe, achado no seio da melhor das avós toda a ternura de sua extremosa mãe.

A descrição da relação entre D. Ana e Carolina evidencia uma visão romântica porque

a) retrata os vínculos familiares como espaços de afeto e valorização moral.

b) critica as estruturas familiares da sociedade patriarcal brasileira.

c) enfatiza o determinismo biológico presente nas relações humanas.

d) apresenta a família como instituição opressora e decadente.

e) denuncia os conflitos econômicos existentes entre as gerações.

Gabarito explicado

O Romantismo frequentemente valorizou os laços afetivos familiares, associando-os a virtudes morais e sentimentos nobres. O narrador utiliza linguagem idealizada para representar o carinho de D. Ana pela neta, transformando essa relação em símbolo de afeto e dedicação.

A alternativa D pode parecer possível para leitores acostumados a obras realistas, mas o trecho não apresenta qualquer crítica à instituição familiar, e sim sua exaltação.

Ainda com dúvidas? Pergunta ao Ajudante IA do Toda Matéria

Questão 5

Leia o trecho:

“No dia 20 de julho de 18... na sala parlamentar da casa n... da “rua de... sendo testemunhas os estudantes Fabrício e Leopoldo, acordaram Filipe e Augusto, também estudantes, que, se até o dia “20 de agosto do corrente ano o segundo acordante tiver amado a uma “só mulher durante quinze dias ou mais, será obrigado a escrever um “romance em que tal acontecimento confesse; e, no caso contrário, igual “pena sofrerá o primeiro acordante. Sala parlamentar, 20 de julho de “18... Salva a redação.”

Como testemunhas: Fabrício e Leopoldo.

Acordantes: Filipe e Augusto.

E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão.

A aposta realizada entre Filipe e Augusto exerce papel fundamental no enredo porque

a) substitui completamente a temática amorosa da obra.

b) encerra a discussão principal do romance logo nos capítulos iniciais.

c) estabelece uma crítica direta às instituições políticas do Império.

d) apresenta um episódio sem relevância para a trajetória do protagonista.

e) introduz o conflito central que impulsiona o desenvolvimento da narrativa.

Gabarito explicado

A aposta constitui o elemento desencadeador da narrativa. A partir dela, Augusto passa a enfrentar uma situação que desafia sua própria visão sobre o amor e prepara o encontro com Carolina. O recurso organiza a progressão do enredo e cria expectativa quanto ao desfecho da história.

A alternativa D pode atrair estudantes que observem apenas o aspecto cômico da cena, mas a aposta é justamente o mecanismo que estrutura toda a trama.

Questão 6

Leia o trecho:

Pois bem. Augusto apresentou-se. A sala estava ornada com boa dúzia de jovens interessantes: pareceu ao estudante um jardim cheio de flores ou o céu semeado de estrelas. Verdade seja que, entre esses orgulhos da idade presente, havia também algumas rugosas representantes do tempo passado; porém isso ainda mais lhe sanciona a propriedade da comparação, porque há muitas rosas murchas nos jardins e estrelas quase obscuras no firmamento.

A comparação utilizada pelo narrador é característica da estética romântica porque

a) busca reproduzir a realidade de forma rigorosamente objetiva.

b) rejeita completamente o uso de figuras de linguagem.

c) substitui a emoção pela análise racional dos fatos.

d) utiliza imagens idealizadas para exaltar a beleza e a sensibilidade.

e) enfatiza aspectos grotescos e degradantes das personagens.

Gabarito explicado

O narrador compara as jovens a flores e estrelas, imagens tradicionalmente associadas à beleza, à delicadeza e à idealização. Esse procedimento reforça a subjetividade e o sentimentalismo característicos do Romantismo brasileiro.

A alternativa A pode parecer adequada por mencionar a descrição do ambiente, mas a linguagem empregada está longe da objetividade; ela transforma a realidade por meio da imaginação poética.

Questão 7

Leia o trecho:

— Ela é travessa como o beija-flor, inocente como uma boneca, faceira como o pavão e curiosa como... uma mulher.

A descrição da personagem Carolina contribui para que ela se torne a heroína romântica do romance ao

a) evidenciar exclusivamente sua posição social privilegiada.

b) apresentar uma personagem dominada por interesses financeiros.

c) combinar encanto às qualidades valorizadas pelo Romantismo.

d) retratar uma mulher racional e indiferente às emoções.

e) construir uma figura feminina marcada pela degradação moral.

Gabarito explicado

Carolina é apresentada como uma jovem alegre, espontânea, encantadora e inocente. Essas características correspondem ao modelo feminino idealizado pela literatura romântica, que frequentemente valorizava a pureza, a graça e a naturalidade das heroínas.

A alternativa A pode parecer plausível porque a personagem pertence a uma família abastada, mas o trecho não enfatiza sua condição econômica; o foco está em seus traços pessoais e afetivos, que sustentam sua construção como heroína romântica.

Saiba mais em: A moreninha.

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Língua Portuguesa e Literatura formado pela Universidade de São Paulo (USP) e graduando na área de Pedagogia (FE-USP). Atua, desde 2017, dentro da sala de aula e na produção de materiais didáticos.