Exercícios sobre O Navio Negreiro (para o ENEM)
As questões abaixo exploram o abolicionismo, a poesia condoreira e os recursos retóricos usados para denunciar a escravidão como violação da dignidade humana. Leia atentamente os textos-base e assinale a alternativa que melhor relaciona linguagem, contexto e crítica social no poema.
Questão 1
O eu lírico descreve uma travessia marítima que, à primeira vista, poderia sugerir aventura e grandeza. Porém, logo o cenário se desloca para o interior do navio, onde se acumulam corpos feridos, exaustos e comprimidos. A beleza do mar e do céu contrasta com a violência do porão: o espaço torna-se um palco de sofrimento, em que a condição humana é rebaixada à mercadoria. A cena é organizada para produzir choque moral e indignação, como se o leitor fosse levado a “ver” o que foi escondido.
O contraste apontado no texto-base contribui para:
A) glorificar a travessia oceânica como símbolo do progresso europeu.
B) neutralizar o sofrimento, reduzindo-o a detalhe inevitável do comércio.
C) intensificar a denúncia ao opor grandiosidade natural e degradação humana.
D) sugerir que a natureza legitima a ordem social, inclusive a escravidão.
E) deslocar o foco para a paisagem, evitando a crítica social.
Alternativa correta C.
O contraste entre “grandeza” natural (mar/céu) e “degradação” humana (porão/correntes) é um procedimento típico de denúncia: a beleza exterior torna ainda mais chocante a barbárie interna, ampliando o efeito crítico.
Questão 2
Em tom de clamor, o eu lírico dirige-se a forças superiores , Deus, o mar, o céu, a história , como se buscasse um tribunal moral capaz de julgar o que acontece. Esse chamamento transforma a poesia em discurso público: não se trata apenas de emoção pessoal, mas de intervenção. Ao convocar entidades grandiosas, o poema amplia a escala do acontecimento e sugere que a violência narrada ultrapassa o âmbito individual.
O recurso retórico predominante no texto-base é:
A) eufemismo, para suavizar o crime e reduzir o impacto no leitor.
B) apóstrofe/invocação, para transformar a denúncia em clamor coletivo e universal.
C) metalinguagem, para discutir apenas o fazer poético, sem conteúdo social.
D) ironia, para elogiar a escravidão por meio de elogio aparente.
E) paródia, para ridicularizar os ideais humanitários do século XIX.
Alternativa correta B.
A apóstrofe/invocação (chamar Deus, mar, céu, história) transforma a cena em julgamento moral e dá dimensão universal ao tema. Isso é condoreiro: grandiloquência + oratória + intervenção.
Questão 3
O poema insiste que não há justificativa econômica, legal ou cultural capaz de “normalizar” o que se vê: a cena é apresentada como atentado contra a dignidade humana. A dor dos escravizados não é descrita como fatalidade, mas como resultado de ação organizada — uma engrenagem histórica e comercial que produz sofrimento e morte. O eu lírico, ao denunciar, desloca a escravidão da esfera do “costume” para a esfera do “crime”, exigindo julgamento.
A perspectiva do texto-base se aproxima da ideia de “crime contra a humanidade” porque:
A) trata a violência como acidente inevitável de viagens longas.
B) considera o sofrimento parte natural do trabalho e da disciplina social.
C) entende a escravidão como prática coletiva e sistemática de desumanização, moralmente inadmissível.
D) defende que a lei de cada país é soberana, mesmo quando legitima violência.
E) restringe a crítica a casos isolados, sem questionar o sistema.
Alternativa correta C.
“Crime contra a humanidade” envolve prática sistemática de desumanização. O texto-base enfatiza organização histórica/comercial e nega a naturalização: não é acidente nem costume neutro, é violência estruturada.
Questão 4
A linguagem assume proporções máximas: o eu lírico multiplica imagens de dor, feridas, fome, sede, correntes e sufocamento. A cena parece crescer diante do leitor, como se o poema quisesse tornar impossível a indiferença. A escolha por imagens intensas e excessivas não é gratuita: ela configura um “grito” poético, típico de uma poesia que pretende comover e mobilizar.
O efeito principal da hipérbole e das imagens fortes no texto-base é:
A) transformar o tema em espetáculo vazio, sem função crítica.
B) reduzir a violência a mera ornamentação estética.
C) provocar indignação e empatia, reforçando a denúncia social e abolicionista.
D) sugerir que a violência é inevitável e, portanto, aceitável.
E) substituir a argumentação por humor, aproximando o poema de sátira leve.
Alternativa correta C.
Hipérbole e imagens de horror aqui têm função ética e persuasiva: chocar para impedir indiferença. No condoreirismo, a intensidade imagética e emocional serve para mobilizar o leitor contra injustiças.
Questão 5
O eu lírico não acusa apenas indivíduos: acusa uma ordem inteira que lucra, se cala e permite que o tráfico siga. A poesia funciona como interrogatório moral: quem vê e não reage torna-se cúmplice. Ao apresentar o navio como símbolo de um sistema, o poema recusa a desculpa do “não sabia” e pressiona o leitor a se posicionar.
A estratégia argumentativa do texto-base é:
A) isentar a sociedade, atribuindo a culpa exclusivamente ao destino.
B) responsabilizar coletivamente a ordem escravista, vinculando silêncio social à cumplicidade.
C) defender a permanência do tráfico como etapa necessária de modernização.
D) substituir a denúncia por contemplação da paisagem marítima.
E) relativizar o crime, sugerindo que cada época tem sua moral.
Alternativa correta B.
O poema responsabiliza o sistema e denuncia a cumplicidade do silêncio. Essa é uma estratégia abolicionista.
Questão 6
O poema alterna momentos de “alto” e “baixo”: do céu aberto e das imagens grandiosas ao porão fechado e sufocante; da ideia de liberdade (mar, vento, horizonte) à realidade das correntes. Essa estrutura cria uma espécie de palco: o leitor é conduzido por contrastes para sentir a distância entre ideais civilizatórios e barbárie praticada em nome do lucro.
No texto-base, a antítese contribui principalmente para:
A) afirmar que a liberdade é apenas um tema abstrato, sem vínculo com história.
B) ocultar o sofrimento ao concentrar-se em elementos naturais.
C) evidenciar o abismo entre discursos de grandeza e a prática desumana da escravidão.
D) demonstrar que a escravidão é compatível com ideais de progresso.
E) apresentar uma visão neutra e equilibrada, sem posicionamento.
Alternativa correta C.
A antítese (liberdade do mar × prisão das correntes; alto × baixo) evidencia o abismo entre ideais civilizatórios e a prática escravista. O contraste é estruturante para o sentido crítico.
Questão 7
O eu lírico organiza a cena para que a dor dos escravizados não seja lida como “de um grupo distante”, mas como ferida aberta na própria ideia de humanidade. O poema insiste em uma ética universal: há limites que nenhuma nação, religião ou economia pode ultrapassar. O apelo não é apenas sentimental; é um chamado a princípios, como dignidade, liberdade e justiça.
A universalização presente no texto-base está a serviço de:
A) afirmar a escravidão como violação de princípios humanos universais, exigindo condenação.
B) reforçar que a violência é cultural e, portanto, incomparável.
C) defender que a escravidão é um problema interno, sem relevância ética global.
D) apresentar o tráfico como prática neutra do comércio internacional.
E) valorizar a resignação como resposta moral adequada ao sofrimento.
Alternativa correta A.
Universalizar a dor significa enquadrar a escravidão como violação de princípios humanos comuns (dignidade, liberdade), e não como questão “local”. Isso sustenta a condenação moral ampla.
Questão 8
No poema, a voz lírica não se limita a narrar; ela “atua”. A linguagem é construída como denúncia pública, com tom de oratória, imagens grandiosas e apelos diretos. A poesia aparece como instrumento de intervenção histórica: pretende comover, persuadir e mobilizar, aproximando-se de uma fala política que confronta a ordem vigente.
A concepção de poesia expressa no texto-base corresponde à estética condoreira porque:
A) reduz a poesia ao intimismo, evitando temas sociais e históricos.
B) busca impessoalidade total, eliminando emoção e persuasão.
C) entende a poesia como voz pública e combativa, voltada para causas humanitárias (como o abolicionismo).
D) trata o poema como jogo formal sem compromisso com realidade.
E) substitui argumentos por descrições neutras, sem clamor moral.
Alternativa correta C.
A estética condoreira concebe a poesia como voz pública, grandiosa e engajada, voltada a causas humanitárias. O texto-base descreve exatamente essa função social: comover, persuadir e agir historicamente.
Para praticar mais: Exercícios sobre a terceira geração do Romantismo (com gabarito explicado)
Referências Bibliográficas
ALVES, Castro (1847-1871). O navio negreiro e outros poemas. São Paulo: Saraiva, 2007. (Clássicos Saraiva).
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
MOISÉS, Massaud. A criação literária: poesia. São Paulo: Cultrix, 2006.
SARAIVA, Antonio José; LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. Porto: Porto Editora, 1996.
(Referência útil para contextualizar a tradição retórica/oratória e procedimentos poéticos; use se fizer sentido ao seu recorte.)
GENETTE, Gérard. Figuras III (ou Discurso da narrativa). Lisboa: Vega, 1995.
Apoio histórico-social (escravidão / tráfico atlântico)
SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2013.
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
SAMPAIO, Mariana. Exercícios sobre O Navio Negreiro (para o ENEM). Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/exercicios-sobre-o-navio-negreiro-para-o-enem/. Acesso em: