Exercícios sobre navios negreiros (com gabarito explicado)

Lucas Pereira
Lucas Pereira
Professor de História

Os navios negreiros foram um dos principais símbolos da violência do tráfico atlântico de africanos escravizados. As questões abaixo abordam fontes históricas, relatos e interpretações sobre a diáspora africana. Teste seus conhecimentos e aprofunde sua compreensão sobre esse período histórico.

Questão 1

A tela abaixo foi pintada por Johann Moritz Rugendas, em 1830. Ela retrata o que seria o porão de um navio negreiro daquele período.

Porão de um navio negreiro, com diversos escravizados confinados e alguns tripulantes europeus.
Johann Moritz Rugendas. Navio Negreiro (1830). (Fonte: Wikicommons)

Sobre a imagem em questão, assinale a alternativa correta.

a) A pintura deve ser interpretada como um registro preciso e valioso, sem influência das escolhas e opiniões do artista.

b) A imagem demonstra que os africanos viajavam em condições semelhantes às dos tripulantes dos navios.

c) A obra representa as condições degradantes da viagem, mas deve ser analisada como uma interpretação artística produzida por um observador de sua época.

d) A principal intenção da pintura era retratar os avanços tecnológicos da navegação no século XIX.

Gabarito explicado

a) Incorreta. Toda pintura histórica reflete escolhas do artista e deve ser analisada considerando o contexto em que foi produzida.

b) Incorreta. Os africanos escravizados viajavam em condições muito mais precárias do que os tripulantes dos navios.

c) Correta. Embora seja um documento de época, toda fonte histórica deve ser lida de maneira crítica, como um ponto de vista específico de seu produtor.

d) Incorreta. O foco da pintura está nas pessoas transportadas e nas condições da travessia, não nos avanços tecnológicos da navegação.

Questão 2

"A única comida que tivemos durante a viagem foi milho velho cozido. Não posso dizer quanto tempo ficamos confinados assim, mas pareceu ser muito tempo. Sofríamos muito por falta de água, que nos era negada na medida de nossas necessidades. Um quartilho por dia era tudo que nos permitiam e nada mais. Muitos escravos morreram no percurso. Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Foi levado ao convés e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que foi jogado ao mar."

(LARA, Sílvia Hunold (Apresentação). Biografia de Mahommah G. Baquaqua. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 8, n. 16, mar./ago., 1988. p.272)

O texto acima é o relato do ex-escravo Mahommah Baquaqua sobre o tráfico de escravos. A partir da leitura e de seus conhecimentos, é correto afirmar que as condições de viagem:

a) Eram semelhantes às dos emigrantes europeus que atravessavam o Atlântico no mesmo período, uma vez que a superlotação e a escassez de alimentos eram comuns a todas as travessias oceânicas.

b) Foram exageradas no relato de Baquaqua, já que fontes europeias do período descrevem os navios negreiros como embarcações bem equipadas e organizadas.

c) Eram propositalmente degradantes e visavam ao controle dos cativos pelo enfraquecimento físico, ao mesmo tempo em que geravam enorme mortalidade.

d) Foram melhorando progressivamente ao longo do século XIX, em resposta às pressões abolicionistas britânicas que obrigaram os traficantes a humanizar as travessias atlânticas.

Gabarito explicado

a) Incorreta. As condições enfrentadas pelos africanos escravizados eram muito piores do que aquelas vividas pela maioria dos emigrantes europeus.

b) Incorreta. Diversas fontes históricas confirmam as condições precárias, a superlotação e a alta mortalidade nos navios negreiros.

c) Correta. A violência do tráfico negreiro era proposital e visava o controle total dos cativos.

d) Incorreta. As pressões britânicas buscavam eliminar o tráfico, não humanizá-lo. Além disso, as condições das viagens continuaram extremamente violentas.

Questão 3

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas dʼamplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

(ALVES, Castro. O navio negreiro e outros poemas. São Paulo: Saraiva, 2007. (Clássicos Saraiva). p. 15.)

Nesse trecho do poema "O navio negreiro", de Castro Alves, o poeta compara dois momentos da vida dos africanos escravizados. Com base na leitura do poema em seus conhecimentos sobre o tráfico atlântico, é correto afirmar que:

a) O poema mostra que os africanos escravizados não tinham vida organizada antes de ser capturados, o que, segundo os traficantes da época, tornava a escravidão uma forma de civilizá-los.

b) O poema denuncia a violência do tráfico ao opor a liberdade que os africanos tinham antes da captura às condições desumanas do navio negreiro.

c) Castro Alves descreve o navio negreiro como um ambiente duro, onde os escravizados recebiam alimentação e cuidados básicos durante a travessia do Atlântico. Isso era exigido para garantir que chegassem em condições de trabalho.

d) Castro Alves foi um dos poetas brasileiros que mais criticou o tráfico negreiro. Sua visão foi formada durante o tempo que viveu em Serra Leoa, colônia britânica na África, além dos contatos frequentes com autoridades britânicas da época.

Gabarito explicado

a) Incorreta. O poema não afirma que os africanos não possuíam sociedades organizadas antes da captura. Pelo contrário, faz referência a aspectos de sua vida anterior para contrastá-los com a violência da escravização.

b) Correta. Nessa passagem, Castro Alves contrasta a liberdade da vida do africano antes da escravização com a violência sofrida nos navios negreiros.

c) Incorreta. Castro Alves descreve o navio negreiro como um ambiente marcado pelo sofrimento, pela doença e pela morte.

d) Incorreta. Castro Alves criticou duramente a escravidão e o tráfico negreiro, mas nunca viveu em Serra Leoa. Sua atuação ocorreu no Brasil, onde se destacou como um dos principais poetas abolicionistas do século XIX.

Questão 4

”Entre os anos de 1525 e 1851, mais de cinco milhões de africanos foram trazidos para o Brasil na condição de escravos, não estando incluídos neste número, que é uma aproximação, aqueles que morreram ainda em solo africano, vitimados pela violência da caça escravista, nem os que pereceram na travessia oceânica... “

(PRANDI, Reginaldo. De africano a afro-brasileiro: etnia, identidade, religião. Revista USP, São Paulo, n. 46, jun./ago. 2000, p. 52)

Considerando os dados apresentados por Prandi e o contexto do tráfico atlântico de escravos, analise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta:

a) Os dados revelam que o tráfico atlântico foi relativamente inofensivo em termos demográficos para o continente africano.

b) O número de cinco milhões representa apenas parte do real impacto do tráfico. Afinal, as mortes ocorridas em solo africano e durante a travessia indicam que o custo humano do sistema escravista foi muito superior ao que os números de desembarque permitem estimar.

c) O tráfico atlântico de escravos para o Brasil encerrou-se pacificamente em 1851 após acordo diplomático entre Brasil e Portugal.

d) Os dados de Prandi confirmam que o Brasil recebeu proporcionalmente menos africanos escravizados do que as colônias espanholas na América.

Gabarito explicado

a) Incorreta. O tráfico atlântico provocou profundas perdas populacionais e sociais em diversas regiões da África.

b) Correta. A alternativa sintetiza corretamente o argumento do texto-base, que analisa os impactos humanos dos séculos de existência do tráfico negreiro.

c) Incorreta. O tráfico foi combatido por pressões diplomáticas e medidas legais, mas não se encerrou por um simples acordo entre Brasil e Portugal.

d) Incorreta. O Brasil foi o principal destino de africanos escravizados nas Américas, recebendo uma parcela muito significativa desse fluxo.

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Questão 5

Durante a diáspora africana, o Brasil foi um dos principais destinos dos africanos escravizados. Sobre as implicações socioculturais da presença massiva de africanos e seus descendentes na formação da sociedade brasileira, assinale a alternativa correta.

a) A violência do processo escravista resultou no apagamento das memórias, práticas religiosas e referências culturais dos africanos trazidos ao Brasil. Hoje em dia, a celebração da cultura afro-descendente busca inventar novos referenciais e símbolos para preencher tal espaço.

b) Mesmo diante da violência da escravidão, os africanos e seus descendentes preservaram, recriaram e transmitiram elementos que deixaram marcas fundamentais na cultura brasileira.

c) A influência cultural africana no Brasil restringe-se ao âmbito da culinária e da música popular, não havendo evidências de contribuições religiosa ou linguística.

d) A diversidade de etnias e línguas entre os africanos trazidos ao Brasil foi deliberadamente explorada pelos senhores de escravos para aproximar os cativos.

Gabarito explicado

a) Incorreta. Apesar da violência da escravidão, muitos elementos culturais africanos foram preservados e transformados no Brasil.

b) Correta. A cultura brasileira apresenta uma diversidade de elementos africanos e afro-descendentes, como na religião, na língua, na culinária, nos costumes e nas festividades.

c) Incorreta. A influência africana também está presente nas religiões, na língua, nas formas de sociabilidade e em diversos outros aspectos da cultura brasileira.

d) Incorreta. Em muitos casos, os senhores procuravam separar grupos de mesma origem para dificultar a organização de resistências.

Questão 6

"Mas, na preferência pelo africano revela-se, cremos, mais uma vez o sentido da colonização; esta se processa (...) num sistema de relações tendentes a promover acumulação capitalista na metrópole: era, o tráfico negreiro, isto é, o abastecimento das colônias com escravos, abria um novo e importante setor do comércio colonial, enquanto que o apresamento de indígenas era um negócio interno da colônia."

NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). Dissertação de Doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo. 1972. p. 112.

A partir da leitura do trecho do historiador Fernando Novais, é correto afirmar que, para o autor:

a) A preferência pelo escravo africano em detrimento do indígena se explica pela lógica do sistema colonial, que via no tráfico uma fonte de lucro para a metrópole portuguesa.

b) O tráfico de africanos foi adotado como alternativa ao trabalho indígena principalmente por pressão da Igreja Católica, que proibia a escravização dos povos originários da América.

c) A escravidão africana foi escolhida pois beneficiava igualmente metrópole e colônia, já que o tráfico gerava riqueza tanto em Portugal quanto nos territórios coloniais.

d) A escravização de indígenas era economicamente mais vantajoso para a metrópole do que o tráfico negreiro, mas foi abandonado pela resistência feroz dos povos originários.

Gabarito explicado

a) Correta. Conforme o texto-base salienta, o tráfico negreiro facilitava a acumulação de capitais na metrópole. Isso favoreceu a substituição gradativa do trabalho do indígena pela mão-de-obra africana.

b) Incorreta. Embora a Igreja tenha participado desse debate, o texto destaca principalmente razões econômicas ligadas ao sistema colonial.

c) Incorreta. O autor enfatiza os benefícios para a metrópole portuguesa e para o comércio atlântico, não uma distribuição equilibrada dos lucros.

d) Incorreta. O texto não afirma que a escravização indígena era mais vantajosa para a metrópole portuguesa.

Questão 7

"Enfim, se num primeiro momento, na travessia da África e do Atlântico, os falantes de línguas bantu começaram a perceber que podiam trocar idéias com outras pessoas ʼliminaresʼ como eles — isto é, pessoas em trânsito de uma sociedade para outra —, no Brasil eles se deram conta de que sua liminaridade provavelmente iria durar para sempre."

(SLENES, Robert W. “Malungu, Ngoma vem!”: África coberta e descoberta no Brasil. Revista USP, São Paulo, n. 12, dez./jan./fev. 1991-1992.)

O trecho do historiador Robert Slenes aborda a experiência dos africanos escravizados no contexto da diáspora. Com base na leitura e em seus conhecimentos, é correto afirmar que:

a) O autor argumenta que a travessia do Atlântico destruiu os vínculos culturais e linguísticos dos africanos, impedindo a formação de qualquer identidade coletiva entre os escravizados no Brasil.

b) A experiência compartilhada da travessia e do desenraizamento criou condições para que africanos de origens distintas formassem laços de solidariedade e identidade coletiva.

c) O conceito de "liminaridade" utilizado por Slenes refere-se à situação jurídica dos escravizados libertos, que viviam em uma posição intermediária entre a escravidão e a plena cidadania.

d) Slenes defende que os falantes de línguas bantu, ao chegarem ao Brasil, abandonaram rapidamente suas referências culturais de origem.

Gabarito explicado

a) Incorreta. O autor sugere justamente que novas formas de identidade e solidariedade puderam surgir entre africanos de diferentes origens.

b) Correta. Conforme o texto-base aponta, a experiência de desenraizamento ligada ao tráfico negreiro permitiu a formação de novas identidades entre os cativos.

c) Incorreta. No texto, a ideia de liminaridade está relacionada à condição de deslocamento e ruptura vivida pelos africanos escravizados.

d) Incorreta. Muitos africanos preservaram e recriaram referências culturais de origem mesmo após a chegada ao Brasil.

Lucas Pereira
Lucas Pereira
Bacharel e Licenciado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2013), com mestrado em Ensino de História pela mesma instituição (2020). Atua como professor de História na educação básica e em cursos pré-vestibulares desde 2013. Desde 2016, também desenvolve conteúdos educativos na área de História.