Exercícios sobre gênero textual conto (com gabarito e comentários)
Estes exercícios sobre o gênero textual conto permitem aprofundar o estudo desse importante gênero literário, explorando seus aspectos formais, temáticos e expressivos. Com questões comentadas e baseadas em textos de autores consagrados, o material é ideal para revisar conceitos, desenvolver a leitura crítica e compreender melhor as características do conto.
Questão 1
VESTIDA DE PRETO
Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade. Minha impressão é que tenho amado sempre... Depois do amor grande por mim que brotou aos três anos e durou até os cinco mais ou menos, logo o meu amor se dirigiu para uma espécie de prima longínqua que freqüentava a nossa casa. Como se vê, jamais sofri do complexo de Édipo, graças a Deus. Toda a minha vida, mamãe e eu fomos muito bons amigos, sem nada de amores perigosos.
Maria foi o meu primeiro amor. Não havia nada entre nós, está claro, ela como eu nos seus cinco anos apenas, mas não sei que divina melancolia nos tomava, se acaso nos achávamos juntos e sozinhos. A voz baixava de tom, e principalmente as palavras é que se tornavam mais raras, muito simples. Uma ternura imensa, firme e reconhecida, não exigindo nenhum gesto. Aquilo aliás durava pouco, porque logo a criançada chegava. Mas tínhamos então uma raiva impensada dos manos e dos primos, sempre exteriorizada em palavras ou modos de irritação. Amor apenas sensível naquele instinto de estarmos sós.
ANDRADE, Mário. Vestida de preto. In.: Contos Novos.
No primeiro parágrafo de Vestida de Preto, de Mário de Andrade, o narrador inicia o texto refletindo sobre a própria noção de conto. Considerando os aspectos linguísticos e interpretativos desse início, é correto afirmar que:
a) o narrador rejeita conscientemente o gênero conto, optando por uma narrativa factual, sem marcas de subjetividade ou elaboração literária.
b) a linguagem informal e confessional aproxima o texto de um relato autobiográfico, anulando qualquer preocupação estética ou literária.
c) a dúvida expressa pelo narrador sobre a definição de conto introduz um procedimento metalinguístico, que problematiza os limites do gênero e valoriza a experiência narrada.
d) o uso da primeira pessoa compromete a ficcionalidade do texto, impedindo que ele seja reconhecido como conto.
Ao afirmar que “não sei bem se o que vou contar é conto ou não”, o narrador estabelece um procedimento metalinguístico, refletindo explicitamente sobre o gênero conto e seus limites. Essa estratégia, típica da prosa modernista, não nega a literariedade do texto; ao contrário, valoriza a experiência subjetiva e a memória como matéria narrativa, deslocando o foco da forma rígida para a vivência narrada.
Questão 2
NO MOINHO
D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como «uma senhoramodelo». O velho Nunes, diretor do Correio, sempre que se falava nela, dizia, acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:
— É uma santa! É o que ela é! A vila tinha quase orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura, de perfil fino, a pele ebúrnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. Morava ao fim da estrada, numa casa azul de três sacadas; e era, para a gente que às tardes ia fazer o giro até ao moinho, um encanto sempre novo vê-la por trás da vidraça, entre as cortinas de cassa, curvada sobre a sua costura, vestida de preto, recolhida e séria. Poucas vezes safa. O marido, mais velho que ela, era um inválido, sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos que não descia à rua; avistavam-no às vezes também à janela, murcho e trôpego, agarrado à bengala, encolhido no robe-de-chambre, com uma face macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de seda enterrado melancolicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um rapaz, eram também doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de tumores nas orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente, parecia lúgubre. Andava-se em pontas dos pés, porque o senhor, na excitação nervosa que lhe davam as insónias, irritava-se com o menor rumor, havia sobre as cómodas alguma garrafada da botica, alguma malga com papas de linhaça;. as mesmas flores com que ela, no seu arranjo e no seu gosto de frescura, ornava as mesas, depressa murchavam naquele ar abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes de ar; e era uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sobre a orelha, ou a um canto do canapé, embrulhado em cobertores com uma amarelidão de hospital.
[...]
QUEIRÓS, Eça. No moinho.
No trecho do conto Um Moinho, de Eça de Queirós, a caracterização de D. Maria da Piedade e de seu ambiente doméstico é construída por meio de escolhas linguísticas que contribuem para a interpretação crítica do texto. Considerando esses aspectos, é correto afirmar que:
a) a descrição idealizada da personagem e da casa reforça a imagem de harmonia familiar e confirma o julgamento positivo da vila sobre D. Maria da Piedade.
b) o contraste entre a aparência pública da personagem e a atmosfera opressiva do espaço doméstico sugere, de forma implícita, uma crítica às aparências sociais e à moralidade idealizada.
c) a linguagem predominantemente denotativa e neutra tem como objetivo relatar fatos de modo imparcial, sem envolver o leitor emocionalmente.
d) o excesso de adjetivos e imagens sensoriais compromete a objetividade do narrador, transformando o texto em uma narrativa sentimental e romântica.
No trecho, Eça de Queirós constrói um forte contraste linguístico e semântico entre a imagem social de D. Maria da Piedade e o ambiente doméstico marcado por doença, tristeza, silêncio e decadência.
As descrições detalhadas, com adjetivações expressivas e imagens sensoriais (ar abafado, flores que murcham, amarelidão de hospital), não são neutras: elas revelam uma crítica implícita à idealização moral e às aparências sociais, aspecto central do Realismo. O narrador, embora em terceira pessoa, conduz a interpretação por meio dessas escolhas linguísticas.
Questão 3
Leia o trecho a seguir.
Para se entender o caráter peculiar do conto, costuma-se compará-lo com o romance, gênero muito mais popular, sobre o qual abundam as preceptísticas. Assinala-se, por exemplo, que o romance se desenvolve no papel, e, portanto, no tempo de leitura, sem outros limites que o esgotamento da matéria romanceada; por sua vez, o conto parte da noção de limite, e, em primeiro lugar, de limite físico, de tal modo que, na França, quando um conto ultrapassa as vinte páginas, toma já o nome de nouvelle, gênero a cavaleiro entre o conto e o romance propriamente dito. Nesse sentido, o romance e o conto se deixam comparar analogicamente com o cinema e a fotografia, na medida em que um filme é em princípio uma “ordem aberta”, romanesca, enquanto que uma fotografia bem realizada pressupõe uma jus ta limitação prévia, imposta em parte pelo reduzido campo que a câmara abrange e pela forma com que o fotógrafo utiliza esteticamente essa limitação.
CORTÁZAR, J. Alguns aspectos do conto. In.: Valise de Cronópio
No trecho teórico de Julio Cortázar, o autor compara o conto ao romance a fim de evidenciar o caráter específico desse gênero literário. Considerando essa reflexão, é correto afirmar que o conto se caracteriza, fundamentalmente, por:
a) desenvolver-se de forma aberta e expansiva, sem limites definidos, à semelhança do romance, que se constrói ao longo do tempo de leitura.
b) basear-se na extensão reduzida apenas como critério quantitativo, sem que isso interfira na construção estética da narrativa.
c) assumir o princípio do limite como elemento estruturador, exigindo concentração temática e rigor formal na seleção do que será narrado.
d) situar-se obrigatoriamente entre o romance e a novela (nouvelle), funcionando como uma etapa intermediária desses gêneros.
e) reproduzir a lógica do cinema, organizando a narrativa como uma sequência contínua e progressiva de acontecimentos.
Para Cortázar, o princípio do limite é constitutivo do conto, não apenas em termos de extensão física, mas sobretudo como critério estético e estrutural. Assim como a fotografia, o conto exige recorte rigoroso da realidade, concentração temática e intensidade narrativa.
Diferentemente do romance, que se organiza como uma “ordem aberta”, o conto desenvolve seu efeito justamente a partir da restrição consciente do material narrativo, o que reforça sua unidade e impacto.
Questão 4
Texto I
Para se entender o caráter peculiar do conto, costuma-se compará-lo com o romance, gênero muito mais popular, sobre o qual abundam as preceptísticas. Assinala-se, por exemplo, que o romance se desenvolve no papel, e, portanto, no tempo de leitura, sem outros limites que o esgotamento da matéria romanceada; por sua vez, o conto parte da noção de limite, e, em primeiro lugar, de limite físico, de tal modo que, na França, quando um conto ultrapassa as vinte páginas, toma já o nome de nouvelle, gênero a cavaleiro entre o conto e o romance propriamente dito. Nesse sentido, o romance e o conto se deixam comparar analogicamente com o cinema e a fotografia, na medida em que um filme é em princípio uma “ordem aberta”, romanesca, enquanto que uma fotografia bem realizada pressupõe uma jus ta limitação prévia, imposta em parte pelo reduzido campo que a câmara abrange e pela forma com que o fotógrafo utiliza esteticamente essa limitação.
[...]
CORTÁZAR, J. Alguns aspectos do conto. In.: Valise de Cronópio.
Texto II
Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade. Minha impressão é que tenho amado sempre... Depois do amor grande por mim que brotou aos três anos e durou até os cinco mais ou menos, logo o meu amor se dirigiu para uma espécie de prima longínqua que freqüentava a nossa casa. Como se vê, jamais sofri do complexo de Édipo, graças a Deus. Toda a minha vida, mamãe e eu fomos muito bons amigos, sem nada de amores perigosos.
[...]
ANDRADE, M. Vestida de preto. In.: Contos novos.
Os textos de Julio Cortázar e de Mário de Andrade, embora distintos quanto à natureza (teórica e literária), dialogam ao abordar o gênero conto. Considerando essa relação, é correto afirmar que ambos os textos:
a) defendem que o conto se define exclusivamente pela brevidade textual, sendo a extensão o principal critério de classificação do gênero.
b) apresentam o conto como uma narrativa aberta e expansiva, cuja estrutura se aproxima mais do romance do que de outros gêneros curtos.
c) evidenciam que o conto se constrói a partir de um recorte limitado da experiência.
d) rejeitam a noção de ficcionalidade, priorizando o relato factual e autobiográfico como forma dominante do conto.
e) propõem que o conto deve seguir regras fixas e preestabelecidas, garantindo sua definição formal e estabilidade como gênero.
No texto teórico, Cortázar afirma que o conto se organiza a partir do princípio do limite, comparando-o à fotografia, que exige seleção e concentração do real. Já Mário de Andrade, no início de Vestida de Preto, problematiza a definição do conto por meio de um procedimento metalinguístico, ao questionar se o que narra “é conto ou não”. Apesar das abordagens distintas, ambos convergem ao evidenciar que o conto resulta de um recorte consciente da experiência, no qual a limitação não empobrece a narrativa, mas intensifica seu efeito estético.
Questão 5
Leia um trecho do conto “Missa do Galo” de Machado de Assis para responder à questão:
- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
"Talvez esteja aborrecida", pensei eu.
E logo alto:
- Dona Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
- Já tenho feito isso.
- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
- Que velha o quê, D. Conceição?
[...]
No trecho do conto Missa do Galo, de Machado de Assis, o uso do discurso direto desempenha papel relevante na construção formal da narrativa. Considerando o gênero conto e sua progressão narrativa, é correto afirmar que o discurso direto, nesse contexto:
a) interrompe o desenvolvimento do enredo, criando pausas que retardam a progressão narrativa em favor da caracterização do ambiente.
b) cumpre função meramente informativa, limitando-se a registrar dados objetivos, como o horário e a idade das personagens.
c) substitui a narração propriamente dita, fazendo com que a história se desenvolva exclusivamente por meio das falas.
d) aproxima o texto do gênero dramático, já que a presença de diálogos reduz a interferência do narrador.
e) atua como recurso formal de progressão narrativa ao revelar tensões psicológicas e relações implícitas entre as personagens.
Em Missa do Galo, o discurso direto é um elemento central da progressão narrativa no gênero conto. As falas, embora aparentemente triviais, revelam ambiguidade, aproximação afetiva e tensão psicológica entre as personagens, fazendo o enredo avançar não por grandes ações externas, mas pelo subentendido. Essa economia de meios e valorização do implícito são aspectos formais característicos do conto machadiano.
Questão 6
Leia o trecho a seguir.
Parece-me que o tema do qual sairá um bom conto é sempre excepcional, mas não quero dizer com isto que um tema deva ser extraordinário, fora do comum, misterioso ou insólito. Muito pelo contrário, pode tratar-se de uma história perfeitamente trivial e cotidiana. O excepcional reside numa qualidade parecida à do ímã; um bom tema atrai todo um sistema de relações conexas, coagula no autor, e mais tarde no leitor, uma imensa quantidade de noções, entrevisões, sentimentos e até idéias que lhe flutuavam virtualmente na memória ou na sensibilidade;
CORTÁZAR, J. Aspectos do conto. In.: Valise de Cronópio.
Segundo a concepção teórica apresentada no trecho, o “tema excepcional” no conto não se define pelo caráter extraordinário dos acontecimentos narrados, mas pela função que o tema exerce na construção do texto. Nessa perspectiva, o caráter excepcional do tema decorre:
a) da escolha de fatos singulares ou insólitos, capazes de provocar impacto imediato e surpresa no leitor.
b) da função organizadora do tema, que concentra e articula sentidos, emoções e ideias ao longo da narrativa.
c) da ampliação do enredo por meio de conflitos paralelos, o que garante maior complexidade estrutural ao conto.
d) do predomínio de explicações e descrições analíticas, responsáveis por orientar a interpretação do leitor.
e) da originalidade temática entendida como afastamento deliberado de modelos narrativos consagrados.
O trecho compara o bom tema a um ímã, indicando que sua excepcionalidade reside na capacidade de condensar e organizar elementos dispersos da experiência humana. Assim, mesmo um tema cotidiano pode tornar-se excepcional ao estruturar o conto de forma coesa, intensa e sugestiva, mobilizando sentidos implícitos no leitor.
Questão 7
Embora pertençam a gêneros distintos, o conto e o poema podem apresentar pontos de aproximação do ponto de vista formal e expressivo. Considerando essa relação, é correto afirmar que ambos:
a) operam por condensação de sentidos, exigindo seleção rigorosa dos elementos expressivos para produzir intensidade estética.
b) se definem prioritariamente pela narratividade, com encadeamento progressivo de ações e conflitos.
c) dependem da brevidade formal como critério suficiente para sua caracterização como gêneros literários.
d) eliminam a subjetividade em favor de uma linguagem predominantemente objetiva e referencial.
Tanto o conto quanto o poema podem se aproximar pela condensação expressiva e pela economia de meios, ainda que operem em planos distintos: narrativo, no conto, e lírico-simbólico, no poema. Em ambos, a seleção rigorosa dos elementos é fundamental para a produção de intensidade e densidade de sentido.
Questão 8
O conto e a crônica compartilham certa brevidade e, em muitos casos, a tematização do cotidiano. No entanto, esses gêneros se distinguem quanto à organização formal e à função estética. Considerando essas diferenças, é correto afirmar que:
a) a crônica se estrutura a partir de um conflito central rigorosamente elaborado, enquanto o conto privilegia a observação livre e circunstancial da realidade.
b) o conto se caracteriza pela linguagem coloquial e pelo vínculo com fatos do dia a dia, ao passo que a crônica busca maior elaboração simbólica e literária.
c) ambos os gêneros apresentam a mesma função estética, diferenciando-se apenas pelo contexto de circulação e pelo suporte de publicação.
d) a crônica exige ficcionalidade plena e fechamento narrativo, enquanto o conto admite fragmentação e ausência de conflito.
e) o conto tende a apresentar maior unidade estrutural e elaboração estética,enquanto a crônica privilegia a reflexão subjetiva sobre o cotidiano e a circunstância do momento.
O conto é um gênero narrativo literário marcado pela concentração formal, pela construção de um conflito significativo e pela busca de unidade de efeito. Já a crônica, embora possa apresentar elementos narrativos, caracteriza-se pela observação do cotidiano, pela reflexão subjetiva e por uma estrutura mais livre e circunstancial. Assim, a diferença central entre os gêneros reside menos na extensão e mais na função estética e na organização do texto.
Saiba mais em: Conto: o que é, características e tipos (com exemplos)
Para praticar mais: Exercícios sobre crônicas (com gabarito comentado)
LUIS, Rodrigo. Exercícios sobre gênero textual conto (com gabarito e comentários). Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/exercicios-sobre-genero-textual-conto-com-gabarito-e-comentarios/. Acesso em: