Acento diferencial: quando usar (com exemplos e exercícios)

Luzia Julidori
Luzia Julidori
Professora de Língua Portuguesa

O acento diferencial é empregado em determinadas palavras para distinguir formas que apresentam a mesma grafia ou grafias muito semelhantes, mas possuem diferenças de significado ou de função gramatical.

Com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que passou a ser aplicado no Brasil a partir de 2009, vários acentos diferenciais foram eliminados. Entretanto, alguns foram mantidos obrigatoriamente, enquanto outros podem ser empregados de forma facultativa.

Neste conteúdo você encontra:

Exemplos

Ele pode viajar hoje.
pode = presente do indicativo do verbo poder.

Ele não pôde viajar ontem.
pôde = pretérito perfeito do indicativo do verbo poder.

Vou pôr os livros na estante.
pôr = verbo.

Passei por aquela rua.
por = preposição.

Como identificar o acento diferencial?

Para identificar o acento diferencial, é necessário observar principalmente o sentido da palavra e sua função no contexto.

Compare:

Ela pode participar da reunião. A forma pode indica uma ação situada no presente.

Ela não pôde participar da reunião ontem. A forma pôde indica uma ação situada no passado.

Outro caso:

Vou pôr açúcar no café. Nesse caso, pôr é verbo. (sentido de colocar)

Fiz o trabalho por você. Nesse caso, por é preposição.

Assim, o acento diferencial permite distinguir determinadas formas que apresentam diferenças de significado ou de função gramatical.

Casos de acento diferencial obrigatório

Segundo o Acordo Ortográfico, permanecem obrigatoriamente os acentos diferenciais de pôde e pôr.

Forma

Uso

Exemplo

pôde

pretérito perfeito do indicativo do verbo poder

Ontem ele não pôde comparecer.

pode

presente do indicativo do verbo poder

Hoje ele pode comparecer.

pôr

verbo

Vou pôr os documentos na pasta.

por

preposição

Passei por aquela praça.

Dica: em pôde × pode, observe o tempo verbal; em pôr × por, observe a classe gramatical.

Tem e têm; vem e vêm

Também é importante observar a acentuação das formas dos verbos ter e vir.

  • Ele tem muitos livros.
  • Eles têm muitos livros.
  • Ela vem à escola todos os dias.
  • Elas vêm à escola todos os dias.

O acento circunflexo distingue a 3.ª pessoa do plural (têm, vêm) da 3.ª pessoa do singular (tem, vem).

Essa distinção também aparece em formas derivadas desses verbos:

  • Ele mantém. / Eles mantêm.
  • Ela contém. / Elas contêm.
  • Ele intervém. / Eles intervêm.
  • Ela convém. / Elas convêm.

Atenção: esses casos podem ser estudados junto ao acento diferencial, mas é mais preciso observar que o circunflexo marca uma oposição de número verbal — singular e plural —, diferentemente do que ocorre em pôde × pode e pôr × por.

Casos em que o acento diferencial é facultativo

O Acordo Ortográfico prevê situações em que o emprego do acento diferencial é facultativo. Entre elas estão as formas fôrma/forma e dêmos/demos.

Fôrma e forma: o acento circunflexo pode ser empregado em fôrma, substantivo com sentido de molde, para diferenciá-lo de forma, por exemplo:

  • Coloque a massa na fôrma.
  • Coloque a massa na forma.

As duas grafias são admitidas nesse caso. O acento em fôrma é, portanto, facultativo.

Dêmos e demos: também é facultativo o emprego do acento em dêmos, forma da 1.ª pessoa do plural do presente do subjuntivo, para diferenciá-la de demos, forma da 1.ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo, por exemplo:

  • É importante que dêmos atenção ao problema. (presente do subjuntivo)
  • Ontem demos atenção ao problema. (pretérito perfeito do indicativo)

O emprego do acento em dêmos é facultativo. No português brasileiro, é usual empregar demos, sem acento, também no presente do subjuntivo.

O Acordo Ortográfico ainda admite facultativamente o acento para distinguir, em determinados verbos da 1.ª conjugação, formas da 1.ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo das correspondentes formas do presente do indicativo, como amámos/amamos. Essa distinção está relacionada a diferenças de pronúncia existentes em variedades da língua portuguesa.

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Acentos diferenciais eliminados pelo Acordo Ortográfico

O Acordo Ortográfico eliminou diversos acentos que anteriormente eram utilizados para diferenciar palavras homógrafas.

Antes do Acordo

Atualmente

pára (verbo parar)

para

pêlo (substantivo)

pelo

pólo (substantivo)

polo

pêra (substantivo)

pera

Exemplo:

Antes do Acordo: Ele pára o carro.

Atualmente: Ele para o carro.

Portanto, na ortografia vigente, a forma “pára”, com acento, não deve mais ser empregada para indicar uma forma do verbo parar.

Atenção: isso não significa que todos os acentos diferenciais tenham desaparecido. Permanecem, entre os casos previstos pelo Acordo Ortográfico, os acentos obrigatórios de pôde × pode e pôr × por, além de casos em que o emprego do acento é facultativo.

Resumo sobre acento diferencial

Caso

Regra

Exemplos

pôde / pode

acento obrigatório para diferenciar passado e presente do verbo poder

Ontem ele pôde. / Hoje ele pode.

pôr / por

acento obrigatório para diferenciar o verbo da preposição

Vou pôr o caderno aqui. / Passei por aqui.

tem / têm

o circunflexo diferencia singular e plural

Ele tem. / Eles têm.

vem / vêm

o circunflexo diferencia singular e plural

Ela vem. / Elas vêm.

fôrma / forma

acento facultativo em fôrma

Coloque na fôrma/forma.

dêmos / demos

acento facultativo para distinguir determinadas formas verbais

É importante que dêmos/demos atenção.

para, pelo, polo, pera

antigos acentos diferenciais foram eliminados

Ele para. / O pelo do gato.

Para não errar

Nem toda palavra que antes apresentava acento diferencial continua acentuada. Depois do Acordo Ortográfico, é importante distinguir três situações:

  • há acentos diferenciais obrigatórios, como em pôde e pôr;
  • há acentos facultativos, como em fôrma e dêmos;
  • há acentos diferenciais que foram eliminados, como os das antigas formas pára, pêlo, pólo e pêra.

Além disso, em pares como tem/têm e vem/vêm, o acento circunflexo indica a diferença entre singular e plural.

Exercícios sobre acento diferencial

1. Observe, na tirinha, o emprego das palavras destacadas “pôr” e “por”. A diferença de acentuação entre essas palavras ocorre porque:sequência de quadrinhos com exemplos de acento diferencial

a) “pôr” recebe acento por ser um monossílabo tônico, enquanto “por” não é acentuado por ser um monossílabo átono.

b) “pôr” recebe acento circunflexo por indicar uma ação realizada pelo menino, enquanto “por” não recebe acento por indicar o modo como os livros serão organizados.

c) “pôr” é um verbo e recebe acento diferencial para se distinguir de “por”, que é uma preposição e não recebe acento.

d) “pôr” recebe acento por estar empregado no infinitivo, enquanto “por” não recebe acento porque não apresenta forma verbal.

e) “pôr” e “por” poderiam ser escritos sem acento, pois o Acordo Ortográfico tornou facultativo o acento que diferencia essas palavras.

Gabarito explicado

Gabarito: C.

Comentário:
Na primeira fala, “pôr” é verbo e significa “colocar”: o menino afirma que vai colocar os livros na estante. Por isso, recebe obrigatoriamente acento circunflexo para se distinguir de “por”. Na segunda fala, “por” é uma preposição, empregada em “por ordem de assunto”, e não recebe acento. Portanto, a alternativa C está correta.

2. Assinale a alternativa em que o acento diferencial foi empregado corretamente.

a) O aluno não pôde organizar os livros ontem porque saiu mais cedo

b) Hoje o aluno não pôde organizar os livros porque está ocupado.

c) A mãe pediu pára o filho organizar os livros na estante.

d) Os livros foram separados pôr ordem de assunto.

e) O menino decidiu por os livros na estante antes de sair.

Gabarito explicado

Gabarito: A.

Comentário:
Em “não pôde organizar os livros ontem”, pôde corresponde à 3.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo poder e recebe obrigatoriamente acento circunflexo para se distinguir de pode, forma do presente.

Na alternativa B, o contexto indica presente, portanto a forma correta é pode. Em C, para não recebe mais acento diferencial. Em D, por é preposição e não recebe acento. Em E, trata-se do verbo pôr, que deve receber acento circunflexo.

3. Com o Acordo Ortográfico, alguns acentos diferenciais foram mantidos e outros foram eliminados. Assinale a alternativa em que todas as palavras estão grafadas de acordo com a ortografia vigente.

a) Ele pára o carro e vai pôr os documentos na pasta.

b) Ontem ela não pôde comprar uma pêra no mercado.

c) O gato tem muito pêlo, mas não pôde ser escovado ontem.

d) Ele pode levar a pera e pôr as frutas sobre a mesa.

e) Ela passou pôr aquele polo antes de chegar à escola.

Gabarito explicado

Gabarito: D.

Comentário:
Na alternativa D, todas as palavras estão de acordo com a ortografia vigente: pode não recebe acento quando corresponde ao presente do indicativo; pera não recebe mais o antigo acento diferencial; e pôr, por ser verbo, mantém obrigatoriamente o acento circunflexo que o diferencia da preposição por.

Nas demais alternativas, aparecem grafias inadequadas: pára, pêra e pêlo perderam o acento diferencial com o Acordo Ortográfico, enquanto, na alternativa E, deveria ser empregada a preposição por, sem acento.

Veja também: Acentuação gráfica: regras e exemplos

Referências Bibliográficas

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras. Disponível em: VOLP — Academia Brasileira de Letras. Acesso em: 1 set. 2026.

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 39. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.

BRASIL. Decreto nº 6.583, de 29 de setembro de 2008. Promulga o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990. Brasília, DF: Presidência da República, 2008. Consultar o Decreto nº 6.583/2008.

CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 7. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2017.

Luzia Julidori
Luzia Julidori
Professora de Língua Portuguesa e Literatura, licenciada em Letras, pós-graduada em Gestão Educacional e mestranda em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Atua há mais de 20 anos na Educação Básica, com experiência no ensino de Língua Portuguesa, Literatura e produção textual.

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