Capitães de Areia


Capitães de Areia é uma obra do escritor baiano Jorge Amado, publicada em 1937. Trata-se de um romance moderno de denúncia social com o tema centrado na miséria dos meninos de rua. O nome faz referência ao bando de meninos, os capitães de areia.

A obra foi censurada pelo governo de Getúlio Vargas e Jorge Amado foi preso durante o período da Ditadura Militar. Por esse motivo, muitos livros (cerca de 1000 exemplares) foram queimados em praça pública na capital baiana: Salvador.

Estrutura da Obra

O romance está dividido em três partes:

Primeira Parte: composta de onze capítulos. Seu título é: “Sob a lua, num velho trapiche abandonado”.

  • O trapiche
  • Noite dos Capitães da Areia
  • Ponto das Pitangueiras
  • As luzes do carrossel
  • Docas
  • Aventura de Ogum
  • Deus sorri como um negrinho
  • Família
  • Manhã como um quadro
  • Alastrim
  • Destino

Segunda Parte: composta de oito capítulos. Seu título é “Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos

  • Filha de Bexiguento
  • Dora, Mãe
  • Dora, Irmã e Noiva
  • Reformatório
  • Orfanato
  • Noite de Grande Paz
  • Dora, Esposa
  • Como uma estrela de loira cabeleira

Terceira Parte: composta de oito capítulos. Seu título é “Canção da Bahia, Canção da Liberdade”.

  • Vocações
  • Canção de amor da vitalina
  • Na rabada de um trem
  • Como um trapezista de circo
  • Notícias de jornal
  • Companheiros
  • Os atabaques ressoam como clarins de guerra
  • Uma Pátria e uma família

Resumo do Livro

Os menores que envolvem a trama vivem na capital baiana, Salvador. São conhecidos como capitães e o grupo reúne cerca de quarenta menores (entre 9 e 16 anos).

Eles vivem num trapiche (velho armazém) abandonado no cais do porto. Outro local em que se passa partes da história é o mercado. Corresponde a uma das importantes aglomerações comerciais. Ali, os meninos de rua tentavam pedir dinheiro para comer ou roubar os transeuntes.

Além disso, eles costumavam caminhar pelo corredor da Vitória, área nobre da cidade de Salvador. Pedro Bala é o líder do grupo. Um garoto loiro que possui uma cicatriz no rosto, por ter lutado com o ex-líder: O caboclo Raimundo.

Garoto valente e que conhece todas as partes da cidade, uma vez que anos esteve vagueando por Salvador. Tem um caso com Dora, uma das integrantes do grupo.

A rotina deles eram andar pela cidade pedindo dinheiro ou roubando algo para comerem. Posto que furtavam cotidianamente, eles aterrorizaram grande parte da população. E com isso, eram procurados pela polícia. Pela idade, não podiam ser presos.

Quando capturados, seriam enviados para o reformatório. Um local fechado para menores infratores. No entanto, eles preferiam viver nas ruas e serem livres.

Dora e Pedro foram pegos quando roubavam uma mansão e enviados para o reformatório. Dora fica doente e acaba morrendo.

Num dos momentos da trama, a cidade de Salvador foi assolada pela Varíola. Um dos membros do grupo não sobreviveu: Almiro. Por fim, alguns são capturados, outros mortos. Na última parte do livro, o autor apresenta o destino de cada um deles.

Personagens

  • Pedro Bala: líder do bando que teve um caso de amor com Dora. É uma figura central e paternal. Seu pai, chamado de Loiro, foi líder sindical e assassinado por policiais durante uma greve. Mais tarde, torna-se um líder revolucionário comunista.
  • Professor: seu nome é João José. Ele é sonhador e muito talentoso. Rouba livros para apresentar histórias aos meninos do bando. Alimenta seu amor por Dora, a garota de João Bala. Representa a parte intelectual do grupo, planejando os roubos. Mais tarde, torna-se um pintor e passa a viver no Rio de Janeiro.
  • Padre José Pedro: auxilia e prega a palavra de Deus aos meninos de rua. Mais tarde, mudou-se para o sertão.
  • Mãe de Santo: Aninha é mãe de santo da religião africana chamada candomblé. É amiga dos garotos e por vezes, aconselha o bando.
  • Volta Seca: se junta ao grupo de Lampião e torna-se cangaceiro. No entanto, foi capturado e condenado.
  • João Grande: menino alto e corajoso. Torna-se marinheiro, embarcando num navio de carga do Lloyd.
  • Sem Pernas: um dos integrantes do bando que apresenta grande amargura. Era um deficiente físico que andava coxeando. No fim, ele se suicida quando estava fugindo da polícia.
  • Pirulito: membro que se preocupa com os pecados cometidos. Tornou-se frade, entrando para uma ordem religiosa. Antes era um dos mais cruéis do grupo, no entanto, foi influenciado pelas palavras do padre José.
  • Dora: irmã de Zé Fuinha, Dora tem um caso com Pedro Bala. Ela é vista como uma mãe para o grupo. Após ser capturada, ela morre.
  • Boa Vida: um dos membros mais malandros e conquistadores do grupo. Ele tocava violão e poucas vezes aparecia no trapiche.
  • Dalva: prostituta e amante de Gato.
  • Gato: um dos malandros sedutores do grupo. Tem um caso com Dalva, a prostituta, tornando-se seu cafetão. No fim, mudou-se para ilhéus.
  • Almiro: membro do grupo que morreu de varíola.
  • Barandão: membro do grupo que por fim, torna-se líder dos capitães de areia. Pedro Bala o nomeia antes de partir com o intuito de ser um líder comunista.
  • Ezequiel: lidera outro grupo de meninos abandonados.
  • Querido de Deus: um capoeirista e amigo do bando. Ensinava capoeira para alguns membros do grupo.

Análise

Narrado em terceira pessoa, Capitães de Areia apresenta um narrador onisciente, ou seja, aquele que sabe de toda a história e conhece muito bem seus personagens.

O tempo da obra e cronológico, marcado pela passagem do tempo. Paralelo a isso, temos também o tempo psicológico, assinalado pelos pensamentos e recordações de seus personagens.

Quanto ao protagonista da história, devemos ressaltar que a obra não apresenta somente uma pessoa. Ou seja, o personagem central é coletivo e seria o bando de meninos de rua: os capitães de areia.

A obra de Jorge nos apresenta o cotidiano e as peripécias de um bando de meninos de rua. Por esse motivo, sua linguagem, muitas vezes, é informal (coloquial) reunindo traços de oralidade.

A partir do tema e do modo como ele expõe as aventuras, podemos destacá-lo como um romance de crítica social.

O foco está nos personagens que o compõem, apresentando as reflexões e ações dos meninos abandonados. Aqui, os oprimidos são heróis. O próprio nome da obra revela essa característica, afinal eles são “capitães”.

Essa é a grande importância e singularidade da obra. Os meninos de rua são vistos como pessoas normais e não como pessoas maldosas. Eles roubam dos ricos, para partilharem com os pobres.

No fundo, eles são crianças e apesar de terem malícia (uma vez que viver na rua exige isso), eles contêm certa pureza e sonhos.

Assim, Jorge Amado desmistifica a visão desse grupo desconstruindo a ideia de que as pessoas que vivem na marginalidade são más. A partir desse contexto, ele apresenta a realidade e o porquê do roubo de crianças que foram abandonadas e passam fome.

Com isso, ele proporciona um retrato revelador e sensível sobre um dos problemas sociais que até os dias de hoje afetam nosso país.

Em resumo, os menores de rua são vítimas de um sistema de violência que envolve o abandono e a miséria. Segue um trecho da obra que revela o sonho de uma das personagens:

O que ele queria era felicidade, era alegria, era fugir de toda aquela miséria, de toda aquela desgraça que os cercava e os estrangulava. Havia, é verdade, a grande liberdade das ruas. Mas havia também o abandono de qualquer carinho, a falta de todas as palavras boas. Pirulito buscava isso no céu, nos quadros de santo, nas flores murchas que trazia para Nossa Senhora das Sete Dores, como um namorado romântico dos bairros chiques da cidade traz para aquela a quem ama com intenção de casamento.”

Saiba mais sobre o escritor Jorge Amado.

Filme

Baseado na obra, o filme Capitães de Areia (2011) foi dirigido pela neta de Jorge Amado: Cecília Amado.

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