Capitu traiu Bentinho

Daniela Diana
Escrito por Daniela Diana
Professora licenciada em Letras

Capitu e Bentinho são dois personagens do romance de Machado de Assis, Dom Casmurro, publicado em 1899.

Essa obra é um marco do realismo no Brasil e levanta a polêmica da traição de Capitu com o melhor amigo de Bentinho: Escobar.

História de Capitu e Bentinho

Dom Casmurro é ambientado no século XIX na cidade de Rio de Janeiro. A obra relata a história entre Bentinho e Capitu, e seu possível envolvimento amoroso com Escobar.

Bento de Albuquerque Santiago, conhecido com Bentinho ou Dom Casmurro, frequentou o Seminário e ali conheceu seu melhor amigo: Ezequiel de Sousa Escobar.

Desde pequeno, Bento Santiago gostava da sua vizinha, Maria Capitolina Santiago, mais conhecida como Capitu. Ambos se casam e supostamente vivem felizes, mas as desconfianças vão se tornando mais fortes com o desenvolvimento da trama.

Dom e Escobar seguem caminhos diferentes após o Seminário. Bento se forma em Direito e começa a atuar na profissão, enquanto Escobar se torna comerciante.

Escobar era casado com Sancha, amiga de Capitu, e com ela teve uma filha que chamaram de Capitolina. Grande nadador, ele morre afogado em 1871 e a partir daí Bentinho começa a desconfiar fortemente do envolvimento de Capitu com seu melhor amigo.

Vale notar que Dom Casmurro era um homem muito solitário e de poucos amigos. O próprio nome “Casmurro” significa “homem calado”.

Muito ciumento, diversos fatores o levaram a desenvolver essa “paranoia”. Uma delas é que várias vezes Capitu e Bentinho tentaram engravidar, mas não tiveram sucesso em anos de casamento.

Quanto Capitu finalmente engravida e gera o filho, Ezequiel (nome em homenagem ao amigo), Bentinho se sente traído, pois não consegue tirar da sua cabeça que ele é, na verdade, fruto da traição entre ela e seu amigo Escobar.

Além disso, Bentinho descreve sobre a similaridade existente entre seu filho e seu amigo. Ambos eram muito parecidos na fisionomia e nos trejeitos.

Por fim, Capitu e Bentinho se separam, mas ele nunca deixou de acreditar que sua amada o traiu com seu melhor amigo.

O narrador de “Dom Casmurro”

O livro é narrado na 1ª pessoa do singular, sendo Bentinho o protagonista do livro. Assim, o narrador da história é também um personagem da trama, chamado de narrador-personagem.

Bentinho relata alguns acontecimentos de sua vida (entre os anos de 1857 e 1875) já quando está mais velho, com 54 anos.

Afinal, Capitu traiu Bentinho em Dom Casmurro?

A resposta é não se sabe ao certo, pois em nenhum momento do romance isso fica explícito. Isso porque Machado de Assis conseguiu tecer a história de maneira tão genial, deixando esse mistério “no ar” e produzindo essa dúvida no leitor.

Como o livro é narrado pelo próprio Bentinho, ele só apresenta o seu ponto de vista, sua perspectiva da história.

Assim, não existem provas evidentes na história que comprovem a traição de Capitu com Escobar.

Trechos da obra "Dom Casmurro"

Os trechos abaixo demonstram a inquietude de Dom Casmurro sobre a relação entre Capitu e Escobar, além das similaridades entre seu melhor amigo e seu filho.

  • "Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas..."
  • "Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã."
  • "Aproximei-me de Ezequiel, achei que Capitu tinha razão; eram os olhos de Escobar, mas não me pareceram esquisitos por isso. Afinal não haveria mais que meia dúzia de expressões no mundo, e muitas semelhanças se dariam naturalmente."
  • "Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De boca, porém, não confessou nada; repetiu as últimas palavras, puxou do filho e saíram para a missa."
  • "Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai. Vestia de luto pela mãe; eu também estava de preto. Sentamo-nos."
  • "A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancesado. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era, e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. Mas isto mesmo dava animação à cara dele, e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. Ei-lo aqui, diante de mim, com igual riso e maior respeito; total, o mesmo obséquio e a mesma graça."
  • "Eu, posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar, não gostava da ressurreição. Às vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem nada, mas o diabrete falava e ria, e o defunto falava e ria por ele."
  • "Como quisesse verificar o texto, consultei a minha Vulgata, e achei que era exato, mas tinha ainda um complemento: "Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde o dia da tua criação”. Parei e perguntei calado: "Quando seria o dia da criação de Ezequiel?" Ninguém me respondeu. Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo."
  • "E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve!"

Saiba mais sobre a obra: Dom Casmurro.

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Daniela Diana
Escrito por Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.