Conto Fantástico


Os contos fantásticos ou contos de fantasia representam um gênero da literatura fantástica (realismo mágico ou maravilhoso) com origens no século XVII, contudo, vigorou nos países latino-americanos a partir do século XX, como forma de denunciar a realidade opressiva vivido pelos anos de ditadura.

No gênero fantástico, os textos são pautados numa realidade não lógica, ou seja, a narrativa se desenrola num mundo irreal ou universo onírico, marcado pelo absurdo, a inverossimilhança e situações e ações extraordinárias.

Segundo o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov: “Há um fenômeno estranho que se pode explicar de duas maneiras, por meio de causas de tipo natural e sobrenatural. A possibilidade de se hesitar entre os dois criou o efeito fantástico.”

Os escritores brasileiros que exploraram o gênero fantástico foram:

  • Aluísio de Azevedo, (1857-1913) em sua obra de contos Demônios (1895);
  • Machado de Assis (1839-1908) em seu conto intitulado “O espelho”, pertencente à obra Papéis Avulsos (1892);
  • Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em seu livro Contos de Aprendiz (1951), texto como “Flor, telefone, moça”;
  • Murilo Rubião (1916-1991) na obra O ex-mágico (1947).

Já os autores latino-americanos que se destacaram com a publicação de textos desse gênero foram os argentinos Jorge Luis Borges (1889-1986) e Júlio Cortázar (1914-1984); o colombiano Gabriel García Marquez (1927-2014) e o cubano Alejo Carpentier (1904-1980).

Ademais, no âmbito mundial, destacam-se o escritor austríaco Franz Kafka (1883-1924), com sua emblemática obra A metamorfose (1912); e o alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822) com o conto fantástico “Homem de Areia” (1815).

Conto

Antes de mais nada, devemos atentar para o gênero conto, o gênero literário da prosa de ficção, que possui caraterísticas singulares.

O vocábulo “conto”, do latim “computus”, significa cômputo, conta. De modo geral, os contos são textos mais curtos que o romance e a novela, ou seja, corresponde a uma narrativa concisa, no qual o tempo, o espaço e o número de personagens são reduzidos.

Do mesmo modo, carregam o modelo tradicional da estrutura narrativa, divididos em: apresentação, complicação, clímax e desfecho.

O que distingue um conto fantástico dos outros, é justamente a presença da magia, a qual ultrapassa, notoriamente, os limites humanos e a lógica.

Entretanto, no conto fantástico, como no modelo tradicional, prevalece a narrativa de curta, composta de um único episódio singular e representativo, centrada num acontecimento com um número limitado de personagens.

Para saber mais: Conto

Características

Os contos fantásticos são textos que abarcam uma série de características sendo as principais:

  • Narrativa concisa a partir de temas livres fantásticos, os quais aliam o fantástico e o real ou a ficção à realidade, surgindo da oposição dentre dois planos: real e irreal.
  • Presença de alegorias e de personagens que podem ser: monstros, fantasmas, seres invisíveis, mágicos, mitológicos ou folclóricos, dentre outros.
  • Realidade ilógica distante da realidade humana, composta de elementos maravilhosos, inverossímeis, imaginários, extraordinário, bem como a presença de magias e poderes sobrenaturais.
  • Enredo não linear ou ziguezagueante (mescla de presente, passado e futuro) com utilização de recursos como o flashback (voltar ao passado) e o tempo psicológico (tempo das emoções e das recordações vividas pelos personagens).
  • Provocam sensações de “estranhamento” no leitor, por meio da ruptura realidade-ficção.

Exemplo

Como exemplo de Conto Fantástico, segue o trecho do texto “Flor, telefone, moça”, de Carlos Drummond de Andrade:

Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava. É doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.

Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.

– Sei de um caso de flor que é tão triste!

E sorrindo:

– Mas você não vai acreditar, juro.

Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.

– Era uma moça que morava na Rua General Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.

Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defunto, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar pra passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada! (...).”