Exercícios sobre Vidas Secas (para o ENEM)

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Português e Literatura

Confira estes exercícios sobre Vidas Secas e aprofunde seus conhecimentos sobre uma das obras mais importantes da segunda fase do Modernismo brasileiro.

As questões exploram temas centrais do romance e ajudam a compreender a crítica social e a construção das personagens, aspectos frequentemente cobrados no ENEM e em vestibulares.

Questão 1

O fragmento a seguir, extraído de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, apresenta reflexões de Fabiano sobre sua condição social, a seca e o destino dos filhos no sertão:

“Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.
[...]
Precisavam ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de seu Tomás da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto livro, tanto jornal? Morrera por causa do estômago doente e das pernas fracas.”

Considerando o projeto literário do romance regionalista da geração de 1930, o trecho evidencia:

a) a idealização da vida sertaneja como espaço de preservação dos valores tradicionais e da harmonia entre homem e natureza.

b) a valorização do conhecimento intelectual como principal instrumento de ascensão social e superação da miséria no sertão nordestino.

c) a representação crítica da desumanização provocada pelas condições sociais e ambientais, que aproximam os personagens da animalização e da luta pela sobrevivência.

d) a defesa de uma perspectiva heroica do sertanejo, apresentado como figura épica capaz de superar individualmente as adversidades impostas pela seca.

e) a recusa do determinismo social, uma vez que Fabiano acredita plenamente na possibilidade de transformação imediata de sua realidade por meio do esforço pessoal.

Gabarito explicado

O fragmento evidencia uma característica central do romance regionalista de 1930: a denúncia das condições sociais degradantes impostas ao sertanejo. Ao afirmar que seria “quase uma rês” e que os filhos precisavam “virar tatus”, o narrador evidencia o processo de animalização das personagens, submetidas à seca, à pobreza e à exploração social.

A oposição entre a resistência física de Fabiano e a fragilidade intelectual de seu Tomás da bolandeira também revela a precariedade das condições de vida no sertão, em que a sobrevivência se sobrepõe à formação cultural.

Assim, o trecho articula crítica social, determinismo ambiental e desumanização, aspectos marcantes da obra de Graciliano Ramos e do regionalismo modernista brasileiro.

Questão 2

No trecho a seguir, retirado de Vidas Secas, o narrador descreve a convivência da família de Fabiano em meio à precariedade material e às limitações da linguagem:

“Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.”

Considerando o projeto literário de Graciliano Ramos e as características do romance regionalista de 1930, o fragmento evidencia

a) a valorização da oralidade popular como forma suficiente de comunicação e integração entre os membros da família sertaneja.

b) a idealização do núcleo familiar nordestino, apresentado como espaço de harmonia afetiva apesar das dificuldades econômicas.

c) a crítica às limitações impostas pela exclusão social, que afeta inclusive a capacidade de elaboração e comunicação das personagens.

d) a representação cômica da linguagem sertaneja, utilizada pelo narrador para enfatizar o caráter caricatural das personagens.

e) a defesa da ignorância como condição natural do sertanejo, incapaz de compreender formas mais complexas de pensamento.

Gabarito explicado

O trecho evidencia uma das dimensões centrais de Vidas Secas: a precariedade da linguagem como reflexo da exclusão social vivida pelas personagens.

Ao afirmar que os “recursos de expressão eram minguados”, o narrador associa a dificuldade de comunicação às condições materiais e históricas do sertanejo, cuja experiência é marcada pela pobreza, pelo isolamento e pela falta de acesso à educação. Assim, a limitação verbal não aparece como traço natural ou caricatural, mas como consequência de um processo de desumanização social.

O romance de Graciliano Ramos, portanto, articula crítica social e investigação psicológica, características marcantes do regionalismo modernista de 1930.

Questão 3

No fragmento a seguir, retirado de Vidas Secas, os filhos de Fabiano observam a cidade durante a festa e tentam compreender os objetos e relações que os cercam:

“Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. [...] Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas.”

Considerando o projeto literário de Graciliano Ramos e as características do romance regionalista de 1930, o trecho demonstra a

a) valorização da cultura urbana como espaço plenamente acessível.

b) a crítica à limitação linguística das personagens.

c) a defesa da superioridade do conhecimento intuitivo.

d) a idealização da infância sertaneja.

e) a oposição entre cultura popular e cultura erudita.

Gabarito explicado

O trecho evidencia uma questão central em Vidas Secas: a precariedade da linguagem como reflexo da marginalização social das personagens. Os meninos percebem que os objetos “tinham nomes”, mas estranham a possibilidade de acumular tantas palavras, o que revela seu distanciamento do universo da educação formal e da cultura letrada.

Em Graciliano Ramos, a limitação vocabular não é apresentada como incapacidade natural, mas como resultado das condições históricas e sociais impostas aos retirantes.

Assim, o romance articula crítica social e investigação psicológica ao mostrar como a exclusão afeta não apenas a vida material, mas também a relação das personagens com a linguagem e com o conhecimento.

Questão 4

No trecho a seguir, retirado de Vidas Secas, a família de Fabiano enfrenta o sofrimento causado pela doença da cachorra Baleia:

“Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam [...]

Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.”

Levando em conta a leitura integral da obra, entende-se que o trecho destaca

a) a humanização da personagem Baleia, utilizada pelo narrador para intensificar a dimensão afetiva e denunciar a brutalidade das condições de vida no sertão.

b) a idealização das relações familiares sertanejas, marcadas pela harmonia emocional e pela ausência de conflitos familiares diante da pobreza.

c) a superioridade moral dos animais em relação aos seres humanos, representados no romance como naturalmente violentos e insensíveis.

d) a valorização sentimental dos animais domésticos como símbolo da modernização das relações sociais no interior nordestino.

e) a crítica ao apego excessivo da família aos animais, visto pelo narrador como consequência da incapacidade de estabelecer vínculos humanos duradouros.

Gabarito explicado

O trecho evidencia um dos aspectos mais marcantes de Vidas Secas: a humanização da cachorra Baleia. Ao afirmar que ela era “como uma pessoa da família”, o narrador aproxima a condição do animal à dos próprios retirantes, igualmente submetidos à miséria, à violência e à luta pela sobrevivência.

A morte de Baleia adquire forte carga emocional justamente porque a personagem é construída com profundidade psicológica e afetiva, diferentemente da brutalidade imposta pelo ambiente social e natural.

Assim, Graciliano Ramos utiliza a relação entre humanos e animal para intensificar a crítica à desumanização produzida pela pobreza e pela seca no sertão nordestino.

Ainda com dúvidas? Pergunta ao Ajudante IA do Toda Matéria

Questão 5

No trecho a seguir, extraído de Vidas Secas, a família de Fabiano abandona a fazenda em consequência da seca e da miséria:

“Mas quando a fazenda se despovoou, viu que tudo estava perdido, combinou a viagem com a mulher, matou o bezerro morrinhento que possuíam, salgou a carne, largou-se com a família, sem se despedir do amo. Não poderia nunca liquidar aquela dívida exagerada. Só lhe restava jogar-se ao mundo, como negro fugido. [...]
Nada o prendia àquela terra dura, acharia um lugar menos seco para enterrar-se.”

No fragmento destacado, fica evidente

a) a representação da migração sertaneja como escolha voluntária e otimista, motivada pelo desejo de ascensão econômica e integração urbana.

b) a valorização da religiosidade popular como força capaz de solucionar os conflitos sociais e garantir a permanência da família no sertão.

c) a idealização da vida rural nordestina, apresentada como espaço de pertencimento afetivo superior às dificuldades materiais.

d) a defesa da resignação passiva diante da seca, entendida pelo narrador como fenômeno inevitável e imutável da natureza.

e) a denúncia das condições de exploração e miséria, responsáveis por transformarem os retirantes em sujeitos marcados pela perda.

Gabarito explicado

O trecho evidencia uma característica central de Vidas Secas: a crítica social à condição dos retirantes nordestinos submetidos à seca, à pobreza e à exploração.

A expressão “jogar-se ao mundo, como negro fugido” aproxima Fabiano da condição histórica de marginalização e desamparo, enquanto a partida da família revela a instabilidade permanente que marca sua existência. Embora Fabiano demonstre apego aos elementos da fazenda — o curral, os animais, os objetos domésticos —, a degradação das condições de vida torna inevitável o deslocamento.

Assim, Graciliano Ramos constrói uma narrativa em que a migração não aparece como aventura ou progresso, mas como consequência de um processo contínuo de exclusão social e vulnerabilidade humana.

Questão 6

No fragmento a seguir, retirado de Vidas Secas, Fabiano e sinha Vitória imaginam um futuro diferente enquanto seguem retirando-se do sertão:

“Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno, o que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato. Cultivariam um pedaço de terra. Mudar-se-iam depois para uma cidade, e os meninos frequentariam escolas, seriam diferentes deles.
[...]
“Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos.”

De acordo com o excerto, a educação aparece como

a) espaço plenamente acolhedor.

b) instrumento de transformação social.

c) abandono da vida sertaneja.

d) defesa de uma perspectiva individualista.

e) oposição absoluta entre campo e cidade.

Gabarito explicado

O trecho evidencia uma dimensão importante de Vidas Secas: a coexistência entre esperança e crítica social.

O desejo de que os meninos frequentem escolas e “sejam diferentes deles” revela a percepção da educação como possibilidade de transformação social e ruptura com a vida de miséria no sertão. Entretanto, o final do fragmento relativiza esse sonho ao mostrar que “o sertão continuaria a mandar gente para lá”, sugerindo a permanência estrutural das desigualdades sociais e do ciclo migratório.

Assim, Graciliano Ramos constrói uma narrativa que evita idealizações simplistas, articulando expectativa de mudança e consciência crítica das condições históricas que produzem a exclusão dos retirantes nordestinos.

Questão 7

O fragmento a seguir, retirado do posfácio de Vidas Secas, analisa a construção narrativa da obra e o papel da personagem Baleia:

“Baleia é um locus de onde vêm muitas falas e silêncios, onde se encontram e também se chocam vários sujeitos de enunciação.”
[...]
“A linguagem é, como se tem observado, um problema em Vidas secas, a linguagem como a consciência imediata do homem.”

Considerando a interpretação crítica apresentada no texto e o projeto literário de Graciliano Ramos, é correto afirmar que Vidas Secas:

a) constrói personagens rigidamente subordinadas ao narrador, que controla integralmente suas vozes e impede qualquer ambiguidade de perspectiva.

b) utiliza a personagem Baleia apenas como elemento sentimental, destinado a humanizar superficialmente a narrativa regionalista.

c) apresenta a linguagem como espaço de conflito social e existencial, articulando diferentes perspectivas narrativas para problematizar a condição humana.

d) abandona a crítica social em favor de uma narrativa psicológica centrada exclusivamente nos dramas interiores das personagens.

e) defende a separação entre literatura e realidade social, valorizando a autonomia estética da obra acima das questões históricas e humanas.

Gabarito explicado

O texto crítico destaca que Vidas Secas articula múltiplos pontos de vista e transforma a linguagem em elemento central da experiência humana e social.

Ao afirmar que Baleia é um espaço “onde se encontram e também se chocam vários sujeitos de enunciação”, o posfácio evidencia a complexidade narrativa construída por Graciliano Ramos, em que narrador, personagens e leitor se interpenetram. Além disso, a ideia de que “a linguagem é um problema” revela que a limitação verbal das personagens está ligada às condições históricas de exclusão e reificação social.

Assim, o romance ultrapassa o simples regionalismo descritivo, articulando crítica social, experimentação formal e reflexão sobre a própria linguagem literária.

Questão 8

O trecho a seguir, retirado do posfácio de Vidas Secas, discute a relação entre arte, linguagem e opressão social na obra de Graciliano Ramos:

“A primeira coisa que nos diz uma obra de arte é que o mundo da liberdade é possível, e isso nos dá força para lutar contra o mundo da opressão. A arte é a antítese da sociedade.”
[...]
“O trabalho literário é, assim, ao mesmo tempo, amaldiçoado porque lembra ao homem, pelo revés, a sua falta de liberdade, mas também um espaço de resistência porque reafirma o horizonte da liberdade.”

Considerando a reflexão crítica apresentada no texto, o posfácio interpreta Vidas Secas como uma obra que:

a) rejeita qualquer dimensão política da literatura, valorizando exclusivamente a autonomia estética e a subjetividade artística.

b) representa a arte como instrumento neutro de reprodução da realidade social, sem interferência crítica ou ideológica.

c) compreende a criação artística como forma de resistência, capaz de revelar as contradições sociais e afirmar simbolicamente a possibilidade de liberdade.

d) defende que a literatura deve abandonar a experimentação formal para comunicar de maneira objetiva os problemas sociais do sertão.

e) apresenta a opressão social como realidade definitiva, negando à arte qualquer possibilidade de transformação simbólica ou crítica.

Gabarito explicado

O trecho interpreta Vidas Secas como uma obra em que a arte assume função crítica diante da realidade social marcada pela opressão e pela reificação.

Ao afirmar que “a arte é a antítese da sociedade”, o posfácio sugere que a literatura não apenas representa o mundo, mas também revela suas contradições e projeta a possibilidade de liberdade humana.

Em Graciliano Ramos, a dimensão estética não se separa da crítica social: a própria construção formal do romance — fragmentária, múltipla e marcada pela tensão entre narrador e personagens — expressa os limites impostos pela realidade histórica e, simultaneamente, a resistência a eles. Assim, a obra articula experimentação literária e reflexão sobre a condição humana em uma sociedade desigual.

Saiba mais sobre Vidas Secas.

Veja também: Exercícios sobre Capitães da Areia (para o ENEM)

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Língua Portuguesa e Literatura formado pela Universidade de São Paulo (USP) e graduando na área de Pedagogia (FE-USP). Atua, desde 2017, dentro da sala de aula e na produção de materiais didáticos.