Exercícios sobre Capitães da Areia (para o ENEM)

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Português e Literatura

Confira a seguir os exercícios comentados sobre o livro Capitães da Areia, de Jorge Amado.

Leia o texto a seguir para responder às questões 1 e 2.

Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem.

Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias marítimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar-oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite.

[...]

AMADO, Jorge. Capitães da Areia.

Questão 1

O trecho inicial de Capitães da Areia constrói uma ambientação marcada pela descrição do espaço e pela atribuição de sentidos simbólicos ao trapiche. Nesse processo, o narrador mobiliza recursos expressivos que intensificam a relação entre ambiente e condição humana.

A construção literária do espaço no fragmento ocorre principalmente por meio do uso de figuras de linguagem que

a) eliminam a subjetividade narrativa ao privilegiar descrições estritamente objetivas do cenário.

b) transformam o espaço em elemento expressivo, associando características humanas e afetivas ao ambiente descrito.

c) restringem o valor simbólico do trapiche, reduzindo-o a um cenário secundário da narrativa.

d) substituem a representação social por descrições naturalistas voltadas apenas à paisagem marítima.

e) produzem humor e ironia ao contrastar o passado glorioso do trapiche com sua condição atual.

Gabarito explicado

A questão exige que o estudante compreenda que as figuras de linguagem não aparecem apenas como ornamentação, mas como mecanismo de produção de sentido.

O espaço literário é humanizado e simbólico: o trapiche abandonado funciona como metáfora das próprias crianças marginalizadas. O espaço é construído simbolicamente. O trapiche abandonado não funciona apenas como cenário: torna-se extensão da realidade das crianças e ganha dimensão afetiva e humana.

Há personificação e imagens sensoriais que aproximam ambiente e experiência social.

Questão 2

Ao descrever o trapiche e o mar, o narrador emprega imagens como “o mistério do mar-oceano” e “as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras”. Esses recursos expressivos aproximam o fragmento de tendências presentes na produção modernista brasileira porque

a) priorizam a idealização da paisagem nacional, retomando princípios românticos de exaltação patriótica.

b) rejeitam qualquer experimentação estética, privilegiando apenas o relato documental dos fatos.

c) utilizam imagens e recursos figurativos para construir uma representação social da realidade associada à experiência humana.

d) valorizam exclusivamente formas fixas e padrões formais tradicionais da literatura brasileira.

e) substituem questões sociais pela contemplação puramente estética da natureza.

Gabarito explicado

Uma marca importante do Modernismo é utilizar recursos expressivos para representar a realidade social. As imagens do mar e do trapiche ampliam o significado do espaço e articulam estética e crítica social.

Essa questão mobiliza a relação entre forma literária e contexto histórico-literário. O estudante precisa perceber que as figuras de linguagem não são apenas recursos estilísticos isolados, mas estratégias que contribuem para a representação da realidade social.

Leia o trecho a seguir para responder às questões 3 e 4.


E volveu os olhos para as páginas do livro. João Grande acendeu um cigarro barato, ofereceu outro em silêncio ao Professor e ficou fumando de cócoras, como que guardando a leitura do outro. Pelo trapiche ia um rumor de risadas, de conversas, de gritos. João Grande distinguia bem a voz do Sem-Pernas, estrídula e fanhosa.O SemPernas falava alto, ria muito. Era o espião do grupo, aquele que sabia se meter na casa de uma família uma semana, passando por um bom menino perdido dos pais na imensidão agressiva da cidade. Coxo, o defeito físico valera-lhe o apelido. Mas valia-lhe também a simpatia de quanta mãe de família o via, humilde e tristonho, na sua porta pedindo um pouco de comida e pousada por uma noite. Agora, meio do trapiche, O Sem-Pernas metia a ridículo o Gato, que perde todo um dia para furtar um anelão cor de vinho, sem nenhum valo, real, pedra falsa, de falsa beleza também.

AMADO, Jorge. Capitães da Areia.

Questão 3

No fragmento, as personagens são apresentadas majoritariamente por apelidos — como Professor, João Grande, Sem-Pernas e Gato —, estratégia recorrente ao longo da narrativa. Considerando os efeitos dessa escolha, o uso dessas denominações contribui para

a) reforçar a caracterização das personagens por atributos físicos, comportamentais ou funções sociais, transformando os apelidos em marcas identitárias do grupo.

b) enfraquecer a individualização das personagens por meio de nomes aleatórios, transformando os apelidos em elementos sem função narrativa relevante.

c) valorizar a formalidade das relações sociais presentes na narrativa, transformando os apelidos em formas de distanciamento entre os integrantes do grupo.

d) substituir a dimensão social das personagens por características exclusivamente psicológicas, transformando os apelidos em recursos de introspecção narrativa.

e) priorizar a padronização das personagens dentro da narrativa, transformando os apelidos em mecanismos de apagamento das diferenças individuais.

Gabarito explicado

Os apelidos funcionam como marcadores identitários. “Sem-Pernas” remete à deficiência física; “Professor”, ao gosto pela leitura; “João Grande”, ao porte físico; “Gato”, à agilidade e esperteza. A nomeação constrói identidades sociais e fortalece a dinâmica coletiva do grupo.

Questão 4

No fragmento, as personagens são apresentadas por meio de ações específicas e funções desempenhadas dentro do grupo, como o Professor que lê, o Sem-Pernas que espiona e João Grande que acompanha silenciosamente a cena. Essa construção narrativa sugere que o grupo dos meninos do trapiche é representado como

a) uma coletividade organizada por funções e relações de pertencimento, na qual cada integrante assume papéis que contribuem para a dinâmica do grupo.

b) uma coletividade marcada pela ausência de vínculos afetivos e sociais, na qual cada integrante atua isoladamente dentro da narrativa.

c) uma coletividade estruturada pela hierarquia formal e institucional, na qual cada integrante ocupa posições rigidamente definidas.

d) uma coletividade construída pela homogeneização das experiências, na qual as diferenças individuais são apagadas ao longo da narrativa.

e) uma coletividade organizada pela valorização exclusiva da força física, na qual cada integrante exerce funções associadas apenas à violência.

Gabarito explicado

A questão exige que o estudante compreenda a caracterização indireta das personagens, construída não apenas pelas descrições, mas também pelas ações e funções que desempenham. O romance organiza seus personagens como um coletivo socialmente excluído, mas internamente estruturado.

Leia o trecho a seguir para responder às questões de 5 a 7.

É velho e desbotado o carrossel de Nhozinho França. Mas tem a sua beleza. Talvez esteja nas lâmpadas, ou na música da pianola velhas valsas de perdido tempo, ou talvez nos ginetes de pau. Entre eles tem um pato que é para sentar dentro os mais pequenos.. Tem a sua beleza, sim, porque a opinião unânime dos Capitães da Areia é que ele é maravilhoso. Que importa que seja velho, roto e de cores apagadas se agrada às crianças?

AMADO, Jorge. Capitães da Areia.

Ainda com dúvidas? Pergunta ao Ajudante IA do Toda Matéria

Questão 5

No trecho, o narrador descreve o carrossel como “velho”, “desbotado”, “roto” e de “cores apagadas”, mas afirma repetidamente que ele possui beleza. Esse contraste contribui para construir a ideia de que

a) a precariedade material impede completamente a experiência da felicidade infantil.

b) a percepção infantil ressignifica objetos simples, atribuindo valor afetivo para além de sua aparência física.

c) a descrição objetiva do espaço busca demonstrar a inutilidade dos objetos antigos para as crianças.

d) a pobreza dos personagens elimina sua capacidade de imaginar e atribuir sentidos ao mundo.

e) a deterioração do carrossel simboliza exclusivamente a decadência urbana presente no romance.

Gabarito explicado

A questão exige que o estudante perceba o contraste como mecanismo de construção de sentido. O valor do carrossel não está em suas condições materiais, mas no significado produzido pelas crianças. O carrossel ganha valor pelo olhar infantil. O afeto e a experiência compartilhada transformam um objeto deteriorado em algo maravilhoso.

Questão 6

Ao afirmar que “tem a sua beleza” e retomar essa ideia ao longo do trecho, o narrador constrói uma representação do carrossel que funciona principalmente como

a) símbolo da violência cotidiana enfrentada pelos meninos nas ruas.

b) símbolo da infância vivida de forma incompleta e impossibilitada pela pobreza.

c) símbolo de evasão momentânea da realidade para momentos de encantamento.

d) símbolo do progresso urbano associado às transformações da cidade.

e) símbolo da autoridade adulta sobre os desejos e comportamentos infantis.

Gabarito explicado

A questão explora leitura simbólica. O estudante precisa compreender que objetos literários frequentemente assumem funções metafóricas dentro da narrativa. O carrossel cria um espaço simbólico de suspensão das dificuldades cotidianas, funcionando como espaço de sonho e pertencimento.

Questão 7

No trecho, a repetição da expressão “tem a sua beleza” e a pergunta “Que importa que seja velho, roto e de cores apagadas se agrada às crianças?” contribuem para produzir um efeito de sentido que

a) reforça uma crítica à incapacidade infantil de distinguir aparência e valor material.

b) evidencia que a experiência afetiva modifica a forma como o espaço e os objetos são percebidos.

c) demonstra que a descrição do ambiente busca exclusivamente informar características físicas do carrossel.

d) sugere que a pobreza infantil deve ser aceita passivamente como parte natural da realidade.

e) indica que o narrador considera o encanto infantil um comportamento ingênuo e ilusório.

Gabarito explicado

A repetição funciona como estratégia argumentativa do narrador para legitimar a perspectiva infantil. Assim, os recursos expressivos mostram que sentimentos e experiências alteram a percepção da realidade material.

Continue praticando com exercícios sobre Jorge Amado e suas obras (com gabarito).

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Língua Portuguesa e Literatura formado pela Universidade de São Paulo (USP) e graduando na área de Pedagogia (FE-USP). Atua, desde 2017, dentro da sala de aula e na produção de materiais didáticos.