Geração de 45


A Geração de 45 representou um grupo de literatos brasileiros da terceira geração modernista.

Ela surgiu com a "Revista Orfeu" (1947) e teve representantes tanto na prosa quanto na poesia.

Contexto Histórico

A Segunda Guerra Mundial ocorreu entre 1939 a 1945. Portanto, a geração de 45 marca o início da Guerra Fria, da corrida armamentista, bem como o fim da segunda guerra e de muitos governos totalitários, do qual se destaca o nazismo alemão.

No Brasil, o período foi da redemocratização do país e a Era Vargas. Com Getúlio Vargas no poder, essa fase seria marcada pela repressão, censura e a ditadura que avançava.

O movimento moderno das artes buscava criticar a sociedade, ao mesmo tempo que se distanciava da arte acadêmica. Isso, deu lugar ao folclore, aos regionalismos, aos múltiplos subjetivismos, dentre outros.

Foi nesse contexto, que os escritores da terceira fase modernista produziram suas obras.

Resumo

O modernismo foi um movimento artístico e cultural que surgiu no século XIX, no entanto, no Brasil iniciou-se com a Semana de Arte Moderna, em 1922.

Por ser um longo período que abriga diversos autores e estilos, o Modernismo no Brasil está dividido em três fases:

A Primeira Fase Modernista, conhecida como “fase heroica” começa em 1922 e vai até 1930. Foi marcada pelo radicalismo, inspirado nas vanguardas europeias.

Nesse momento surgiram vários grupos modernistas: Pau-Brasil (1924-1925), Verde-amarelismo ou Escola da Anta (1916-1929), Manifesto Regionalista (1926) e Movimento Antropófago (1928-1929)

Na Segunda Fase Modernista (1930-1945), conhecida como “Fase de Consolidação” o movimento foi marcado pelo nacionalismo e regionalismo com predomínio da “prosa de ficção”.

A Geração de 45, no contexto da Terceira Fase Modernista (1945-1980), já inclui aspectos pós-modernos. Por isso é também chamada de “Fase Pós-Moderna”, com rupturas entre a primeira e a segunda fase.

Assim, fica claro, que a ideia inicial difundida pelos Modernistas de 22, vinha sofrendo mudanças com o passar do tempo.

De tal modo, a geração de 45 reuniu artistas preocupados em buscar uma nova expressão literária, por meio da experimentação e inovações estéticas, temáticas e linguísticas.

A Geração de 45 representou uma arte mais preocupada com a palavra e a forma - no caso de João Cabral e Guimarães Rosa - ao mesmo tempo que explorava assuntos essencialmente humanos, como na obra de Clarice.

Tanto a prosa quanto a poesia foram exploradas nesse período, no entanto, de maneira mais intimista, regionalista e urbana. Além da poesia intimista, merece destaque a prosa urbana, a prosa intimista e a prosa regionalista.

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Modernismo no Brasil
Terceira Geração Modernista

Principais Escritores e Obras

No Brasil, os literatos de destaque na Geração de 45 foram:

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

João Cabral de Melo Neto

Considerado o "poeta engenheiro", João Cabral foi um dos mais proeminentes autores da Geração de 45. Como um engenheiro, sua obra foi construída de maneira racional e equilibrada.

Grande destaque na poesia, sua obra mais emblemática é “Morte e Vida Severina” (1955) com temática nordestina. Nela, o autor faz uma crítica social sobre os problemas vividos pelos retirantes no interior do nordeste.

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

(Trecho da obra "Morte e Vida Severina")

Clarice Lispector (1920-1977)

Clarice Lispector

Com sua literatura intimista, a produção de Clarice é marcada por obras introspectivas de caráter psicológico e subjetivo. Destaca-se “A Hora da Estrela” (1977), última obra produzida pela escritora.

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes. (Trecho da obra "A Hora da Estrela")

João Guimarães Rosa (1908-1967)

João Guimarães Rosa

Com sua prosa regionalista, destaca-se o “Grande Sertão Veredas” (1956). Nela, o poeta recria os costumes do sertanejo e a fala dos personagens por meio da linguagem regionalista, popular e coloquial.

Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros - porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo -podia morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam. E estávamos conversando, perto do rego -bicame de velha fazenda, onde o agrião dá flor. Desse lusfús, ia escurecendo. Diadorim acendeu um foguinho, eu fui buscar sabugos. Mariposas passavam muitas, por entre as nossas caras, e besouros graúdos esbarravam. Puxava uma bris-brisa. O ianso do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto. E o chiim dos grilos ajuntava o campo, aos quadrados. Por mim, só, de tantas minúcias, não era o capaz de me alembrar, não sou de à parada pouca coisa; mas a saudade me alembra. Que se hoje fosse. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. Sei como sei. Som como os sapos sorumbavam. Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas.” (Trecho da obra "Grande Sertão: Veredas")

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