A Linguagem do Modernismo


A Linguagem do Modernismo é despretensiosa e despreocupada com os padrões formais.

Isso porque muitos escritores pertencentes ao início do movimento, romperam com a sintaxe, a metrificação e as rimas.

Sendo assim, eles se aproximaram da linguagem coloquial, subjetiva, original, crítica, sarcástica e irônica.

Lembre-se que o Modernismo foi um movimento artístico-literário que surgiu no século XX no Brasil e no Mundo.

A produção literária modernista destacou-se na poesia e na prosa rompendo com os padrões estéticos vigentes.

Características do Modernismo

O Modernismo no Brasil foi propulsionado pela Semana de Arte Moderna de 1922 que recebeu grande influência das vanguardas artísticas europeias.

A Semana de Arte Moderna representou um momento de efervescência cultural. Esteve baseada na ruptura, libertação da arte e, portanto, na renovação estética e consolidação de uma arte verdadeiramente nacional.

No Brasil, a temática empregada no modernismo possuía sobretudo um caráter nacionalista-ufanista.

Essa característica foi notada pela valorização da língua brasileira e do folclore, expressos pela liberdade formal dos versos livres e brancos (ausência de métrica e rima).

Muitos manifestos, revistas e grupos que surgiram nessa época expressaram essa mudança de paradigmas, por exemplo:

Gerações Modernistas no Brasil

O modernismo no Brasil está dividido em três fases:

Primeira Geração Modernista

Denominada de “Fase Heroica” foi marcada pela destruição dos valores e negação dos formalismos na arte. Destacam-se os escritores Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Manuel Bandeira.

“Pneumotórax” de Manuel Bandeira

"Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
"

Segunda Geração Modernista

Denominada de “Fase de Construção”, nesse momento, os escritores se distanciam um pouco da visão destruidora da primeira fase. Assim, consolidaram diversos aspectos da arte moderna por meio do teor social e histórico.

Na poesia modernista destacam-se os escritores: Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Vinícius de Moraes.

Já na prosa (romances psicológicos e regionalistas), merecem destaque os escritores: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Érico Veríssimo.

“Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade

"João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história."

Terceira Geração Modernista

Também conhecida como “Geração de 45” essa fase do modernismo esteve marcada pela busca dos aspectos nacionais.

A linguagem nesse período adquire características bem distintas em relação ao início do movimento modernista. Por isso, esse grupo de literatos ficou conhecido como “neoparnasianos” ou “neorromânticos”.

O rigor formal, desde a métrica e a rima, o racionalismo e o equilíbrio, são notórios nessa geração que se destaca na poesia e na prosa.

Na poesia, os artistas que merecem destaque são: Mário Quintana e João Cabral de Melo Neto.

Já na prosa, Guimarães Rosa e Clarice Lispector focam no universo intimista como forma de apresentar o questionamento existencial e a investigação interior de seus personagens.

Poeminho do Contra” de Mário Quintana

"Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!"

Leia também:

Gerações Modernistas em Portugal

O Modernismo em Portugal teve como marco inicial a publicação da Revista "Orpheu”, em 1915.

Dessa revista faziam parte os escritores: Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros, pertencentes à primeira geração modernista.

Da mesma maneira que no Brasil, o Modernismo em Portugal esteve dividido em três fases:

O Orfismo ou a Geração Orfeu

A primeira geração modernista em Portugal compreende o período entre 1915 e 1927. Dela fazem parte os seguintes escritores: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Luís de Montalvor e o brasileiro Ronald de Carvalho.

“Mar Português” de Fernando Pessoa

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

O Presencismo ou a Geração Presença

Na segunda geração modernista, que compreende o período entre 1927 e 1940, tem destaque os escritores Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões e José Régio.

“Cântico Negro” de José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
"

Neorrealismo

A literatura neorrealista em Portugal tem início em 1940 com a publicação do romance "Gaibéus" de Alves Redol. Nessa geração, além de Alves Redol, merecem destaque Ferreira de Castro e Soeiro Pereira Gomes.

“Gaibéus”de Alves Redol

"Ia já para três dias que o tractor parara e a regadeira não via pinga de água trasfegada do Tejo.

O arrozeiro, apertado pelo patrão, andava numa dobadoura, por marachas e linhas, a deitar olho aos canteiros de espiga mais loira, fazendo piques, agora aqui, agora ali, para que as águas fossem caminhando para a vala de esgoto e os ranchos pudessem meter foices no arrozal.

De pá ao alto, descansada no ombro, o «seu Arriques» já pensava na volta a casa, pois da sangria à recolha do bago poucas semanas iam.

- Que rica seara! Andei-me nela que nem sombra atrás d’alma penada, mas o patrão arrinca para cima de quarenta sementes. Se os outros a pudessem comer côa inveja...

E lançava a vista sobre o manto de panículas aloiradas, que os camalhões percintavam e a aragem branda enrugava, como mareta em oceano de oiro.

Mais além e aqui, uma mancha ou outra de verde a denunciar o cromo que o sol lhe arrancava, indício de algum cabeço que as enxadas, no armar da terra, não haviam derrubado.

- S’o patrão não andasse de fogo no rabo por mor do rancho, seis dias de molho davam-lhe uns saquitos bem bons. Assim... ainda adrega uma seara como por aqui não há outra.

Andava por oito meses que corria aqueles combros de alto a baixo. Primeiro, de bandeirolas a tirar miras para o erguer das travessas e a mandar homens na rebaixa, até os tabuleiros poderem receber uma lâmina de água para a sementeira; depois, a dirigir aquele caudal que todos os dias entrava Lezíria dentro, pela regadeira mestra, não fossem afogar-se os pés de arroz ou morrer alguns por míngua."

Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.