Narrador Personagem

Daniela Diana

O narrador personagem é um tipo de narrador que participa da história e por isso, recebe esse nome.

Ele pode ser o personagem principal (narrador protagonista), ou mesmo um personagem secundário (narrador testemunha). Isso vai depender de sua atuação e aparição na trama.

Nesse caso, a história é narrada em 1ª pessoa do singular ou do plural (eu, nós). Portanto, a subjetividade é uma marca fundamental nesse tipo de texto, uma vez que a visão e as opiniões do narrador estarão impregnadas de suas emoções.

Assim, quando a narração possui esse tipo de foco narrativo, a história será contada de forma parcial. Ou seja, ao leitor somente será oferecido a visão do narrador, não tendo, portanto, contato com nenhum outro ângulo da trama.

Além do narrador personagem, ele pode ser observador ou onisciente. No primeiro caso, a história é narrada em 3ª pessoa e o narrador não participa da história. No entanto, ele tem conhecimento de tudo o que se passa, mas não sabe tudo acerca de seus personagens.

Já no segundo caso, esse narrador sabe de tudo, inclusive os pensamentos e os sentimentos dos personagens da trama. Aqui, a história pode ser narrada em 1ª ou 3ª pessoa do singular ou plural.

Note que o narrador personagem escreve a partir de sua interpretação da história. Portanto, ele não tem total conhecimento dos outros personagens o que leva a uma visão limitada dos fatos.

Vale lembrar que a narração é um gênero textual que apresenta como estrutura a introdução, o desenvolvimento, o clímax e a conclusão.

O texto narrativo é formado pelo enredo, espaço, tempo, personagens e o narrador (foco narrativo).

Importante observar que o narrador personagem possui uma relação íntima com os elementos da narrativa. Isso porque é ele quem conta a história e tudo será oferecido ao leitor a partir de sua interpretação.

Quando uma narração apresenta esse tipo de foco narrativo, a história adquire um tom de suspense. Isso porque o leitor estará envolvido nas ações e descobertas que acompanham a visão do narrador.

Exemplos

Exemplo 1

Dentre os tipos de narradores personagens podemos destacar “Memórias Póstumas e Brás Cubas” de Machado de Assis. Nessa obra, o narrador personagem é também o personagem principal, chamado de narrador protagonista.

Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direito à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado na Suma Teológica de São Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.” (Capítulo VII - O Delírio)

Exemplo 2

Por outro lado, podemos destacar a obra “Lendas do Sul” de João Simões Lopes Neto, onde o narrador personagem é coadjuvante e não o protagonista da história. Nesse caso, ele é chamado de narrador testemunha.

Era eu que cuidava dos altares e ajudava a missa dos santos padres da igreja de S. Tomé, do lado ao poente do grande rio Uruguai. Sabia bem acender os círios, feitos com a cera virgem das abelheiras da serra; e bem balançar o turíbulo, fazendo ondear a fumaça cheirosa do rito; e bem tocar a santos, na quina do altar, dois degraus abaixo, à direita do padre; e dizia as palavras do missal; e nos dias de festa sabia repicar o sino; e bater as horas, e dobrar a finados... Eu era o sacristão.

Um dia na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras, sesteando; nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças, nem choro de crianças: tudo sesteava. O sol faiscava nos pedregulhos lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada, no ar parado, sem uma viração.

Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha da sacristia, levando no corpo a frescura da sombra benta, levando na roupa o cheiro da fumaça piedosa. E saí sem pensar em nada, nem de bem nem de mal; fui andando, como levado...

Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.”

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Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.