Poesia-Práxis

Daniela Diana

A Poesia-Práxis, cunhada de “vanguarda velha”, representou um movimento literário fundado pelo crítico e poeta Mário Chamie.

Essa denominação surgiu em crítica ao movimento de vanguarda concretista, de forma que uma dissidência de poetas, insatisfeitos com o rigor formal e o academicismo, resolvem romper com o concretismo ao propor uma nova estética poética.

Com isso, em 1962, liderado pelo poeta Mário Chamie, nasce a Poesia-Práxis, que apresenta como marco inicial, a publicação do livro “Lavra-Lavra” (1962), de Chamie, no qual apresenta o jogo sonoro, visual e semântico proposto pela sua poesia. Com essa obra, Mário ganhou o Prêmio Jabuti, em 1963.

Assim, os poetas desse período propunham a “palavra-energia” (matéria prima transformável) em detrimento da “palavra-objeto” dos concretistas.

Além disso, os teóricos do movimento criticavam o academicismo dos concretistas e sugeriam uma “atitude práxis”, inspirada numa postura crítica e no abuso da criatividade.

A “Revista Práxis” foi o veículo primordial para a divulgação dos ideais sugeridas por esse novo estilo, dos quais, além de Chamie colaboraram: Cassiano Ricardo, José Guilherme Merquior, Cacá Diegues, Jean-Claude Bernardet e Maurice Capovilla.

Para saber mais sobre o Movimento Concretista, acesse o link: Concretismo

Características

As principais características da poesia práxis:

  • Produção de múltiplas interpretações
  • Rejeição ao formalismo e academicismo concretista
  • Maior valorização do conteúdo em detrimento da forma
  • Poesia Visual e Social

Principais Autores

Os dois principais representantes desse movimento foram:

Mario Chamie

Considerado o percursor da poesia-práxis, Chamie nasceu em Cajobi, interior de São Paulo, no dia 01 de abril de 1933. Foi professor, advogado, crítico e poeta brasileiro, sendo o que mais se destacou na poesia-práxis.

Chegou a participar do movimento concreto, porém, em 1967 se afasta desse modelo e cria uma nova proposta: a poesia-práxis, engajada nos temas sociais e políticos. Segundo ele:

Práxis: fazer e refazer constantemente as coisas, os signos, as pessoas, as emoções, os sentimentos, as palavras, em busca de novos, surpreendentes e contraditórios significados, porque o mundo não é uma inércia adormecida, o mundo não é uma lesma que tomou Lexotan, o mundo é uma coisa vigorosa”.

Faleceu em São Paulo, dia 03 de julho de 2011, com 78 anos. Chamie escreveu ensaios e cerca de 15 livros; suas obras foram traduzidas em 12 línguas: Espaço Inaugural (1955), O Lugar (1957), Os Rodízios (1958), Now Tomorrow Mau (1963), Planoplenário (1974), Objeto Selvagem (1977), Horizonte de Esgrimas (2002), dentre outras.

Cassiano Ricardo

Junto à Chamie, o poeta e jornalista Cassiano Ricardo Leite (1895-1974) se destacou nos movimentos da poesia brasileira de vanguarda nas décadas de 50 e 60.

De acordo com o poeta, “Toda arte fala; mas a poesia é a única que fala a linguagem das palavras”. Fez parte da Semana de Arte Moderna, em 1922, donde participou dos grupos “Verde Amarelo” e “Anta”.

Quarto ocupante da Cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras (ABL), eleito em 9 de setembro de 1937.

A obra que mais se destaca a partir de suas poesias visuais vanguardistas é “Jeremias sem-chorar”, publicada em 1964, a qual recebeu o Prêmio Jorge Lima, em 1965.

Outras obras que se destacaram: A flauta de Pã (1917), Jardim das Hespérides (1920), Vamos caçar papagaios (1926), Borrões de verde e amarelo (1927), O sangue das horas (1943), O arranha-céu de vidro (1956), Montanha russa (1960), A difícil manhã (1960), dentre outras.

Exemplos de Poesia-Práxis

A fim de exemplificar a proposta da Poesia-práxis, segue abaixo dois poemas de Mario Chamie ("Agiotagem" e "Siderurgia S.O.S.") e dois de Cassiano Ricardo ("Campanário de São José" e "Rotação"):

Agiotagem

Um
Dois
Três
o juro: o prazo
o pôr / o cento / o mês / o ágio
p o r c e n t a g i o.
dez
cem
mil
o lucro: o dízimo
o ágio / a mora / a monta em péssimo
e m p r é s t i m o.
muito
nada
tudo
a quebra: a sobra
a monta / o pé / o cento / a quota
h a j a n o t a
agiota.

Siderurgia S.O.S.

Se der o ouro sidéreo opus horáriO
Sem sol o sal do erário saláriO
Ser der orgia semistério o empresáriO
Siderurgia do opus o só do eráriO
Se der a via do pus opus erradO
Se der o certo no errado o empregadO
Se der errado no certo o emprecáriO

Campanário de São José

Quem
Não
Tem
Seu
Bem
Que
Não
Vem?
Ou
Vem
Mas
Em
Vão?
Quem?

Rotação

a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
de novo a esperança
na esfera
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na esfera
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na esfera

Poema Processo

O Poema Processo foi um movimento liderado pelo poeta visual Wlademir Dias Pino, que vigorou de 1967 a 1972 no Brasil.

Esse modelo artístico prezava por uma linguagem revolucionaria e racional sendo os signos visuais (não verbais) os agentes estruturais do poema.

Em outras palavras, o poema processo era mais uma mensagem para ser vista, em detrimento da poesia concreta, pra ser lida, em que a palavra era essencial.

Nesse sentido, o poema processo, extrapola a linguagem verbal de modo que trabalha a partir de símbolos. Segundo um dos fundadores e expoentes do movimento, Moacy Cirne (1943-2014):

(...) toda poesia concreta é acabada, “fechada”, monolítica; já o poema/processo, para ser de fato um poema/processo, implica trans/formações.”

Alguns poetas que se destacaram com o poema processo: José Cláudio, Ronaldo Werneck, Aquiles Branco, Álvaro de Sá, Dailor Varela, Neide Dias de Sá, Nei Leandro de Castro, Moacy Cirne, Celso Dias, dentre outros.

Para exemplificar, o “Poema da Picotagem” (1968) de Moacy Cirne, propõe a produção de um poema processo:

Três folhas brilhosas (meio-ofício) em cores diferentes: vermelho, amarelo e preto. Distribuídas no interior de um envelope, como partes de um mesmo poema. Em traçados retilíneos, mas não paralelos, sete cortes picotados. O leitor é "convidado" a picotar, criando possibilidades formais sempre novas e diferenciadas a cada parte do poema "jogada" fora. O leitor também poderia embaralhar as folhas, aumentado assim as possibilidades criativas do poema.”

Curiosidade

A palavra “Práxis”, do grego significa conduta, ação. Corresponde a uma atividade prática em oposição à teoria.

Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.