Poesia Social

Daniela Diana

A poesia social é um tipo de produção literária que aborda questões de valor político e social.

Na história da literatura brasileira, alguns momentos foram essenciais para a propagação da poesia social, por exemplo, no Romantismo, na Geração Mimeógrafo, e nalguns movimentos modernos e contemporâneos.

No século XIX, o movimento literário romântico apresenta as primeiras manifestações da poesia social, expressas nas obras de autores como: Fagundes Varela, Castro Alves e Sousândrade.

Vale lembrar que um dos importantes momentos de consagração da poesia social no Brasil surgiu com a poesia-práxis, em contraposição ao radicalismo e preocupação formal do movimento concretista (poema-objeto).

Os principais escritores que se destacaram no movimento da poesia práxis foram: Mario Chamie e Cassiano Ricardo.

Outra corrente artística que surge em oposição ao Concretismo, foi o Neoconcretismo ou Movimento Concretista, o qual propunha uma arte mais voltada para os problemas políticos e sociais do país. O maior representante da poesia social nesse momento, foi o poeta Ferreira Gullar.

Já na Geração Mimeógrafo, chamada de Poesia Marginal, a preocupação com a poesia social esteve marcada pelos trabalhos de artistas como: Chacal, Cacaso, Paulo Leminski e Torquato Neto.

No Modernismo, diversos escritores criaram suas obras baseadas na realidade social do país, dos quais merecem destaque: Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, dentre outros.

Principais Caraterísticas

As características mais importantes da poesia social são:

  • Linguagem simples, cotidiana
  • Realidade e denúncia social
  • Poesia crítica e engajada

Exemplos

Segue abaixo dois exemplos de poesia social:

Poesia Social de Castro Alves

Trecho da obra “Vozes d’África” (1868)

“Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa — arrebatada —
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

Poesia Social de Ferreira Gullar

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

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Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.