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Pragmatismo: entenda o que é e os princípios fundamentais (com exemplos)

Diogo Orsi
Diogo Orsi
Professor de Filosofia e Sociologia

O pragmatismo entende que o pensamento é uma ferramenta para orientar a ação. Ou seja, uma ideia “tem valor” quando ela funciona, quando ajuda a esclarecer um problema, prever resultados, cooperar melhor, tomar decisões mais responsáveis e corrigir erros.

Neste conteúdo você encontra:

Origem e principais pensadores

O pragmatismo é uma corrente filosófica que nasceu nos Estados Unidos, no fim do século XIX, propondo uma pergunta simples para julgar ideias: quais são as consequências práticas de uma crença?

Em vez de buscar verdades absolutas e distantes da vida cotidiana, os pragmatistas defendem que teorias, conceitos e valores devem ser avaliados pelos efeitos que produzem na experiência, seja ela individual ou coletiva.

Esta corrente filosófica conecta-se diretamente a problemas reais como aprendizagem, convivência, políticas públicas, tecnologia e cidadania digital.

Historicamente, a tradição pragmatista se dá em três momentos, marcados por três principais pensadores:

  • Charles S. Peirce (década de 1870) propõe o chamado “princípio” ou “máxima pragmática”: o significado de um conceito se esclarece pelos efeitos práticos concebíveis que esperamos dele. Pensar é ajustar nossos hábitos de ação.
  • William James (1907-1911) amplia o escopo deste pensamento: a verdade é aquilo que se comprova na experiência, resistindo a testes, ao longo do tempo. Não se trata de “qualquer coisa vale”, e sim de uma investigação aberta e contínua.
  • John Dewey (início a meados do século XX) transforma o pragmatismo em um método público de investigação: aprender é investigar problemas reais, em cooperação, testando hipóteses e melhorando (“meliorismo”) processos e instituições, da sala de aula à democracia.

Mais recentemente no século XX, autores como Hilary Putnam e Richard Rorty retomam e discutem o pragmatismo em diálogo com a filosofia da linguagem, a ciência e a política contemporâneas.

Princípios fundamentais do pragmatismo

Significado = consequências práticas

Para entender um conceito, pergunte: o que muda no meu modo de agir se eu acreditar em algo?

Por exemplo: acreditar que “privacidade digital é um valor importante” implica manter hábitos (senhas fortes, checagem de permissões, recusa a enviar dados sensíveis), seguir regras (configurações de privacidade) e realizar cobranças públicas (transparência de plataformas).

Verdade = aquilo que resiste a testes na experiência

Crenças não são “etiquetas eternas”, mas conquistas provisórias da investigação. Se uma regra, programa ou teoria explica melhor, prevê melhor e produz melhores resultados em contextos relevantes, tende a ser considerada mais verdadeira, até que surja algo mais explicativo e mais útil.

Conhecimento = prática social e cooperativa

Para os pragmatistas, investigar é uma atividade pública: definimos problemas, formulamos hipóteses, testamos, coletamos evidências, revemos o que não funciona e aperfeiçoamos o que funciona.

A escola, por exemplo, é um laboratório excelente para exercitar esse ciclo.

“Meliorismo” (melhorias incrementais)

Não há soluções absolutas num passo só. Em geral, progredimos por pequenas melhorias cumulativas. Isso exige estarmos abertos para mudar de ideia quando os resultados mostram caminhos melhores.

“Antirrepresentacionalismo”

O pensamento não é um “espelho perfeito” da realidade. Ele cria ferramentas conceituais para navegar o mundo. Valorizamos descrições e teorias que ajudam a viver, explicar, cooperar e corrigir rumos com responsabilidade.

O pragmatismo na prática

A seguir, destacamos três áreas do cotidiano escolar e social onde o pragmatismo traz critérios claros.

Aprendizagem e avaliação

Pergunta pragmatista: esta prática melhora a aprendizagem de fato?

  • Exemplo: a escola quer trocar parte das provas por projetos. Em vez de decidir por preferência, a comunidade elabora um teste piloto com definições claras, aplica em duas turmas, compara resultados (compreensão conceitual, engajamento, autonomia) e refina o modelo. O que “funciona melhor” fica; o que não funciona é revisto.

Convivência e regras

Pergunta pragmatista: certas regras reduzem conflitos e promovem o bem-estar?

  • Exemplo: política de uso de celular na escola. Ao invés de “proibir” ou “liberar” por mera opinião, a escola desenvolve regras em conjunto com estudantes e professores, mede a distração e o uso pedagógico por algumas semanas, compara indicadores (tarefas entregues, participação na aula) e ajusta as regras. A regra “verdadeira” será a que mostra bons resultados públicos ao longo do tempo.

Cidadania e políticas públicas

Pergunta pragmatista: tal política pública consegue resolver problemas reais e prestar contas?

  • Exemplo brasileiro: experiências de orçamento participativo e avaliação de políticas usam critérios pragmatistas: metas claras, indicadores, transparência, revisão periódica. Não basta “parecer bom”: é preciso mostrar resultados reais como diminuir filas, ampliar cobertura e melhorar o atendimento, reduzir desigualdades, etc..

Desafios e debates atuais

Nenhuma tradição filosófica está livre de críticas. Eis as mais comuns e como o pragmatismo responde a elas.

“Pragmatismo é ‘vale-tudo’?”

Não. “Funcionar” não é agradar momentaneamente. Envolve evidências públicas, consistência e responsabilidade com consequências de longo prazo. Políticas “fáceis” que geram efeitos ruins acabam não passando no teste pragmatista ao longo do tempo.

“E os valores morais? Só importam resultados?”

Para pragmatistas, valores são parte da investigação. Eles desejam resultados que aperfeiçoem a vida comum: justiça, inclusão, segurança, liberdade, aprendizagem real, etc.. Por isso, a checagem dos efeitos deve incluir critérios éticos e dados confiáveis, estando sempre aberta à crítica pública.

“Se a verdade é provisória, podemos confiar em algo?”

Podemos e devemos. “Provisória” não significa “frágil”, mas aberta à revisão quando surgirem razões melhores. Ciência e democracia se fortalecem ao corrigir erros e aprimorar práticas a partir de experiências reais.

Diferenças internas entre os autores

  • Peirce enfatiza a clareza conceitual e a lógica da investigação.
  • James destaca a experiência vivida e a verificação ao longo do tempo.
  • Dewey foca a educação, a cooperação e o melhoramento institucional.
  • Autores contemporâneos (como Rorty e Putnam) discutem linguagem, ciência e política para manter o pragmatismo relevante hoje.

Pragmatismo no contexto brasileiro

  • Educação democrática: experiências brasileiras de participação estudantil, grêmios e conselhos escolares se alinham ao método pragmatista quando definem problemas, levantam dados e ajustam práticas de convivência e aprendizagem.
  • Gestão pública: avaliações do SUS, programas de merenda escolar ou transporte ganham com a lógica de definir metas claras, medir resultados, comparar e revisar rotas, sem perder de vista a dimensão ética do cuidado e da equidade.
  • Cidadania digital: combater desinformação em escolas exige procedimentos testáveis (educação midiática, rotinas de checagem de fatos, indicadores de circulação de boatos) e revisões periódicas.

Como aplicar o pragmatismo em nossas vidas

  1. Comece pela pergunta certa: “Que problema esta ideia resolve? Que efeitos esperamos?”
  2. Procure exemplos: traduza conceitos em hábitos e decisões concretas (na turma, na família, na comunidade).
  3. Desconfie de fórmulas mágicas: valorize dados e compare alternativas.
  4. Revise sem medo: melhorar é mudar. Se os resultados não vierem, ajuste! Isso é pensar pragmaticamente.

Conclusão

O pragmatismo convida a pensar com as mãos na massa: clarear conceitos pelos seus efeitos, testar hipóteses, medir resultados, cooperar e aprender com a experiência.

Para a escola, isso significa tratar ideias como ferramentas públicas, sendo úteis quando explicam melhor, promovem a convivência e melhoram a vida comum. Ao adotar esse espírito, a filosofia se aproxima do cotidiano e mostra que teorias não servem para ficar na estante, mas podem nos ajudar a agir melhor.

Leia também: O que é Filosofia

Referências Bibliográficas

GHERALDELLI JR., Paulo. O que é pragmatismo. São Paulo: Brasiliense, 2007

JAMES, William. Pragmatismo. São Paulo: Martin Claret, 2005

MALACHOWSKI, Alan (org.). The Cambridge Companion to Pragmatism. Cambridge: Cambridge University Press, 2013

MURPHY, John P.; RORTY, Richard (intro.). Pragmatism: From Peirce to Davidson. Boulder: Westview Press, 1990

TALISSE, Robert B.; AIKIN, Scott F. (orgs.). The Pragmatism Reader: From Peirce Through the Present. Princeton: Princeton University Press, 2011

Diogo Orsi
Diogo Orsi
Bacharel (PUC/SP) e licenciado (UniBF) em Filosofia. Mestrando em Filosofia (Unifesp), com ênfase em filosofia política contemporânea.