Entradas e Bandeiras

Ligia Lemos de Castro
Ligia Lemos de Castro
Professora de História

As Entradas e Bandeiras foram expedições de desbravamento com finalidades estratégicas e econômicas, realizadas pelo interior do Brasil Colônia entre os séculos XVI e XVIII. Estas incursões garantiram a expansão e conquista do território brasileiro pelos colonizadores.

Enquanto as Entradas eram expedições de caráter oficial, ordenadas pela Coroa Portuguesa e saindo predominantemente da Região Nordeste, as Bandeiras eram iniciativas dos próprios colonos, lideradas pelos chamados bandeirantes que partiam em sua maioria de São Paulo.

Em comum, ambas partiam em busca de metais preciosos e resultaram no extermínio e na captura de milhares de indígenas para a escravização.

Características das Entradas e Bandeiras

Tanto as Entradas como as Bandeiras tinham como motivação fundamental a busca por metais preciosos. Desde sua chegada ao território, os portugueses alimentaram a esperança de achar aqui fartas jazidas de ouro e prata, como aquelas encontradas pelos espanhóis nas regiões dos atuais México e Peru.

Assim, alimentou-se o mito do “eldorado”, que poderia ser encontrado seguindo o curso dos rios rumo ao interior.

Ao mesmo tempo, tiveram o papel de mapear o território, estabelecer áreas para criação de gado e desenvolvimento da agricultura necessária às necessidades da colônia, bem como dominar e escravizar as populações indígenas.

Estas expedições compartilhavam muitas características, mas em especial podemos citar:

  • privações, como a alimentação precária - baseada na caça, pesca e coleta de frutas e raízes, por exemplo, a mandioca
  • a longa duração das viagens, as quais podiam se estender por anos

Esses exploradores também eram chamados de sertanistas, em referência ao termo “sertão”, que os portugueses usavam para falar sobre todo o território por eles desconhecido e distante do litoral da colônia.

Nessas longas viagens, eles se valiam dos conhecimentos dos povos indígenas para encontrar caminhos, alimentos, para a navegação dos rios e nos confrontos com populações indígenas não amistosas.

Nesse sentido, as principais armas dos expedicionários eram de origem indígena, como o arco, a flecha e a borduna. Também usavam algumas armas de fogo, como o mosquete.

Vale lembrar que as viagens eram extremamente penosas e resultavam na morte de vários integrantes do grupo por conta da falta de higiene, doenças, ataques de animais e povos indígenas, entre outros fatores.

As expedições que seguiam pelas vias fluviais eram denominadas "monções", caracterizadas por serem mais bem estruturadas que as expedições terrestres.

Cabe ressaltar que, embora as Entradas e Bandeiras tenham desempenhado um papel fundamental na história do Brasil, os feitos destes exploradores tem sido objeto de revisão histórica.

O papel fundamental na história relaciona-se com a abertura de caminhos para a exploração do interior, moldando seu desenvolvimento e identidade.

O motivo da revisão histórica, por sua vez, relaciona-se ao fato das expedições terem caráter violento, além de a escravização ter sido um de seus principais objetivos.

Principais características das Entradas

As Entradas eram expedições oficiais organizadas e financiadas pela Coroa portuguesa.

Tinham como prioridade realizar o mapeamento do território recém descoberto e viabilizar sua colonização além do litoral.

Elas também deveriam descobrir a existência de ouro e pedras preciosas, bem como atuar no combate aos povos indígenas, que resistiam ao colonizador e aos invasores europeus, principalmente os holandeses.

Com efeito, estas empreitadas saiam do litoral rumo ao oeste para o interior da colônia. Seus integrantes, que podiam chegar a algumas centenas, eram majoritariamente soldados portugueses e brasileiros brancos.

A primeira Entrada da qual se tem registros foi ordenada por Martim Afonso de Souza em 1531. Essa Entrada partiu do Rio de Janeiro, tendo sido provavelmente guiada por indígenas, e percorreu cerca de 760 quilômetros em direção ao atual estado de Minas Gerais.

Nomeado primeiro governador-geral em 1548, Tomé de Sousa vem para o Brasil com a missão de descobrir minas de ouro e prata. Em 1550 determinou a saída de uma embarcação da Bahia, sob comando de Miguel Henriques.

O grupo deveria seguir pelos rios Paraguaçu e São Francisco até onde não mais conseguisse. Ainda em 1550, o capitão donatário, Duarte de Lemos, já escrevia à Corte afirmando existir evidências de ouro na colônia.

Em 1554, os expedicionários, sob comando de Francisco Bruzo de Espinosa, partem da Bahia e viajam pelo rio Pardo, o Jequitinhonha e o São Francisco. O grupo atravessou o sertão até o atual estado de Minas Gerais.

Vale citar que a partir do século XVII em diante, a Coroa portuguesa irá dar prioridade à busca por ouro e pedras preciosas.

Principais características das Bandeiras

Podemos dizer que as expedições de Bandeiras foram as responsáveis pela expansão do território brasileiro, uma vez que não respeitavam os limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas e invadiam o território espanhol.

Por esse motivo, elas não eram patrocinadas oficialmente pela Coroa portuguesa e seus custos eram financiados por empreendedores particulares.

Esse tipo de expedição se tornou mais comum após o fim da União Ibérica (1640) e da expulsão dos holandeses do Brasil (1654).

Geralmente, a composição das Bandeiras se dava por um grupo minoritário de brancos (brasileiros em sua maioria) e um grande contingente de mestiços (mamelucos) e indígenas.

Elas podiam ir desde um pequeno grupo de desbravadores até milhares de indivíduos, especialmente nativos, os quais eram responsáveis pela agricultura de subsistência, além de combater, guiar e vigiar.

Os bandeirantes buscavam metais, pedras preciosas e drogas do sertão (bandeirantismo prospector), além do que se dedicavam:

  • ao apresamento de indígenas (bandeirismo de preação)
  • à captura de escravos africanos fugitivos
  • ao combate aos quilombolas e aos povos indígenas, que resistiam à colonização (bandeirantismo de contrato).

Partindo de São Vicente e São Paulo, estas expedições cruzavam a Serra do Mar. Elas eram favorecidas pela navegação do rio Tietê e de seus afluentes, em direção ao centro-oeste e sul do Brasil.

Devemos lembrar que boa parte da imagem heroica dos bandeirantes foi construída por historiadores paulistas do início do século XX. Os historiadores tinham interesse em elevar o papel de São Paulo na história da formação do Brasil.

Essa exaltação à figura do bandeirante continua presente em monumentos e em nomes de avenidas e estradas (como Fernão Dias, Raposo Tavares e Borba Gato, entre outros). Tudo isso tem sido objeto de protestos de movimentos sociais que buscam contrapor a esta imagem o papel dos bandeirantes na manutenção do sistema escravista.

Para saber mais:

Referências Bibliográficas

CARNEIRO, Patricio Aureliano Silva. Do Sertão ao território das Minas e das Gerais: entradas e bandeiras, política territorial e formação espacial no período colonial. Tese (Doutorado). Universidade Federal de Minas Gerais, 2013. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/MPBB-95SMJC (acesso em 20/02/2024).

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2ª edição. São Paulo: Edusp, 1995, pp.91-99.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, pp. 107 - 128.

Ligia Lemos de Castro
Ligia Lemos de Castro
Professora de História formada pela Universidade Federal de São Paulo. Especialista em Docência na Educação à Distância pela Universidade Federal de São Carlos. Leciona História para turmas do Ensino Fundamental II desde 2017.