Exercícios sobre Grande Sertão: Veredas (para o ENEM)
Confira a seguir os exercícios comentados sobre Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
Questão 1
Leia o trecho:
Em termos, gostava que morasse aqui, ou perto, era uma ajuda. Aqui não se tem convívio que instruir. Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...
No fragmento, a definição de sertão apresentada por Riobaldo contribui para a construção da obra porque
a) reduz o sertão a uma região geográfica delimitada e identificável nos mapas.
b) caracteriza o sertão como espaço exclusivamente marcado pela pobreza material.
c) transforma o sertão em uma dimensão existencial ligada à experiência humana e à reflexão sobre a vida.
d) apresenta uma descrição objetiva do ambiente, típica do Realismo do século XIX.
e) enfatiza exclusivamente os aspectos históricos da ocupação do interior brasileiro.
Uma das grandes inovações de Guimarães Rosa consiste em transformar o sertão em algo que ultrapassa a geografia. O espaço torna-se uma experiência humana, moral e existencial, associada ao pensamento, às escolhas e aos dilemas da vida. A frase “Viver é muito perigoso” reforça essa dimensão filosófica da narrativa.
A alternativa A pode atrair estudantes por mencionar a localização física do sertão, mas a definição apresentada pelo narrador claramente transcende a simples caracterização regional.
Questão 2
Leia o trecho:
“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.
A reflexão apresentada por Riobaldo evidencia uma característica importante da obra, que é
a) a valorização de verdades absolutas e imutáveis sobre a natureza humana.
b) a defesa de uma visão determinista segundo a qual o indivíduo nasce com um destino fixo.
c) a compreensão da identidade humana como processo de transformação permanente.
d) a negação da influência das experiências vividas na formação do sujeito.
e) a valorização exclusiva da tradição sertaneja como fundamento da existência.
O trecho expressa uma visão dinâmica da condição humana. Para Riobaldo, as pessoas não são seres acabados, mas indivíduos em constante mudança. Essa perspectiva atravessa toda a narrativa, marcada por revisões de memória, dúvidas e transformações pessoais.
A alternativa B pode parecer plausível porque a obra discute destino e fatalidade, mas o fragmento afirma justamente o contrário: os indivíduos podem “afinar ou desafinar”, modificando-se ao longo da vida.
Questão 3
Leia o trecho:
O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranqüilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!
O emprego da linguagem nesse trecho exemplifica uma característica da prosa de Guimarães Rosa porque
a) combina oralidade com invenção expressiva e reflexão filosófica.
b) utiliza uma linguagem científica voltada para a análise objetiva da realidade.
c) reproduz rigidamente a norma culta e evita marcas de oralidade.
d) imita integralmente o português literário do Romantismo.
e) rejeita qualquer marca regional na construção do discurso.
A linguagem rosiana articula fala popular, ritmo oral e densidade reflexiva. O narrador expressa uma aparente contradição — “nada não sei” e “desconfio de muita coisa” — que sintetiza sua postura diante do mundo. O fragmento exemplifica a renovação linguística promovida pelo Modernismo, especialmente na terceira geração.
A alternativa C pode parecer adequada por se tratar de um narrador reflexivo, mas a construção sintática evidencia forte oralidade e distanciamento da norma-padrão.
Questão 4
Leia o trecho a seguir.
Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina... Agora, bem: não queria tocar nisso mais – de o Tinhoso; chega. Mas tem um porém: pergunto: o senhor acredita, acha fio de verdade nessa parlanda, de com o demônio se poder tratar pacto? Não, não é não? Sei que não há. Falava das favas. Mas gosto de toda boa confirmação. Vender sua própria alma... invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa interna supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta!
A metáfora utilizada por Riobaldo sugere que Diadorim representa
a) uma figura totalmente compreendida e transparente para o narrador.
b) uma presença associada ao mistério indescrítivel de certas experiências.
c) um personagem secundário sem relevância emocional na narrativa.
d) apenas um companheiro de guerra entre muitos outros jagunços.
e) uma personificação do sertão enquanto espaço geográfico.
Ao definir Diadorim como sua “neblina”, Riobaldo sugere uma relação marcada pela indefinição, pelo mistério e pela complexidade emocional. A personagem ocupa posição central na narrativa justamente porque desperta sentimentos que o narrador tem dificuldade de compreender plenamente.
A alternativa D pode parecer plausível por destacar a convivência entre os dois na jagunçagem, mas o trecho evidencia uma dimensão afetiva muito mais profunda.
Questão 5
Leia o trecho a seguir com atenção.
Lhe mostrar os altos claros das Almas: rio despenha de lá, num afã, espuma próspero, gruge; cada cachoeira, só tombos. O cio da tigre preta na Serra do Tatu – já ouviu o senhor gargaragem de onça? A garoa rebrilhante da dos-Confins, madrugada quando o céu embranquece – neblim que chamam de xererém. Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim...
Nesse contexto, a paisagem natural assume importância devido ao fato de
a) funcionar apenas como cenário neutro para os acontecimentos.
b) estabelecer uma relação entre experiência afetiva e contemplação da natureza.
c) substituri completamente a caracterização psicológica das personagens.
d) servir exclusivamente para documentar a fauna e a flora do sertão.
e) evidenciar a preocupação científica do narrador com o meio ambiente.
Em Grande Sertão: Veredas, a natureza está profundamente associada às experiências humanas. A contemplação das paisagens, dos rios, dos pássaros e das veredas está frequentemente ligada à presença de Diadorim e aos sentimentos de Riobaldo.
A alternativa D pode atrair estudantes devido à riqueza descritiva da obra, mas as descrições não têm finalidade documental; elas possuem forte carga simbólica e afetiva.
Questão 6
Leia o trecho:
Tão bem, conforme. O senhor ouvia, eu lhe dizia: o ruim com o ruim, terminam por as espinheiras se quebrar – Deus espera essa gastança. Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja.
Considerando o contexto da narrativa, as reflexões sobre Deus e o diabo servem principalmente para
a) comprovar objetivamente a existência de forças sobrenaturais.
b) defender uma doutrina religiosa específica como verdade absoluta.
c) construir uma narrativa fantástica baseada em elementos sobrenaturais.
d) substituir os conflitos humanos por explicações religiosas simplificadas.
e) desenvolver questionamentos morais e existenciais sobre a condição humana.
As reflexões de Riobaldo sobre Deus, o diabo e o pacto demoníaco não buscam comprovar dogmas religiosos. Elas funcionam como instrumentos para discutir culpa, liberdade, responsabilidade e maldade humana.
A alternativa C pode parecer plausível porque o romance menciona constantemente o demônio, mas o foco da obra não está no fantástico, e sim na investigação filosófica da existência.
Questão 7
Leia o trecho com atenção.
Só Candelário se endiabrou, por pensar que estava com doença má. Titão Passos era o pelo preço de amigos: só por via deles, de suas mesmas amizades, foi que tão alto se ajagunçou. Antônio Dó – severo bandido. Mas por metade; grande maior metade que seja. Andalécio, no fundo, um bom homem-de-bem, estouvado raivoso em sua toda justiça. Ricardão, mesmo, queria era ser rico em paz: para isso guerreava. Só o Hermógenes foi que nasceu formado tigre, e assassim
No fragmento, a palavra “assassim” exemplifica um procedimento recorrente na linguagem de Guimarães Rosa. Esse recurso relaciona-se ao projeto estético modernista ao
a) buscar reproduzir rigorosamente a norma-padrão da língua portuguesa e preservar suas formas tradicionais.
b) utilizar vocabulário erudito de origem clássica para aproximar a literatura brasileira dos modelos europeus.
c) promover a experimentação linguística por meio da recriação das palavras e das possibilidades expressivas da língua.
d) evitar marcas de oralidade para conferir maior objetividade à narrativa da vida do Sertão.
e) recuperar exclusivamente formas linguísticas do português arcaico e produzir inovações vocabulares.
A forma “assassim” constitui um exemplo da liberdade criativa característica da linguagem de Guimarães Rosa. O autor frequentemente transforma palavras existentes, cria neologismos e incorpora traços da oralidade sertaneja para ampliar a capacidade expressiva da língua portuguesa. Esse procedimento está diretamente relacionado ao projeto modernista de renovação estética e linguística, que buscava romper com modelos rígidos de escrita e explorar novas formas de representação da realidade brasileira.
A alternativa A pode atrair estudantes por associar literatura de prestígio ao uso da norma-padrão, mas a obra rosiana se destaca justamente pela reinvenção da linguagem e pela experimentação vocabular.
Questão 8
Leia o trecho:
Mas, essa ocasião, ele estava ali, mais vindo, a meia-mão de mim. E eu – mal de não me consentir em nenhum afirmar das docemente coisas que são feias – eu me esquecia de tudo, num espairecer de contentamento, deixava de pensar. Mas sucedia uma duvidação, ranço de desgosto: eu versava aquilo em redondos e quadrados. Só que coração meu podia mais.
A característica marcante da narrativa de Riobaldo evidenciada pela passagem é a
a) objetividade na reconstrução assertiva dos fatos passados.
b) predominância de relatos históricos documentais.
c) descrição impessoal dos eventos da jagunçagem valente.
d) presença constante das emoções na rememoração sentimental.
e) preocupação em narrar rigidamente apenas fatos verificáveis.
Riobaldo não reconstrói o passado como um cronista objetivo. Sua narrativa é atravessada por emoções, lembranças e interpretações posteriores dos acontecimentos. Nesse trecho, a recordação da convivência com Diadorim surge associada ao contentamento e ao esquecimento do mundo ao redor, revelando a intensa carga subjetiva da memória.
A alternativa A pode atrair leitores que percebam a riqueza de detalhes do relato, mas esses detalhes são sempre filtrados pela experiência emocional do narrador.
Veja também: Questões sobre Guimarães Rosa (com respostas explicadas)
LUIS, Rodrigo. Exercícios sobre Grande Sertão: Veredas (para o ENEM). Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/exercicios-sobre-grande-sertao-veredas-para-o-enem/. Acesso em: