Felicidade: o que é e as principais perspectivas filosóficas
A busca pela felicidade é, talvez, o objetivo mais antigo e universal da humanidade. No entanto, o que define uma "vida feliz" mudou e mudará com o passar do tempo.
Enquanto para o senso comum a felicidade costuma estar ligada a momentos de alegria ou conquistas materiais, para a filosofia ela é uma questão de ética, comportamento e conhecimento, envolvendo muitas vezes a ideia de coletividade.
Diversos filósofos pensaram em maneiras de definir o conceito de felicidade. Abaixo vamos conhecer algumas correntes filosóficas que abordam o tema.
A felicidade na Antiguidade: as escolas gregas
Aristóteles e a autorrealização
Para Aristóteles, a felicidade é o bem mais supremo para se ter e alcançar. Ele argumenta que todas as outras coisas (dinheiro, saúde, fama) são meios para se chegar a um fim, mas a felicidade é o único fim em si mesmo. Sempre que pensamos em realizar algo, pensamos com uma finalidade: alcançar a felicidade.
A prática da virtude: Não se nasce feliz; torna-se feliz através do hábito. A felicidade é uma atividade da alma virtuosa. Toda ação iniciada pode parecer difícil, porém, com o tempo de prática e hábito, pode se tornar parte da nossa natureza.
O caminho do meio: A felicidade é encontrada no equilíbrio. Por exemplo, a coragem é a justa medida entre a covardia (falta/ausência) e a temeridade (excesso). A pessoa corajosa é capaz de medir os esforços e não se colocar em risco.
Epicuro e o prazer cauteloso
Muitas pessoas confundem o Epicurismo com a busca desenfreada pelo prazer. A ideia de Hedonismo, segundo Epicuro, não é sugerir uma vida de vícios, na verdade o filósofo sugeria o oposto.
Ataraxia: A verdadeira felicidade é a ausência de perturbações na alma e de dores no corpo.
Ressignificando prazeres: Epicuro sugeria que devemos evitar prazeres intensos que trazem grandes consequências ou arrependimentos posteriores (como o excesso de bebida) e valorizar prazeres simples. Outra forma é se livrar dos medos de acontecimentos inevitáveis, como a morte.
O Estoicismo e o autocontrole
Para filósofos como Sêneca e Marco Aurélio, a felicidade não depende do que acontece com você, mas de como você reage ao que acontece.
Diferenciação: O segredo da felicidade para os estoicos é saber separar o que podemos controlar (nossos pensamentos e ações) do que não podemos (clima, economia, opinião e ação alheia).
Apatheia: Ao não se deixar escravizar pelas paixões e desejos, o homem atinge a paz interior.
A Felicidade na Modernidade e Contemporaneidade
Immanuel Kant: dever e dignidade
Kant rompe com a ideia de que o objetivo principal da vida é a felicidade, ideia trabalhada desde a Grécia Antiga. Para ele, a felicidade não pode servir como base da moral por variar de pessoa para pessoa dependendo de interesses individuais.
O dever: Kant afirma que a prioridade deve ser agir conforme a lei moral, expressa no imperativo categórico (agir incondicionalmente, independente de interesses pessoais). Ao agir corretamente, o indivíduo se torna digno de felicidade, ainda que ela não seja garantida.
O Utilitarismo: felicidade coletiva
No século XIX, Jeremy Bentham e John Stuart Mill desenvolveram uma visão mais prática da moral.
Jeremy Bentham
Princípio da utilidade: uma ação é considerada moralmente correta quando promove o maior nível de felicidade para o maior número de pessoas.
Cálculo do prazer: Bentham propôs que a felicidade poderia ser avaliada a partir de critérios como intensidade e duração dos prazeres.
Stuart Mill
Mill foi aluno de Bentham, mas refinou a teoria. Ele argumentava que nem todos os prazeres têm o mesmo peso. Com isso, ele separou os prazeres superiores (intelectuais, artísticos e morais) dos prazeres inferiores (puramente físicos ou sensoriais).
Albert Camus: a felicidade e o absurdo
Enquanto muitos filósofos tentam encontrar um sentido lógico para a vida, Albert Camus parte do princípio do absurdo: o conflito entre o desejo humano de encontrar significado e o "silêncio do universo". Para Camus, a felicidade não surge quando encontramos o sentido da vida, mas quando aceitamos que a vida não tem um sentido pré-determinado.
A felicidade como rebeldia
Para Camus, ser feliz é um ato de revolta. No seu ensaio O Mito de Sísifo, ele usa o exemplo do personagem mitológico condenado a empurrar uma pedra até o topo de uma montanha para o resto da eternidade, apenas para assistir a pedra rolar de volta.
O Sísifo feliz: Camus termina o ensaio com a frase célebre: "É preciso imaginar Sísifo feliz". Ele é feliz porque aceita seu destino e continua empurrando a pedra. A felicidade está no esforço e na consciência de que somos donos dos nossos próprios passos, apesar das dificuldades.
Veja também: Exercícios de Filosofia (com respostas explicadas)
Referências Bibliográficas
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001.
(opcional, se estiver fazendo ponte com felicidade clássica)
BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MILL, John Stuart. Utilitarismo. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: do humanismo a Kant. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2005.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: do romantismo até nossos dias. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2006.
SANDEL, Michael J. Justiça: o que é fazer a coisa certa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
RODRIGUES, Érika. Felicidade: o que é e as principais perspectivas filosóficas. Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/felicidade-o-que-e-e-as-principais-perspectivas-filosoficas/. Acesso em: