Lateralidade: entenda o que é e os tipos (com atividades)

Juliana Carpi
Juliana Carpi
Professora de Educação Física

A lateralidade é a capacidade de perceber os dois lados do corpo e utilizá-los de maneira organizada durante os movimentos. Ela permite que a criança reconheça direita e esquerda e compreenda como seu corpo se posiciona em relação às pessoas, aos objetos e ao espaço.

Essa habilidade pode ser observada em ações cotidianas, como chutar uma bola, desenhar, escovar os dentes, subir uma escada, olhar por um pequeno orifício ou ouvir um som aproximando um objeto da orelha.

Embora os dois lados do corpo participem dos movimentos, é comum que um deles apresente maior precisão, força ou facilidade para realizar determinadas tarefas.

A lateralidade desenvolve-se progressivamente durante a infância. Por isso, a criança precisa ter oportunidades de correr, saltar, lançar, desenhar, equilibrar-se, explorar diferentes direções e realizar movimentos com ambos os lados do corpo.

Neste conteúdo você vai encontrar:

Lateralidade e dominância lateral: qual é a diferença?

Lateralidade
Ilustração criada por inteligência artificial

Apesar de estarem relacionados, lateralidade e dominância lateral não significam exatamente a mesma coisa.

A lateralidade envolve a percepção e a organização dos lados direito e esquerdo do corpo. Ela permite que a criança compreenda, por exemplo, qual é sua mão direita, identifique o lado esquerdo de outra pessoa e siga orientações como “vire para a direita” ou “coloque o objeto à esquerda da cadeira”.

A dominância lateral, por sua vez, corresponde à preferência ou à maior habilidade de um dos lados do corpo para realizar determinadas ações.

Essa preferência pode ser observada em diferentes partes do corpo:

  • Dominância manual: mão preferida para escrever, desenhar ou lançar;
  • Dominância pedal: pé preferido para chutar ou iniciar um salto;
  • Dominância ocular: olho utilizado para mirar ou observar por uma abertura;
  • Dominância auditiva: ouvido aproximado de um objeto para escutar melhor.

Uma criança pode saber diferenciar direita e esquerda e, ao mesmo tempo, apresentar preferências diferentes para usar a mão, o pé, o olho ou o ouvido.

Tipos de lateralidade

A lateralidade pode ser identificada de acordo com a preferência apresentada pela pessoa na realização das atividades.

Destro

O destro utiliza preferencialmente o lado direito do corpo, principalmente a mão direita, para executar tarefas que exigem precisão. Uma criança destra, por exemplo, pode escrever com a mão direita e preferir o pé direito para chutar uma bola.

Canhoto

O canhoto apresenta maior habilidade ou preferência pelo lado esquerdo do corpo, especialmente pela mão esquerda. Ser canhoto é uma característica natural. A criança não deve ser obrigada a escrever, comer ou realizar tarefas com a mão direita, pois isso desrespeita sua preferência espontânea.

Ambidestro

O ambidestro consegue realizar determinadas tarefas com habilidade semelhante nos dois lados do corpo. A ambidestria verdadeira é pouco comum. Além disso, uma criança pequena que ainda alterna as mãos durante as atividades não deve ser automaticamente considerada ambidestra, pois sua dominância lateral pode ainda estar em processo de definição.

Lateralidade homogênea

A lateralidade é considerada homogênea quando a preferência pela mão, pelo pé, pelo olho e pelo ouvido ocorre predominantemente do mesmo lado do corpo.

Exemplos:

  • escrever com a mão direita, chutar com o pé direito e mirar com o olho direito;
  • desenhar com a mão esquerda, saltar com impulso do pé esquerdo e observar por um tubo com o olho esquerdo.

Lateralidade cruzada

A lateralidade cruzada ocorre quando as preferências aparecem em lados diferentes do corpo.

Por exemplo, uma criança pode:

  • escrever com a mão direita e chutar com o pé esquerdo;
  • usar a mão esquerda e mirar com o olho direito;
  • lançar com a mão direita e iniciar um salto com o pé esquerdo.

A lateralidade cruzada é uma forma possível de organização lateral e, isoladamente, não deve ser considerada uma doença ou um transtorno. Alguns estudos investigam sua relação com o desempenho em leitura e escrita, mas uma associação estatística não significa que ela seja, por si só, a causa de dificuldades escolares.

Como a lateralidade se desenvolve?

O desenvolvimento da lateralidade não acontece exatamente da mesma maneira ou na mesma idade para todas as crianças. As idades apresentadas a seguir são referências aproximadas, e não regras rígidas.

Dos 2 aos 3 anos

A criança utiliza intensamente os dois lados do corpo e pode alternar as mãos durante uma mesma atividade Nessa fase, começa a demonstrar algumas preferências, mas elas ainda podem ser instáveis. Por exemplo, pode segurar uma colher com a mão direita e, pouco depois, desenhar com a esquerda.

As brincadeiras devem permitir a exploração livre do corpo, sem exigir que a criança escolha um lado.

Dos 4 aos 5 anos

As preferências laterais tornam-se mais perceptíveis. A criança pode começar a escolher com maior frequência uma das mãos para desenhar, lançar objetos ou manipular brinquedos. Ela também amplia o conhecimento sobre o próprio corpo e começa a compreender referências espaciais como em cima, embaixo, na frente, atrás e ao lado.

Ainda podem ocorrer trocas entre direita e esquerda, especialmente quando a criança precisa identificar esses lados no corpo de outra pessoa.

Dos 6 aos 7 anos

A dominância lateral tende a ficar mais estável. A criança geralmente reconhece direita e esquerda no próprio corpo e utiliza essas referências em movimentos, jogos e atividades escolares.

Essa fase coincide com o início da alfabetização, quando a organização espacial se torna importante para acompanhar a direção da leitura e da escrita, organizar elementos no papel e compreender a posição de letras, números e objetos.

Não se deve, entretanto, estabelecer uma idade única para todas as crianças nem forçar a definição de um lado dominante.

Dos 8 aos 9 anos

A criança amplia a capacidade de utilizar as noções de direita e esquerda em situações mais complexas. Ela consegue compreender essas referências no corpo de outra pessoa e aplicá-las ao espaço, mesmo quando há mudanças de posição e de ponto de vista. Pode, por exemplo, seguir trajetos, interpretar orientações, localizar objetos e perceber que a direita de uma pessoa posicionada à sua frente corresponde ao lado oposto ao seu.

O desenvolvimento dessas habilidades continua sendo aperfeiçoado por meio das experiências corporais e espaciais.

Tabela

A importância da lateralidade

O desenvolvimento da lateralidade contribui para que a criança conheça seu corpo e organize seus movimentos no espaço.

Coordenação motora

A lateralidade auxilia na realização de movimentos que exigem a participação coordenada dos dois lados do corpo. Ao recortar um papel, por exemplo, uma mão movimenta a tesoura enquanto a outra segura e orienta o material. Ao chutar uma bola, um pé realiza o chute enquanto o outro sustenta o corpo.

Orientação espacial

O reconhecimento dos lados direito e esquerdo ajuda a criança a compreender direções, posições e trajetos. Essa habilidade é utilizada para seguir comandos, deslocar-se em diferentes ambientes, organizar objetos e participar de jogos e brincadeiras.

Leitura e escrita

A lateralidade integra um conjunto de habilidades psicomotoras relacionadas à aprendizagem da leitura e da escrita. A orientação espacial auxilia a criança a acompanhar a leitura da esquerda para a direita, organizar a escrita na linha e reconhecer a posição dos símbolos gráficos.

Entretanto, inverter letras ou ter dificuldade para diferenciar direita e esquerda durante a infância não permite, isoladamente, concluir que exista um transtorno de aprendizagem. Essas dificuldades devem ser analisadas em conjunto com outros aspectos do desenvolvimento.

Conhecimento corporal

As experiências de lateralidade ajudam a criança a reconhecer as partes do corpo, controlar seus movimentos e perceber como o corpo se relaciona com o ambiente.

Esse conhecimento contribui para a autonomia em ações cotidianas e para a participação em diferentes práticas corporais.

Atividades para desenvolver a lateralidade

As atividades devem estimular a exploração dos dois lados do corpo, sem obrigar a criança a utilizar uma mão ou um pé específico.

1. Siga os comandos

O professor ou responsável apresenta comandos como:

  • levante a mão direita;
  • toque o joelho esquerdo;
  • dê um passo para a direita;
  • pule para o lado esquerdo;
  • encoste a mão direita no pé esquerdo.

Para crianças menores, os comandos podem começar sem a nomeação de direita e esquerda, utilizando expressões como “este lado” e “o outro lado”, acompanhadas de demonstrações.

2. Espelho corporal

As crianças formam duplas e ficam posicionadas uma diante da outra. Uma delas realiza movimentos, enquanto a outra procura imitá-los como se fosse seu reflexo no espelho.

Depois de algum tempo, as funções são trocadas.

A atividade estimula a atenção, o conhecimento corporal e a compreensão de que direita e esquerda mudam de acordo com o ponto de vista.

3. Circuito das direções

Organize um circuito com obstáculos e diferentes comandos:

  • passar por baixo de uma corda;
  • contornar um cone pela direita;
  • saltar para a esquerda;
  • pisar dentro de um círculo;
  • caminhar sobre uma linha;
  • lançar uma bola em um alvo.

O percurso pode ser adaptado conforme a idade e o espaço disponível.

4. Acerte o alvo

Coloque caixas, baldes ou círculos a diferentes distâncias. A criança deve lançar uma bola ou outro objeto leve em direção aos alvos.

Depois de algumas tentativas, ela pode experimentar realizar os lançamentos com a outra mão. O objetivo não é modificar sua dominância, mas proporcionar experiências motoras variadas.

5. Chute alternado

Disponha uma bola diante da criança e peça que ela realize alguns chutes livremente. Em seguida, proponha chutes alternados com o pé direito e o esquerdo.

Também é possível organizar dois alvos, um de cada lado, para que a criança direcione a bola conforme o comando.

6. Caminho colorido

Cole no chão marcas de duas cores diferentes. Uma cor representa o pé direito e a outra, o pé esquerdo.

A criança deve percorrer o caminho posicionando os pés nas marcas correspondentes. Para os menores, podem ser usados desenhos ou moldes de pés no lugar das palavras “direita” e “esquerda”.

7. Desenho com as duas mãos

Entregue uma folha grande e dois lápis de cores diferentes. A criança deve desenhar livremente utilizando as duas mãos ao mesmo tempo.

Também pode fazer círculos, linhas e caminhos, observando como cada mão se movimenta. Essa atividade favorece a coordenação bilateral e não tem a finalidade de ensinar a criança a escrever com as duas mãos.

8. Dança das direções

Durante uma música, o professor apresenta comandos como:

  • dois passos para a direita;
  • dois passos para a esquerda;
  • levantar o braço direito;
  • girar para um lado;
  • tocar o pé esquerdo.

Veja também: Atividades sobre lateralidade (prontas para imprimir)

Referências Bibliográficas

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: Base Nacional Comum Curricular. Acesso em: 5 ago. 2026.

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LE BOULCH, Jean. Educação psicomotora: a psicocinética na idade escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.

ROSA NETO, Francisco et al. A lateralidade cruzada e o desempenho da leitura e escrita em escolares. Revista CEFAC, São Paulo, v. 15, n. 4, p. 864–872, 2013. Disponível em: SciELO. Acesso em: 5 ago. 2026.

VIEIRA, Lenamar Fiorese; CAVALLI, Marlene Gesualdo. Estudo da lateralidade em pré-escolares de 4 a 6 anos da Escola Benedito de Souza da Rede Municipal de Ensino de Maringá–PR. Revista da Educação Física/UEM, Maringá, v. 8, n. 1, p. 85–90, 1997.

Juliana Carpi
Juliana Carpi
Professora de Educação Física (licenciatura e bacharel), graduada em Pedagogia, com pós-graduação em Educação Física Escolar e mestrado em andamento na área.

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