Resumo e Análise de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Daniela Diana

Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma obra do escritor brasileiro Machado de Assis. Ela foi publicada em 1881 e inaugurou o movimento realista no Brasil.

Dividida em 160 capítulos intitulados, o narrador é um defunto chamado Brás Cubas.

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas

Resumo da Obra

A obra tem início com a declaração da morte de Brás Cubas, cujo narrador e protagonista relata suas memórias depois de ter sido vítima de pneumonia.

Pertencente a uma família abastada do século XIX, Brás Cubas narra primeiramente sua morte e enterro onde apareceram onze amigos.

Por conseguinte, ele relata diversos momentos de sua vida, desde eventos da sua infância, adolescência e fase adulta.

Ainda no início da obra ele revela suas expectativas com o “emplastro”, um medicamento que contém grande potencial de cura.

Durante sua infância Brás Cubas comenta sua relação com seu escravo, o negrinho Prudêncio. Como um menino aristocrata, pertencente à classe alta, Brás Cubas esboça a relação que tinha com o garoto desde suas brincadeiras e caprichos.

Nessa relação, podemos notar a superioridade de Brás que montava no negrinho. Além disso, ele escreve sobre um amigo da escola Quincas Borba que, por fim, torna-se um filósofo e desenvolve a teoria do humanitismo.

Quando jovem, conhece Marcela, uma prostituta de luxo por quem se apaixona. Essa relação esteve baseada nos interesses, ainda que Cubas aponta que Marcela o amou “durante quinze meses e onze contos de réis”.

Preocupado com o envolvimento que Brás tinha com Marcela, seu pai resolve que seu filho deve estudar fora do país por um tempo.

Sendo assim, ele foi estudar em Coimbra, Portugal, onde se forma em Direito. De volta ao Brasil, apaixona-se por Virgília, no entanto, ela acaba por se casar com Lobo Leves. Isso porque ela pretedia ter mais status e resolve ficar com um político de maior influência.

Ainda que desolado, o casal se encontra às escondidas numa casa alugada para esse própósito. Nesse momento podemos notar a presença de Dona PLácida, empregada de Virgília e que encobre todos os encontros da adúltera.

Por fim, Brás Cubas entra para a política e mesmo desenvolvendo um trabalho medíocre essa posição lhe oferece certo “status”, num mundo onde a aparência era o mais louvável.

Personagens

  • Brás Cubas: protagonista da história e o narrador, considerado o “defunto-autor”.
  • Virgília: filha do conselheiro Dutra e amante de Brás Cubas.
  • Conselheiro Dutra: político e pai de Virgília.
  • Lobo Neves: político e esposo de Virgília.
  • Sabina: irmã de Brás Cubas, casada com Cotrim.
  • Cotrim: marido de Sabina e tio de Nhã-Loló.
  • Nhã-Loló: sobrinha de Cotrim e pretendente de Brás Cubas.
  • Luís Dutra: primo de Virgília.
  • Dona Plácida: empregada de Virgília e álibi da relação de Virgília com Brás Cubas.
  • Quincas Borba: filósofo, mendigo e amigo de infância de Brás Cubas.
  • Marcela: prostituta e paixão da juventude de Brás Cubas.
  • D. Eusébia: amiga da família de Brás Cubas.
  • Eugênia: mulher manca e filha de D. Eusébia.
  • Prudêncio: escravo de Brás Cubas.

Análise da Obra

Narrado em primeira pessoa, o romance apresenta um narrador-observador, considerado o “defunto-autor”. Em diversos momentos Machado optou pelo recurso da interlocução, onde ela fala diretamente com o leitor da obra.

"A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus."

O tempo pode ser dividido em cronológico e psicológico. O primeiro é desenvolvido pela ocorrência dos fatos na vida de Brás Cubas, ou seja, de maneira linear. Já o segundo, pertence às memórias e divagações do autor durante seu relato.

No tocante ao espaço, podemos citar o Rio de Janeiro, Coimbra e ainda, um local mais específico, Gamboa. Esse último é um bairro da cidade do Rio de Janeiro, onde ele teve seus encontros com Virgília.

Repleto de ironias, metáforas e eufemismos, Machado conseguiu representar nessa obra diversas críticas sociais, inclusive à elite da época.

Além disso, teve como característica marcante a mudança no enredo linear com começo, meio o fim. Foi com essa mescla de tempo, que o escritor marcou uma nova fase literária.

Ainda que tenha sido inovador nesse aspecto, devemos salientar que a obra termina com um capítulo em que Brás Cubas resume tudo que foi negativo na sua vida.

Assim, sobre esse prisma, podemos afirmar que o livro foge dos padrões clássicos, associados com um final feliz e ainda, com a linearidade dos fatos.

Os personagens que compõem a obra são majoritariamente da elite brasileira. Por outro lado, Machado inclui figuras de menor prestígio social, como Prudência, Dona Plácida e a prostituta Marcela.

Curioso notar que uma vez que o narrador está morto e vivendo num outro plano, Brás não se preocupa com a moralidade. Dessa forma, seu desprendimento moral bem como material é revelado em seu discurso irônico e despreocupado.

Confira a obra na íntegra, fazendo o download do PDF aqui: Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Trechos da Obra

Capítulo 1 – Óbito do Autor

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.”

Capítulo 62 – O travesseiro

Fui ter com Virgília; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgília era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali que ele costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem pesadas as coisas, não era outra a razão da existência de Virgília; não podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação mútua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrófula da vida, andrajo do passado, que me importa que exista, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?

Capítulo 160 – Das negativas

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

Leia também:

Filme

Lançado em 2001 o filme "Memórias Póstumas de Brás Cubas" é uma comédia dramática baseado na obra de Machado. Dirigido por André Klotzel, o longa metragem foi premiado no Festival de Gramado.

Caiu no Enem!

(Enem-2001)

No trecho abaixo, o narrador, ao descrever a personagem, critica sutilmente um outro estilo de época: o romantismo.

“Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação.”
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Jackson,1957.

A frase do texto em que se percebe a crítica do narrador ao romantismo está transcrita na alternativa:

a) “... o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas ...”
b) “... era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça ...”
c) “Era bonita, fresca, saía das mãos da na­tureza, cheia daquele feitiço, precário e eter­no, ...”
d) “Naquele tempo contava apenas uns quin­ze ou dezesseis anos ...”
e) “... o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação.”

Alternativa a: “... o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas ...”

Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.