Só sei que nada sei

Pedro Menezes

A célebre frase atribuída a Sócrates gera um intenso debate e levanta muita curiosidade acerca de seu significado. Como Sócrates não deixou escritos, é impossível precisar se o filósofo proferiu, realmente, essa frase.

É certo que “só sei que nada sei” vai ao encontro de sua filosofia. A frase, compreendida como algo bom, resume da importância dada por ele ao pensamento crítico, à incerteza e à tomada de consciência da própria ignorância.

Saber que não sabe não é um “defeito”, mas a base para o abandono da opinião (doxa) e a busca pelo conhecimento verdadeiro (epistéme), objetivo da filosofia.

Por que a tomada de consciência da ignorância é importante na busca pelo conhecimento?

Para Sócrates, o conhecimento verdadeiro surgia do abandono do senso comum e da opinião. O caráter particular das opiniões se opõem a universalidade do conhecimento.

Assim, todo aquele que sustenta conhecimento em opiniões, se satisfaz como um falso saber e se afasta da verdade. O filósofo compreende que é necessário questionar as certezas, as opiniões e os pré-conceitos.

Assim, criou um modo baseado em perguntas críticas que expõem as incoerências da doxa, fazendo com que as falsas certezas sejam abandonadas e haja a tomada de consciência do "não-saber", da própria ignorância.

A partir dessa conscientização, o indivíduo está pronto para buscar, em si mesmo, novas respostas que o conduzirá à verdade. Esse movimento foi chamado de "método socrático".

No método socrático, a ironia é responsável pela tomada de consciência da própria ignorância e a maiêutica (parto da ideia) é a busca pelo conceito, ou pela verdade.

Assim, a frase "só sei que nada sei" representa uma sabedoria semelhante à alcançada após o primeiro movimento do método socrático (a ironia). Para o filósofo, saber que não se sabe é preferível a saber mal.

Ainda que seja pouca coisa: não acredito saber aquilo que não sei.

(Platão, Apologia de Sócrates)

Qual a história por trás da frase “só sei que nada sei”?

A frase é uma resposta de Sócrates à mensagem do oráculo de Apolo dada a seu amigo Querofonte em Delfos, que afirmou que ele era o mais sábio entre os homens gregos.

O filósofo teria questionado essa condição de mais sábio, quando na sociedade grega, havia diversas autoridades reconhecidas por seus saberes.

Assim, devotou sua vida a investigar o que era ser sábio e o verdadeiro conhecimento. Para isso, questionou as autoridades gregas e demonstrou que o que era compreendido como sabedoria, não passava de meras opiniões sustentadas pelo senso comum.

Esse comportamento de Sócrates, rendeu-lhe inimigos entre os poderosos de Atenas, muitas vezes expostos ao ridículo pela ironia socrática.

O descontentamento e o repúdio à figura de Sócrates nos meios mais influentes da política ateniense culminou em seu julgamento e condenação à morte. Após sua sentença ser definida, o filósofo inda deixa mais uma lição:

Mas eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses.
(Platão, Apologia de Sócrates)

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Pedro Menezes
Pedro Menezes
Licenciado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestrando em Ciências da Educação pela Universidade do Porto (FPCEUP).