Exercícios sobre a obra Iracema (para o ENEM e com gabarito)

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Português e Literatura

Confira a seguir os exercícios comentados sobre a obra Iracema, de José de Alencar.

Leia o trecho a seguir para responder às questões 1 e 2.

Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.

Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?

Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano?

Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora;

Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.

A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:

— Iracema!...

ALENCAR, José. Iracema.

Questão 1

No trecho de abertura de Iracema, o narrador utiliza construções como “Serenai verdes mares”, “vaga impetuosa” e “como branca alcíone buscando o rochedo pátrio”. O uso desses recursos contribui para uma linguagem romântica porque

a) privilegia descrições científicas e objetivas do ambiente natural.

b) reduz o espaço natural a uma função exclusivamente narrativa.

c) constrói efeitos de musicalidade, imagens poéticas e idealização da paisagem.

d) substitui recursos figurativos por descrições documentais da realidade.

e) elimina a subjetividade em favor da precisão histórica.

Gabarito explicado

A abertura de Iracema apresenta uma linguagem altamente elaborada, marcada por imagens poéticas, metáforas, comparações e musicalidade. A natureza não é apenas cenário: ela participa ativamente da narrativa, sendo personificada e idealizada.

O estudante precisa perceber que José de Alencar aproxima a prosa da poesia, recurso recorrente do Romantismo, especialmente em obras indianistas. A escolha vocabular sofisticada e imagética ajuda a criar uma atmosfera mítica e grandiosa desde o início do romance.

Questão 2

Ao iniciar o romance apresentando elementos naturais brasileiros, referências ao guerreiro e à terra americana, o trecho evidencia um projeto literário voltado para

a) representar conflitos urbanos ligados à modernização brasileira.

b) construir uma narrativa nacional pela valorização simbólica da natividade.

c) substituir temas nacionais por referências exclusivamente europeias.

d) priorizar acontecimentos históricos documentais em detrimento da ficção.

e) rejeitar a idealização característica do Romantismo.

Gabarito explicado

O primeiro capítulo já apresenta elementos centrais do projeto indianista de José de Alencar: natureza exuberante, valorização do espaço brasileiro e construção simbólica do indígena como elemento fundador da nacionalidade. O trecho funciona como porta de entrada para um romance que pretende criar uma narrativa de origem nacional, articulando paisagem, mito e identidade brasileira.

A questão exige que o estudante reconheça como a abertura da obra já antecipa os objetivos maiores do romance dentro do Romantismo brasileiro.

Leia o trecho a seguir para responder às próximas questões.

Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara. O grande Irapuã, primeiro, assoma entre as árvores. Seu olhar rúbido viu o guerreiro branco entre nuvens de sangue; o grito rouco do tigre rompe de seu peito cavernoso. O chefe tabajara e seu povo vão se precipitar sobre os fugitivos, como a vaga encapelada que arrebenta no Mocoribe. Eis late o cão selvagem. Poti solta o grito da alegria: — O cão de Poti guia os guerreiros de sua taba em socorro teu.

ALENCAR, José. Iracema.

Questão 3

No fragmento, observam-se períodos curtos, ritmo acelerado da narração e vocábulos ligados ao universo indígena, como “tabajara”, “taba” e “Irapuã”. Essas escolhas linguísticas relacionam-se ao projeto literário de José de Alencar porque

a) aproximam a narrativa dos modelos clássicos portugueses, priorizando estruturas sintáticas longas e vocabulário erudito.

b) constroem uma experiência linguística nacional, incorporando ritmos próprios e elementos lexicais associados ao espaço brasileiro.

c) eliminam marcas regionais e culturais para universalizar os acontecimentos narrados.

d) substituem recursos literários por uma linguagem documental voltada ao rigor histórico.

e) rejeitam influências indígenas para aproximar a narrativa dos romances europeus tradicionais.

Gabarito explicado

Em Iracema, José de Alencar não busca apenas narrar uma história brasileira; procura também construir uma forma brasileira de narrar. Os períodos mais curtos produzem dinamismo, oralidade e intensidade narrativa, especialmente em cenas de perseguição e conflito, afastando-se parcialmente da sintaxe longa e rebuscada associada à tradição portuguesa. Além disso, o uso recorrente de vocábulos de origem indígena — nomes de povos, personagens, espaços e costumes — participa da tentativa de nacionalizar a língua literária.

Essas escolhas revelam um projeto romântico mais amplo: criar uma literatura capaz de representar o Brasil também em sua expressão linguística, transformando a linguagem em componente central da identidade nacional.

Questão 4

No trecho, a sucessão de orações breves, verbos de ação e expressões como “rompe”, “precipitar” e “late” contribui para a construção de uma linguagem que

a) desacelera o ritmo narrativo para privilegiar descrições detalhadas do ambiente.

b) enfatiza a introspecção psicológica das personagens por meio de construções reflexivas.

c) produz dinamismo e intensidade, aproximando o leitor da ação narrada e da oralidade épica.

d) reduz a participação dos elementos naturais na construção dos acontecimentos.

e) aproxima a narrativa de textos científicos pela predominância de informações objetivas.

Gabarito explicado

A estrutura sintática do fragmento contribui diretamente para o ritmo da narrativa. Os períodos curtos e as ações sucessivas aceleram a leitura e criam sensação de urgência, acompanhando o contexto de perseguição e combate. Além disso, a repetição de construções breves aproxima o texto da oralidade e reforça o caráter épico que José de Alencar procura atribuir ao romance indianista. Assim, linguagem e ação tornam-se elementos inseparáveis: a forma do texto ajuda a construir tensão dramática e participa do projeto de elaboração de uma expressão literária associada ao espaço brasileiro.

Leia o trecho a seguir para responder às questões 5 e 6.

Iracema cuidou que o seio rompia-se; e buscou a margem do rio, onde crescia o coqueiro.

Estreitou-se com a haste da palmeira. A dor lacerou suas entranhas; porém logo o choro infantil inundou todo o seu ser de júbilo.

A jovem mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos braços e com ele arrojou-se às águas límpidas do rio. Depois suspendeu-o à teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e amor.

— Tu és Moacir, o nascido de meu sofrimento.

A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacir; e desde então a ave amiga em seu canto unia ao nome da mãe, o nome do filho.

O inocente dormia; Iracema suspirava:

— A jati fabrica o mel no tronco cheiroso do sassafrás; toda a lua das flores voa de ramo em ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas ela não prova sua doçura, porque a irara devora em uma noite toda a colmeia. Tua mãe também, filho de minha angústia, não beberá em teus lábios o mel do sorriso.

ALENCAR, José. Iracema.

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Questão 5

No fragmento, o nascimento de Moacir ocorre em meio a imagens de dor, maternidade e integração entre elementos indígenas e europeus. Considerando o projeto literário de José de Alencar, esse episódio permite compreender criticamente o romance histórico porque

a) apresenta a colonização como processo exclusivamente violento, recusando construções simbólicas sobre a origem nacional.

b) transforma a experiência colonial em narrativa idealizada, suavizando conflitos históricos por meio da valorização simbólica da união entre diferentes grupos.

c) elimina referências históricas para construir uma narrativa puramente fantástica.

d) substitui o processo de formação nacional por conflitos exclusivamente individuais.

e) apresenta uma reconstrução documental e objetiva das relações entre colonizadores e povos indígenas.

Gabarito explicado

Iracema participa do projeto romântico de construção de narrativas fundadoras da nacionalidade. Nesse contexto, a relação entre Martim e Iracema funciona como metáfora da formação brasileira. Entretanto, uma leitura crítica permite perceber que essa construção romantiza o processo colonial ao privilegiar harmonia, amor e integração simbólica, reduzindo conflitos históricos ligados à violência da colonização, às disputas territoriais e à destruição de culturas indígenas. Assim, o romance histórico de Alencar não pretende reconstruir fielmente o passado, mas produzir um mito nacional marcado pela idealização característica do Romantismo.

Questão 6

Ao nomear o filho como “Moacir, o nascido de meu sofrimento”, o texto atribui à personagem uma dimensão simbólica que ultrapassa sua função narrativa. Nesse contexto, Moacir pode ser interpretado como metáfora

a) do fracasso das relações entre culturas distintas durante o período colonial.

b) da permanência exclusiva das tradições indígenas na formação do território brasileiro.

c) da construção simbólica de uma nacionalidade nascida da tensão entre culturas distintas.

d) do abandono definitivo da cultura indígena em favor da tradição europeia ibérica.

e) da defesa de uma identidade nacional homogênea e sem conflitos.

Gabarito explicado

Moacir ocupa posição central na dimensão simbólica do romance. Seu nascimento representa, metaforicamente, o surgimento de uma nova sociedade resultante do contato entre indígenas e europeus. Entretanto, o próprio significado atribuído ao personagem — “nascido do sofrimento” — introduz ambiguidades importantes: a formação nacional não surge apenas da união amorosa idealizada, mas também da perda, do deslocamento e do sofrimento indígena. Essa dupla dimensão permite leituras mais críticas da obra, mostrando que o personagem funciona simultaneamente como símbolo de origem nacional e como marca das tensões presentes nesse processo histórico.

Questão 7

A primeiro delas, de Alfredo Bosi, em ensaio dedicado na verdade a O guarani, acaba por estender o mesmo complexo sacrificial reconhecido no romance de 1857 para a "doce escravidão" dʼIracema (no dizer de Machado de Assis). De acordo com o crítico e historiador, tal mito sacrificial, tomado no sentido da imolação voluntária do índio ao branco, tendeu, com sérias implicações ideológicas, à abstração da violência do processo de colonização e legitimação da posse do continente pelo europeu: "[...] o risco do sofrimento e morte é aceito pelo selvagem sem qualquer hesitação, como se sua atitude devota para com o branco representasse o cumprimento dum destino, que Alencar apresenta em termos heróicos e idílicos"

CAMILO, Vagner. Mito e história em Iracema: a recepção crítica mais recente. Novos estud. CEBRAP (78). Jul. 2007. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000200014.

Considerando a interpretação crítica apresentada no fragmento e o projeto indianista de Iracema, a trajetória da protagonista pode ser compreendida como expressão de um processo literário que

a) rompe completamente com narrativas nacionalistas ao enfatizar os conflitos materiais da colonização.

b) transforma a violência histórica da colonização em narrativa simbólica harmonizadora, convertendo perdas e apagamentos em gesto heroico e sacrificial.

c) constrói representação histórica objetiva das relações entre indígenas e europeus, recusando idealizações românticas.

d) apresenta a personagem indígena como sujeito politicamente autônomo, desvinculado das transformações impostas pelo processo colonial.

e) rejeita a construção de mitos nacionais ao privilegiar experiências individuais e psicológicas.

Gabarito explicado

A questão exige que o estudante ultrapasse a leitura tradicional de Iracema como simples romance de formação nacional.

A crítica apresentada problematiza o chamado “mito sacrificial”: Iracema aceita progressivamente perdas afetivas, culturais e existenciais, enquanto sua trajetória é narrada sob forte idealização poética. Nesse sentido, o romance indianista transforma o sofrimento indígena em fundamento simbólico da nacionalidade.

Uma leitura crítica permite perceber que esse procedimento possui implicações ideológicas importantes: ao converter violência colonial em narrativa heroica, amorosa e sacrificial, o texto tende a suavizar relações históricas marcadas por conflito, expropriação e assimetria de poder.

O desafio da questão está justamente em articular projeto romântico, construção mítica e crítica historiográfica da colonização.

Saiba mais em: Iracema.

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Língua Portuguesa e Literatura formado pela Universidade de São Paulo (USP) e graduando na área de Pedagogia (FE-USP). Atua, desde 2017, dentro da sala de aula e na produção de materiais didáticos.