Exercícios sobre O Cortiço (para o ENEM e com gabarito)

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Português e Literatura

Confira a seguir as questões comentadas sobre O cortiço, obra de Aluísio de Azevedo.

Leia o texto a seguir para responder às questões 1 e 2.

João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.

Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço.

Questão 1

No fragmento, João Romão é apresentado por meio de descrições relacionadas ao trabalho excessivo, às privações cotidianas e ao desejo intenso de enriquecimento. Essa construção da personagem aproxima-se da estética naturalista porque

a) valoriza a idealização do protagonista como herói romântico movido por princípios morais elevados.

b) enfatiza a observação objetiva dos comportamentos humanos, associando ações individuais a impulsos materiais e sociais.

c) privilegia a subjetividade da personagem, explorando conflitos emocionais e idealizações amorosas.

d) constrói uma narrativa fantástica, priorizando acontecimentos extraordinários e sobrenaturais.

e) apresenta a trajetória individual como consequência exclusiva das escolhas pessoais e da liberdade humana.

Gabarito explicado

O fragmento constrói João Romão a partir de uma perspectiva característica do Naturalismo: o comportamento humano é observado quase como objeto de estudo.

O narrador enfatiza hábitos, rotina, relação com o trabalho e obsessão pelo enriquecimento, apresentando a personagem como alguém movido por impulsos materiais e condicionado pelo meio social e econômico. A descrição de sua rotina — dormir sobre o balcão, aceitar privações e dedicar-se obsessivamente ao trabalho — reforça essa abordagem determinista e cientificista típica do movimento.

Distratores como a alternativa A podem atrair estudantes que associam ascensão social ao heroísmo, mas o texto evita idealizações e privilegia uma observação quase experimental do comportamento.

Questão 2

Ao apresentar João Romão e Bertoleza, o narrador estabelece relações sociais marcadas pelo trabalho, pela exploração e pelas desigualdades. Nesse contexto, o fragmento evidencia uma sociedade caracterizada pela

a) valorização das relações igualitárias entre diferentes grupos sociais e econômicos.

b) organização das relações humanas a partir de vínculos afetivos acima dos interesses materiais.

c) construção das relações sociais por meio de hierarquias econômicas e mecanismos de exploração do trabalho.

d) substituição das tensões sociais por oportunidades amplas de mobilidade econômica.

e) predominância da solidariedade coletiva como princípio organizador das relações sociais.

Gabarito explicado

O trecho revela uma estrutura social profundamente desigual. Enquanto João Romão constrói sua ascensão econômica baseada em privações extremas e lógica acumulativa, Bertoleza é apresentada já marcada por condições de vulnerabilidade: mulher negra, escravizada e inserida em relações econômicas precárias. O Naturalismo frequentemente expõe essas relações de forma crua, destacando como fatores econômicos organizam vínculos humanos.

A questão exige que o estudante perceba que o romance não descreve apenas indivíduos isolados, mas mecanismos sociais maiores, nos quais trabalho, exploração e hierarquia estruturam a vida cotidiana. Distratores ligados à afetividade ou igualdade social entram em choque com o caráter crítico do fragmento.

Leia o texto a seguir para responder às questões 3 e 4.

Ele não insistiu. Agasalhou-se de novo e pediu água. Piedade foi buscar o parati.

— Bebe isto, não bebas a água agora.

— Isto é cachaça!

— Foi a Rita que disse para te dar...

Jerônimo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos de restilo que havia no copo.

Sóbrio como era, e depois daquele dispêndio de suor, o álcool produziu-lhe logo de pronto o efeito voluptuoso e agradável da embriaguez nos que não são bêbedos: um delicioso desfalecer de todo o corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede à satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ela algum tempo, aproxima-se afinal de nós, numa avidez gulosa de beijos. Agora, no conforto da sua cama, na doce penumbra do quarto, com a roupa fresca sobre a pele, Jerônimo sentia-se bem, feliz por ver-se longe da pedreira ardente e do sol cáustico; ouvindo, de olhos fechados, o ronrom monótono da máquina de massas, arfando ao longe, e o zunzum das lavadeiras a trabalharem, e, mais distante, um interminável cantar de galos a porfia, enquanto um dobre de sinos rolava no ar, tristemente, anunciando um defunto da paróquia.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço.

Questão 3

No fragmento, Jerônimo aparece progressivamente afetado pelo clima, pelos hábitos locais, pelas sensações corporais e pelos sons do ambiente ao seu redor. Essa transformação da personagem relaciona-se à perspectiva determinista presente no Naturalismo porque

a) apresenta a identidade individual como resultado exclusivo das escolhas conscientes realizadas pela personagem.

b) representa a adaptação cultural como fenômeno espontâneo e desvinculado das condições materiais.

c) associa as mudanças comportamentais da personagem à influência exercida pelo meio físico e social em que está inserida.

d) constrói a trajetória da personagem como processo guiado principalmente por valores religiosos e espirituais.

e) enfatiza a permanência das características originais da personagem diante das mudanças ambientais.

Gabarito explicado

O fragmento evidencia um processo frequentemente interpretado como “abrasileiramento” de Jerônimo: o português disciplinado, racional e rígido passa gradualmente a ser representado como alguém transformado pelo calor, pelos costumes locais, pela sensualidade, pelo álcool e pela dinâmica coletiva do cortiço.

Essa construção dialoga diretamente com o determinismo naturalista, segundo o qual o meio exerce influência decisiva sobre os indivíduos. O trecho reforça essa lógica ao destacar sensações físicas, ambiente sonoro, clima e prazer corporal como forças modeladoras da personagem.

A questão exige que o estudante reconheça que, no Naturalismo, o indivíduo frequentemente aparece condicionado pelo espaço social e físico, e não entendido como sujeito plenamente autônomo.

Questão 4

A descrição das transformações vividas por Jerônimo pode ser relacionada às influências cientificistas presentes na literatura naturalista do século XIX. Uma leitura crítica desse procedimento permite afirmar que o fragmento

a) apresenta o comportamento humano como fenômeno complexo, recusando explicações baseadas em relações de causa e efeito.

b) constrói a transformação da personagem por meio de explicações que tendem a reduzir comportamentos humanos à ação do meio e da hereditariedade.

c) valoriza a subjetividade individual, rejeitando interpretações apoiadas em teorias científicas da época.

d) rompe completamente com perspectivas deterministas ao privilegiar experiências espirituais e metafísicas.

e) substitui questões sociais por análises exclusivamente psicológicas das personagens.

Gabarito explicado

O Naturalismo foi profundamente influenciado pelas correntes cientificistas do século XIX, incluindo o determinismo, o evolucionismo social e perspectivas associadas ao pensamento positivista. No caso de Jerônimo, o texto sugere que clima, ambiente, hábitos e convivência social produzem mudanças previsíveis em seu comportamento.

Uma leitura crítica dessa construção permite perceber seus limites: ao buscar explicações “científicas” para o comportamento humano, o Naturalismo frequentemente simplifica experiências complexas e reduz indivíduos a produtos do meio, da raça ou da hereditariedade. Assim, a questão não pede apenas reconhecer o cientificismo na obra, mas também compreender criticamente como essas teorias influenciaram representações literárias e sociais do período.

Leia o trecho a seguir para responder às questões 5 e 6.

— É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los. — Prendam-na! É escrava minha!

A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.

Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado.

E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.

João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço.

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Questão 5

O episódio narrado no fragmento ocupa posição central na organização do enredo de O cortiço porque representa o momento em que

a) as tensões construídas ao longo da narrativa atingem seu ápice, expondo as consequências das relações de exploração estabelecidas entre as personagens.

b) os conflitos sociais apresentados anteriormente são resolvidos por meio da reconciliação entre as personagens envolvidas.

c) a narrativa abandona os conflitos individuais para concentrar-se exclusivamente na descrição do espaço urbano.

d) os acontecimentos anteriores perdem relevância diante da introdução de um conflito inteiramente novo.

e) as personagens secundárias assumem protagonismo e deslocam o foco narrativo da obra.

Gabarito explicado

O trecho constitui um dos momentos culminantes do romance, pois concentra conflitos que vinham sendo construídos desde o início da narrativa: exploração econômica, desigualdade racial, relações utilitárias e ascensão social baseada no aproveitamento do trabalho alheio. O suicídio de Bertoleza funciona como ponto máximo dessa tensão narrativa, tornando explícitas as consequências humanas do projeto de enriquecimento de João Romão.

A questão exige que o estudante reconheça como o enredo se estrutura por acumulação de conflitos que convergem para esse episódio decisivo, característico do clímax narrativo.

Questão 6

A reação de Bertoleza diante da tentativa de captura e devolução à condição de escravizada contribui para construir um desfecho que evidencia

a) a valorização da mobilidade social como mecanismo de superação das desigualdades.

b) a denúncia das relações de exploração e violência que estruturam a trajetória das personagens socialmente marginalizadas.

c) a substituição dos conflitos econômicos por conflitos exclusivamente familiares.

d) a consolidação das relações afetivas como elemento organizador das ações das personagens.

e) a resolução harmoniosa das tensões acumuladas ao longo da narrativa.

Gabarito explicado

O desfecho de Bertoleza possui forte dimensão crítica dentro do enredo. Sua morte não aparece como evento isolado, mas como consequência extrema de relações marcadas por exploração econômica, racial e social. Ao ser traída por João Romão justamente quando ele alcança ascensão social, Bertoleza torna-se símbolo das contradições dessa trajetória.

O episódio revela como o progresso individual do protagonista dependeu da instrumentalização de outras pessoas, especialmente da personagem negra e escravizada. Assim, o encerramento da trajetória de Bertoleza transforma o desfecho em denúncia social, ampliando o alcance crítico do romance.

Leia o trecho a seguir para responder às questões 7 e 8.

Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois anos de casada já não podia suportar o marido; todavia, a principio, para conservar-se mulher honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espírito, os gostos rasos e a sua risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouviu-lhe, resignada, as confidências banais nas horas intimas do matrimônio; atendeu-o nas suas exigências mesquinhas de ciumento que chora; tratou-o com toda a solicitude, quando ele esteve a decidir com uma pneumonite aguda; procurou afinar em tudo com o pobre rapaz; não lhe falou nunca em coisas que cheirassem a luxo, a arte, a estética, a originalidade; escondeu a sua mal-educada e natural intuição pelo que é grande, ou belo, ou arrojado, e fingiu ligar interesse ao que ele fazia, ao que ele dizia, ao que ele ganhava, ao que ele pensava e ao que ele conseguia com paciência na sua vida estreita de negociante rotineiro; mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilíbrio e a mísera escorregou, caindo nos braços de um boêmio de talento, libertino e poeta, jogador e capoeira. O marido não deu logo pela coisa, mas começou a estranhar a mulher, a desconfiar dela e a espreitá-la, até que um belo dia, seguindo-a na rua sem ser visto, o desgraçado teve a dura certeza de que era traído pela esposa, não mais com o poeta libertino, mas com um artista dramático que muitas vezes lhe arrancara, a ele, sinceras lágrimas de comoção, declamando no teatro em honra da moral triunfante e estigmatizando o adultério com a retórica mais veemente e indignada.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço.

Questão 7

No fragmento, o narrador apresenta a transformação vivida por Pombinha após o casamento, destacando mudanças em seus comportamentos, desejos e relações sociais. Considerando sua trajetória ao longo do romance, essa transformação evidencia

a) a manutenção dos valores tradicionais femininos como elemento central da construção da personagem.

b) a construção de uma personagem estática, incapaz de modificar seus comportamentos ao longo da narrativa.

c) a ruptura entre expectativas sociais impostas às mulheres e os desejos individuais construídos pela personagem.

d) a valorização do casamento como espaço privilegiado de realização intelectual e afetiva feminina.

e) a reafirmação da submissão feminina como solução para os conflitos pessoais vividos pela personagem.

Gabarito explicado

A trajetória de Pombinha é construída como um processo de transformação progressiva. Inicialmente associada à imagem de pureza, educação e expectativa de ascensão social, a personagem rompe gradualmente com o papel feminino esperado para sua época. O casamento frustrado, a insatisfação intelectual e afetiva e suas experiências posteriores conduzem essa mudança.

A questão exige perceber que o romance trabalha a personagem a partir de tensões entre normas sociais e desejos individuais. Ao longo da narrativa, Pombinha deixa de ocupar o espaço de modelo feminino idealizado e passa a representar deslocamentos e rupturas dentro da ordem social do cortiço.

Questão 8

A transformação de Pombinha ao longo da narrativa pode ser relacionada às concepções deterministas presentes no Naturalismo porque o fragmento sugere que

a) os comportamentos humanos resultam exclusivamente de decisões racionais tomadas livremente pelos indivíduos.

b) as mudanças pessoais decorrem principalmente de influências sociais e ambientais que atuam sobre as personagens.

c) as relações amorosas aparecem desvinculadas das condições materiais e sociais apresentadas pela narrativa.

d) os indivíduos permanecem imunes às pressões do meio em que vivem.

e) as trajetórias humanas são explicadas prioritariamente por princípios religiosos e morais.

Gabarito explicado

A lógica determinista do Naturalismo aparece na ideia de que o comportamento humano é condicionado por fatores externos, como meio social, ambiente, relações interpessoais e impulsos considerados naturais.

No caso de Pombinha, sua transformação não é apresentada apenas como escolha individual, mas como consequência de experiências acumuladas: casamento frustrante, contato com novos círculos sociais, desejos reprimidos e influência do ambiente em que vive.

A questão mobiliza uma leitura crítica do Naturalismo, pois evidencia como o romance frequentemente interpreta mudanças humanas a partir de relações de causa e efeito, aproximando-se das teorias cientificistas do século XIX.

Saiba mais em: O Cortiço.

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Língua Portuguesa e Literatura formado pela Universidade de São Paulo (USP) e graduando na área de Pedagogia (FE-USP). Atua, desde 2017, dentro da sala de aula e na produção de materiais didáticos.