O que é kendo: história, equipamentos e regras da arte marcial japonesa

Juliana Carpi
Juliana Carpi
Professora de Educação Física

Kendo é uma arte marcial japonesa em que os praticantes utilizam uma espada de bambu e equipamentos de proteção para realizar movimentos de ataque e defesa. Seu nome significa “caminho da espada”.

Também escrito como kendô, reúne técnicas de combate, concentração, disciplina e respeito. Sua prática envolve aprender movimentos, compreender o momento de agir e cuidar da relação com o adversário.

O kendo se desenvolveu a partir das tradições japonesas de manejo da espada. Atualmente, combina treinamento corporal, formação pessoal e competições com regras próprias.

Neste conteúdo você encontra:

duas moças prontas para praticar kendo
Ilustração criada por IA.

História do kendo

As raízes do kendo estão no kenjutsu, conjunto de técnicas de espada desenvolvido em diferentes escolas japonesas e praticado pelos samurais.

Durante o período Edo, entre 1603 e 1868, essas práticas passaram por transformações. Além da preparação para o combate, ganharam importância os ensinamentos relacionados à conduta e ao aperfeiçoamento pessoal.

No século XVIII, o desenvolvimento das espadas de bambu e das proteções corporais possibilitou treinos com contato mais controlado. Esses recursos contribuíram para a formação do kendo moderno.

Alguns marcos dessa trajetória são:

  • 1912: organização de formas padronizadas de treinamento, que deram origem ao atual Nihon Kendo Kata.
  • 1952: criação da Federação Japonesa de Kendo, em um contexto de retomada da prática após as restrições do pós-guerra.
  • 1970: fundação da Federação Internacional de Kendo e realização do primeiro Campeonato Mundial, no Japão.

No Brasil, o kendo foi difundido pela imigração japonesa, no início do século XX. A prática se desenvolveu em associações e locais de treinamento. Em 1998, foi fundada a Confederação Brasileira de Kendo (CBK).

Equipamentos

Os equipamentos permitem praticar com maior proteção e fazem parte da tradição da modalidade.

Kendo

O conjunto de proteções é chamado de bōgu ou kendōgu.

Nos kata, sequências predefinidas de movimentos, utiliza-se frequentemente o bokutō, uma espada de madeira. Ele tem uma função diferente da shinai empregada nos combates.

A proteção não elimina os riscos. Os equipamentos precisam estar ajustados e conservados, e o treinamento deve ocorrer com orientação qualificada.

Como funciona uma luta

O combate competitivo é chamado de shiai e ocorre entre dois praticantes. Em regra, três árbitros avaliam as ações.

No formato mais comum, vence quem conquista dois pontos, chamados de ippon. Também vence quem estiver com vantagem de 1 a 0 ao terminar o tempo. A duração-padrão é de cinco minutos, com possíveis variações conforme o torneio. Havendo prorrogação, vence quem pontuar primeiro.

Encostar a shinai no adversário não basta para marcar ponto. O golpe válido, denominado yūkō-datotsu, exige precisão, postura correta, disposição, uso da região adequada da shinai e alinhamento do golpe. Depois da ação, é necessário manter atenção e prontidão, o zanshin.

Os alvos regulamentares são áreas específicas das proteções:

  • Men: região da cabeça.
  • Kote: região dos punhos.
  • Dō: laterais do tronco.
  • Tsuki: proteção da garganta, atingida por uma estocada.

O tsuki exige cuidados específicos e não deve ser reproduzido em atividades escolares introdutórias.

Infrações, como sair irregularmente da área ou perder a shinai, podem gerar hansoku, penalidades. Em regra, duas dessas infrações concedem um ponto ao adversário.

áreas de pontuação no kendo
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Valores e filosofia do kendo

Na perspectiva da Federação Japonesa de Kendo, a prática busca contribuir para a formação do caráter por meio dos princípios da espada. O aprendizado envolve o corpo, a atenção e a maneira de agir com outras pessoas.

Entre os valores trabalhados estão:

  • Respeito: reconhecer a importância dos colegas, professores e adversários.
  • Disciplina: praticar com regularidade e cumprir os combinados.
  • Autocontrole: agir com responsabilidade diante da tensão e da frustração.
  • Sinceridade: assumir os próprios erros e buscar melhorar.
  • Humildade: compreender que sempre há algo a aprender.

As saudações e as regras de etiqueta, chamadas de reiho, expressam o respeito entre os participantes. O adversário também é alguém que contribui para o aprendizado.

Esses valores são objetivos da formação e precisam ser cultivados nas relações de treino. A simples participação em uma luta não garante seu desenvolvimento.

Kendo na Educação Física escolar e na BNCC

O kendo pode ser abordado no 9º ano, no estudo das lutas do mundo. Essa é uma escolha pedagógica para este conteúdo: a BNCC reúne as habilidades correspondentes no bloco de 8º e 9º anos, sem indicar um ano exclusivo para a modalidade.

O trabalho pode contribuir para as habilidades:

  • EF89EF16: experimentar movimentos das lutas do mundo com segurança e respeito ao oponente;
  • EF89EF17: planejar estratégias básicas e reconhecer características técnico-táticas;
  • EF89EF18: discutir transformações históricas, esportivização e presença das lutas na mídia.

Na escola, estudar o kendo permite conhecer uma manifestação cultural japonesa e suas relações com a imigração no Brasil. Também favorece discussões sobre a diferença entre uma luta regulamentada e uma situação de violência.

Como proposta pedagógica, o professor pode explorar deslocamentos, percepção de distância e jogos de reação sem contato, além de analisar imagens de equipamentos e combates.

Por exemplo, em duplas e sem objetos, um estudante pode avançar lentamente enquanto o outro recua, procurando manter uma distância combinada. Depois, trocam de função e discutem como perceberam o espaço e os movimentos do colega.

Essas atividades são adaptações introdutórias, não combates oficiais. Golpes entre estudantes exigem condições técnicas que não devem ser substituídas por espadas improvisadas ou ausência de proteção.

Perguntas frequentes

Kendo e kendô são a mesma prática?

Sim. As duas grafias são utilizadas em português para se referir à mesma arte marcial japonesa.

No kendo são usadas espadas afiadas?

Nos combates, utiliza-se a shinai, geralmente feita de bambu. Espadas de madeira são usadas em exercícios específicos, como os kata.

Por que os praticantes gritam?

A projeção da voz, conhecida comokiai, expressa disposição e intenção durante a prática. Ela integra a ação corporal e não serve apenas para intimidar o adversário.

O kendo tem faixas coloridas?

A progressão ocorre por graduações kyū e dan, mas elas geralmente não são identificadas por faixas coloridas no uniforme.

É preciso vencer competições para aprender kendo?

Não. A competição é uma das possibilidades da prática. O treinamento também valoriza o aperfeiçoamento técnico, o respeito e o desenvolvimento pessoal.

É possível estudar kendo na escola sem uma armadura?

Sim. É possível conhecer sua história, seus valores e realizar atividades sem contato. Isso não autoriza reproduzir combates ou atingir colegas sem os equipamentos e a orientação necessários.

Para conhecer outras artes marciais, leia: Artes marciais: o que são, quais os tipos e características (com exemplos)

Referências Bibliográficas

ALL JAPAN KENDO FEDERATION. The Concept of Kendo. Disponível em: https://www.kendo.or.jp/en/knowledge/kendo-concept/

ALL JAPAN KENDO FEDERATION. The History of Kendo. Disponível em: https://www.kendo.or.jp/en/knowledge/kendo-history/

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: https://cdn.mec.gov.br/basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE KENDO. O que é Kendô? Disponível em: https://www.cbkendo.com.br/artigos/o-que-%C3%A9/o-que-%C3%A9-kend%C3%B4?

INTERNATIONAL KENDO FEDERATION. The Regulations of Kendo Shiai and Shinpan; The Subsidiary Rules of Kendo Shiai and Shinpan. Revisão de julho de 2023. Disponível em: www.kendo-fik.org/wp-content/uploads/2025/04/Regulations-of-Kendo-Shiai-and-Shinpan-EN_Jul2023.pdf

Juliana Carpi
Juliana Carpi
Professora de Educação Física (licenciatura e bacharel), graduada em Pedagogia, com pós-graduação em Educação Física Escolar e mestrado em andamento na área.

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