O que foi a Questão Coimbrã?

Daniela Diana

A Questão Coimbrã (também chamada de “Questão do Bom Senso e Bom Gosto”) representou uma polêmica travada em 1865 entre os literatos portugueses.

De um lado, estava Antônio Feliciano de Castilho, escritor romântico português. De outro, o grupo de estudantes da Universidade de Coimbra: Antero de Quental, Teófilo Braga e Vieira de Castro.

A Questão Coimbrã foi o marco inicial do movimento realista em Portugal. Ela representou uma nova forma de fazer literatura, trazendo à tona aspectos de renovação literária aliado as ideias que surgiram na época em torno de questões científicas.

Por isso, ela se afasta dos moldes ultrapassados dos ultrarromânticos, atacando assim, as posturas de atraso cultural da sociedade portuguesa da época.

Resumo

O primeiro grupo envolvido na Questão Coimbrã, liderado por Castilho, era formado por intelectuais que defendiam sobretudo o status quo literário. Tinham uma visão tradicional, academicista e formal.

O segundo grupo, formados pelos jovens estudantes de Coimbra, propunha denunciar a sociedade e mostrar a vida do homem de maneira mais realista. Por isso, se posicionaram contra a postura formal, conservadora e acadêmica da Escola Romântica.

Os estudantes alegavam a falsidade contida na literatura romântica e propunham uma transformação artística, cultural, política e econômica.

A Questão Coimbrã, começa, dessa forma, com uma ácida crítica de Castilho sobre os estudantes de Coimbra, os novos literatos.

Incumbido de escrever o posfácio para o “Poema da Mocidade” do escritor romântico Pinheiro Chagas, Castilho defende os ideais românticos.

Além disso, menciona sobre a postura dos escritores que pertenciam à Universidade de Coimbra, inspirados nos modelos franceses, mais libertários, críticos e vanguardistas.

Na Carta, escrita dia 27 de setembro de 1865, Castilho alegava que esses aspirantes literários destruíam a beleza da literatura. Segundo ele, possuíam falta de bom senso e de bom gosto.

Ele fez os comentários após ler as obras publicadas naquele ano dos escritores Antero de Quental (Odes Modernas) e Teófilo Braga (Tempestades Sonoras).

Além disso, após ser atacado por Castilho, Antero de Quental escreve uma das obras mais emblemáticas do Realismo Português intitulada “Bom Senso e Bom Gosto”.

Ela foi escrita em 2 de novembro de 1865 e representou uma resposta à Feliciano de Castilho num tom sarcástico e irônico. Segue abaixo alguns trechos:

Acabo de ler um escripto de v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso.

Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos.

Estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para fallar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentissima de homem sem pretenções litterarias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé.

Como não pretendo logar algum, mesmo infimo, na brilhante phalange das reputações contemporaneas, é por isso que, estando de fóra, posso como ninguém avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso também fallar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniencias, de precauções, de reticencias—ou, digamos a cousa pelo seu nome, de hypocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambições, das misérias d'uma posição, que não retendo, posso fallar nas miserias, nas ambições, nas vaidades d'esse mundo tão extranho para mim, atravessando por meio d'ellas e sahindo puro, limpo e innocente.”

Confira a obra na íntegra, fazendo o download do PDF aqui: Bom Senso e Bom Gosto

Ademais, Antero de Quental publica o texto “A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais” e Teófilo Braga “Teocracias Literárias”.

Por conseguinte, Ramalho Ortigão escreve o texto “Literatura de Hoje”. Esse fato deixou os estudantes descontentes e levou a luta de espadas travada entre Antero e Ortigão no Jardim da Arca D’Água no Porto.

Por fim, Ramalho Ortigão sai ferido, pondo fim a Questão Coimbrã e dando início ao Realismo em Portugal.

Realismo em Portugal

O Realismo em Portugal tem início em meados do século XIX que pôs de dois lados os que defendiam Romantismo e outros, que defendiam o Realismo e o Naturalismo. Esse confronto ficou conhecido como “Questão Coimbrã”.

Os principais representantes do Realismo em Portugal foram Eça de Queirós, Antero de Quental e Teófilo Braga. Eles pertenciam a chamada “Geração de 70” ou “Geração de Coimbra”.

Eles se preocupavam mais com as questões sociais e propunham novas maneiras de fazer literatura. Apresentavam novas ideias e modelos que chegavam de diversos países europeus, sobretudo da França e da Inglaterra.

Assim, a literatura realista portuguesa veio mostrar que Portugal estava alicerçado em ideias retrógradas as quais atrapalhavam o desenvolvimento cultural do país.

Por esse motivo, essa nova fase literária focou na exposição do realismo, demostrando a vida como ela é, em detrimento da visão idealista romântica.

As ideias da “Geração de 70” foram essenciais para o avanço da literatura portuguesa. Foram capazes de modificar as posturas e as atitudes, trazendo à tona temas de caráter social.

Vale lembrar que a Questão Coimbrã durou meses e finalmente terminou com um duelo de espadas entre Antero de Quental e Ramalho Urtigão.

Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.