Humanismo na literatura

Daniela Diana
Daniela Diana
Professora licenciada em Letras

O Humanismo é um movimento literário de transição entre o Trovadorismo e o Classicismo que marcou o fim da Idade Média e início da Idade Moderna na Europa.

Com foco na valorização do homem, ele se destacou com as produções em prosa (crônicas históricas e o teatro) e poética (poesia palaciana) durantes os séculos XV e XVI.

As características do humanismo

As principais características do humanismo nas artes e na filosofia são:

Antropocentrismo: conceito filosófico que ressalta a importância do homem como um ser agente dotado de inteligência e de capacidade crítica. Avesso ao teocentrismo (deus como centro do mundo), esse conceito permitiu descentralizar o conhecimento que antes era propriedade da Igreja.

Racionalismo: corrente filosófica associada à razão humana que foca na produção de conhecimentos sobre o ser humano e o mundo, contestando o espiritualismo.

Cientificismo: associado ao racionalismo, esse conceito coloca a ciência em um lugar de destaque. Através do método científico, ele fomenta as descobertas desse campo a fim de entender os fenômenos naturais.

Antiguidade clássica: os artistas humanistas foram inspirados pelos estudos realizados anteriormente por pensadores clássicos gregos e romanos, sobretudo pela literatura e mitologia greco-romana.

Valorização do homem: inspirado nos modelos clássicos greco-romanos, houve a valorização do corpo humano e das emoções do homem. Assim, as artes humanistas focavam nos detalhes que revelassem as expressões e desejos.

Ideal de beleza e perfeição: aliado ao conceito de valorização dos modelos clássicos, nesse período buscou-se atingir a perfeição das formas humanas por meio das proporções equilibradas e da beleza perfeita.

Entenda mais sobre as Características do humanismo.

O Humanismo em Portugal

O marco inicial do humanismo literário português foi a nomeação de Fernão Lopes como cronista mor do reino, em 1434. Esse movimento vai até 1527 com a chegada do poeta Sá de Miranda da Itália, quando começa o Classicismo.

O teatro popular, a poesia palaciana e a crônica histórica foram os gêneros mais explorados durante o período do humanismo em Portugal.

Dentre os principais autores do humanismo português estão: Gil Vicente, Fernão Lopes e Garcia de Resende.

Gil Vicente (1465-1536) foi considerado o “pai do teatro português” e sua obra aborda temas religiosos e humanos. Apesar de possuir uma visão religiosa cristã e moralista, seus textos também apresentam críticas sociais.

Esse autor escreveu diversas peças teatrais chamadas de Autos e Farsas. Os Autos focavam em temas humanos e divinos, e as Farsas estavam relacionadas com os costumes da sociedade portuguesa da época.

Dentre sua obra de dramaturgia, destacam-se:

Trecho do Auto da Barca do inferno de Gil Vicente

Diabo

— Cavaleiros, vós passais
e nom perguntais onde is?

1.º Cavaleiro

— Vós, Satanás, presumis?
Atentai com quem falais!

2.º Cavaleiro

— Vós que nos demandais?
Sequer conhecermos bem:
morremos nas Partes d'Além,
e não queirais saber mais.

Diabo

— Entrai cá! Que cousa é essa?
Eu nom posso entender isto!

Cavaleiros

— Quem morre por Jesus Cristo
não vai em tal barca como essa!

Tornaram a prosseguir, cantando, seu caminho direito à barca da Glória, e, tanto que chegam, diz o Anjo:

Anjo

— Ó cavaleiros de Deus,
a vós estou esperando,
que morrestes pelejando
por Cristo, Senhor dos Céus!
Sois livres de todo mal,
mártires da Santa Igreja,
que quem morre em tal peleja
merece paz eternal.

E assim embarcam.

Fernão Lopes (1390-1460) foi o maior representante da prosa historiográfica humanista, além de fundador da historiografia portuguesa.

Antes dele, a historiografia de Portugal se resumia aos nobiliários, ou seja, os livros de linhagem que reuniam as árvores genealógicas dos nobres medievais.

Assim, ele ampliou esse conceito ao escrever obras de grande valor artístico e histórico sobre a história dos reis de Portugal, das quais merecem destaque:

  • Crônica de El-Rei D. Pedro I
  • Crônica de El-Rei D. Fernando
  • Crônica de El-Rei D. João I

Trecho da crônica El-Rei D. Pedro I de Fernão Lopes

E porquanto el−rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça, de que a Deus mais praz que cousa boa que o rei possa fazer, segundo os santos escrevem, e alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é necessaria ao rei, se o é assim ao povo: vós, n'aquelle estilo que o simplesmente apanhámos, o podeis lêr por esta maneira.
Justiça é uma virtude, que é chamada toda virtude; assim que qualquer que é justo, este cumpre toda virtude; porque a justiça, assim como lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão, e isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança, e assim podeis entender dos outros vicios e virtudes.
Esta virtude é mui necessaria ao rei, e isso mesmo aos seus sujeitos, porque, havendo no rei virtude de justiça, fará leis por que todos vivam direitamente e em paz, e os seus sujeitos sendo justos, cumprirão as leis que elle puzer, e cumprindo−as não farão cousa injusta contra nenhum. E tal virtude, como esta, póde cada um ganhar por obra de bom entendimento, e ás vezes nascem alguns assim naturalmente a ella dispostos, que com grande zelo a executam, posto que a alguns vicios sejam inclinados.

Garcia de Resende (1470-1536) foi o maior representante da poesia palaciana humanista. O escritor publicou em 1516 a obra Cancioneiro Geral, que reúne mais de mil poemas da literatura medieval, de 300 autores diferentes.

A poesia palaciana recebe esse nome, pois era geralmente produzida nos palácios e tinha o intuito de entreter os nobres. Os temas mais explorados eram religiosos, amorosos e satíricos.

No período literário anterior (trovadorismo), a poesia tinha uma relação forte com a música, no entanto, com o humanismo, ela se dissocia desse aspecto musical.

Além disso, a poesia palaciana do humanismo inovou nos aspectos formais da produção poética, com o uso da redondilha maior (versos com sete sílabas poéticas), que conferia maior ritmo e memorização, em detrimento da redondilha menor (versos com 5 sílabas poéticas).

Trecho da poesia Trova de Inês de Garcia Resende

Qual será o coraçam
tam cru e sem piadade,
que lhe nam cause paixam
úa tam gram crueldade
e morte tam sem rezam?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ó príncepe, meu senhor,
me mataram cruamente!

A minha desaventura
nam contente d'acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant'altura,
para d'alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas nam ardera,
pai, filhos nam conhecera,
nem me chorara ninguém.

Saiba mais sobreA linguagem do humanismo.

Os humanistas: autores e obras do humanismo

Os humanistas eram os estudiosos da cultura antiga que se dedicavam, sobretudo, aos estudos dos textos da antiguidade clássica greco-romana.

Todos eles foram influenciados por características do período como o culto às línguas e às literaturas greco-latinas (modelo clássico).

Dentre os grandes representantes da literatura humanista estão:

Francesco Petrarca (1304-1374) - poeta italiano fundador do humanismo e autor das obras: Cancioneiro e o Triunfo; Meu livro secreto; Itinerário para a Terra Santa.

Dante Alighieri (1265-1321) - poeta e político italiano, autor das obras: A Divina Comédia; Sobre a Língua Vulgar; Vida Nova.

Giovanni Boccaccio (1313-1375) - poeta italiano e autor das obras: Decamerão; A canção bucólica; Mulheres famosas.

Erasmo de Roterdã (1466-1536) - teólogo e filósofo neerlandês, autor das obras: Elogio da Loucura; Manual do Cavaleiro Cristão; Colóquios.

Thomas More (1478-1535) - escritor e filósofo inglês, autor das obras: Utopia; Tratado sobre a Paixão de Cristo; Súplica das Almas.

Michel de Montaigne (1533-1592) - filósofo e escritor francês, autor de uma única obra reunida em 3 volumes: Ensaios.

Contexto histórico do humanismo

O humanismo surgiu no século XV na Itália, mais precisamente na cidade de Florença durante o período do Renascimento Cultural. Por isso, ele também é chamado de Humanismo Renascentista.

Esse movimento intelectual de valorização do homem, influenciou diversos campos de conhecimento (filosofia, ciências, literatura, escultura, artes plásticas) e rapidamente se espalhou por outros países da Europa.

Homem Vitruviano
Homem Vitruviano (1590) de Leonardo da Vinci: símbolo do antropocentrismo humanista

A época renascentista foi um momento de importantes transformações na mentalidade europeia. Alguns fatores que permitiram surgir uma nova visão no ser humano foram:

  • a invenção da imprensa de Johannes Gutenberg, que proporcionou a expansão do conhecimento, antes controlado pela igreja.
  • as grandes navegações e a expansão marítima europeia, que permitiram ampliar os horizontes do homem europeu.
  • a crise do sistema feudal, pois diversas atividades comerciais despontavam, dando início ao mercantilismo e o uso de moedas de troca (dinheiro).
  • o surgimento da burguesia como uma nova classe social, que se consolida com a expansão do comércio e o desenvolvimento das cidades medievais.

Todas essas mudanças foram necessárias para questionar os velhos valores num impasse desenvolvido entre a fé a razão.

Diante disso, o teocentrismo (Deus como centro do mundo) e a estrutura hierárquica medieval (nobreza-clero-povo) sai de cena, dando lugar ao antropocentrismo (homem como centro do mundo). Esse último, foi o ideal central do humanismo renascentista.

Leia mais sobre esse período:

Veja mais informações sobre o tema neste vídeo:

Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.