Fernão Lopes


Fernão Lopes foi um escritor português responsável pelo início do movimento humanista em Portugal. Ele é considerado o “pai da historiografia portuguesa” e uma das principais figuras da literatura medieval.

Sua eleição para guarda-mor da Torre do Tombo em 1418, tornou-se o marco inicial do humanismo em Portugal.

Nesse momento, ele ficou responsável pelo arquivo real português.

Biografia

Fernão Lopes

Nascido em finais do século XIV (entre 1380 e 1390), Fernão Lopes provavelmente nasceu em Lisboa, capital de Portugal. Ainda que exista pouca informação sobre sua vida, acredita-se que sua origem seja humilde.

No entanto, durante sua vida prestou serviços para a coroa portuguesa como escrivão e cronista, o que lhe garantiu uma posição melhor.

Isso porque Fernão teve grande preocupação em relatar a história de Portugal sendo, portanto, um dos grandes renovadores da historiografia portuguesa.

Sua visão imparcial sobre os fatos foi, sem dúvida, uma de suas maiores contribuições. Isso porque o escritor tinha o intuito de separar as lendas dos fatos reais e ainda, dar prioridade ao povo, em detrimento da visão idealizada dos reis e governantes.

Como cronista-mor do Reino de Portugal ele ficou responsável por escrever as narrativas de reis. Eleito em 1418 como guarda-mor da Torre do Tombo em Lisboa, Fernão permaneceu no cargo até 1454.

Sabe-se que ele casou e teve um filho que lhe deu um neto bastardo. Ainda que não seja certo sua morte, é provável que Fernão tenha falecido em Lisboa em 1460, com cerca de 80 anos de idade.

Curiosidade

Visto sua grande importância para o país, Fernão Lopes, que era escrivão de D. Duarte, recebeu deste 14 mil réis anuais como reconhecimento de seu trabalho. Além disso, ele foi condecorado com o título de vassalo de el-rei (1434). Note que o vassalo é uma pessoa de extrema confiança do rei.

Obras e características

Com um estilo literário peculiar, Fernão Lopes foi um marco na literatura medieval de sua época. Isso porque acabou deixando de lado alguns protagonismos, trazendo à tona características mais populares.

Através de seus textos, torna-se fácil identificar essa característica que é ressaltada por meio de uma linguagem mais coloquial. Foi, dessa maneira, que Fernão Lopes conquistou muitos admiradores em seu tempo.

O escritor português ficou muito conhecido por suas crônicas históricas. Ainda que a prosa historiográfica tenha surgido anteriormente, no movimento do trovadorismo, ela atingiu seu apogeu no Humanismo com a figura de Fernão Lopes.

A principal caraterística desse tipo de obra é o teor histórico que ela carrega, uma vez que relata fatos reais.

A grande diferença é que Fernão conseguiu unir a história com a literatura. Assim, ele produziu diversas obras por meio de uma linguagem simples e repleta de diálogos. Dentre elas, destacam-se:

  • Crônica de El-Rei D. Pedro I (1434)
  • Crônica de El-Rei D. Fernando (1436)
  • Crônica de El-Rei D. João I (1443)

Trecho da “Crônica de El-Rei D. João I”

Com o intuito de conhecer melhor a linguagem utilizada pelo escritor, segue um trecho de sua obra:

“Razões em prólogo do auctor d'esta obra, ante que fale dos feitos do Mestre.

Grande licença deu a affeiçâo a muitos, que tiveram cargo de ordenar historias, mormente dos Senhores, em cuja mercê e terra viviam, e onde foram nados seus antigos avós, sendo-lhe muito favoraveis no recontamento de seus feitos. E tal favoreza, como esta, nace de mundanal affeiçâo, a qual não é, salvo conformidade de alguma cousa ao entendimento do homem.

Assim que a terra em que os homens, por longo costume e tempo, foram criados, gera uma tal conformidade entre o entendimento, e ella, que havendo de julgar alguma sua cousa assim em louvor, como por contrario, nunca por elles é direitamente recontada, porque louvando-a, dizem sempre mais d'aquello, e se d'outro modo não escreverem suas perdas tão minguadamente, como acontecerem, outra cousa gera ainda esta conformidade e natural inclinação, segundo sentença d'algnns, que o pregoeiro da vida é a fama, recebendo refeição, para o corpo, o sangue, e espiritos gerados de tantas viandas teem uma tal similhança entre os que causa esta conformidade. Alguns outros tiveram que isto descia na semente, no tempo de geração, a qual dispõem por tal guisa aquello, que d'ella é grado, que lhe fica esta conformidade, tambem ácerca da terra, como de seus divides, e ao que parece que o sentiu Tu-lio, quando veiu a dizer:

Nós não somos nados a nós mesmos, porque uma parte de nós tem a terra, e a outra os parentes; e porém o juizo do homem ácerca de tal terra, ou pessoas recontando seus feitos sempre copega.

Esta mundanal affeição fez alguns historiadores, que os feitos de Castella, com os de Portugal, escreveram, posto que homens de boa authoridade fossem, desviar da verdadeira estrada, e colher por semideiros escuses, por as minguas das terras de que eram em certos passos claramente não serem vistas, especialmente no grande desvairo, que o mui virtuoso Rei de boa memoria D. João, cujo regimento e reinado se segue, houve com o nobre e poderoso rei D. João de Castella, pondo parte de seus bons feitos fóra do louvor, que merecia, e evadindo em alguns outros de guisa que não aconteceram atrevendo-se a publicar esto em vida de taes que lhe foram companheiros bem veadores de todo o contrario.”

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