Coeficiente de Gini: o que mede, como se lê e o índice do Brasil

Amanda Scofano
Amanda Scofano
Professora de Geografia

O coeficiente de Gini é um indicador estatístico que mede o grau de desigualdade na distribuição de renda de uma população. Ele resume em um único valor, que varia de 0 a 1, o quanto a renda de um país, de um estado ou de uma cidade está concentrada nas mãos de poucos: quanto mais próximo de 0, mais igualitária é a distribuição; quanto mais próximo de 1, maior a concentração de renda.

Para entender a lógica do índice, imagine uma pizza dividida entre dez pessoas. Se cada uma receber exatamente uma fatia do mesmo tamanho, a distribuição é perfeitamente igualitária e o coeficiente de Gini é 0. Se uma única pessoa ficar com a pizza inteira e as outras nove não receberem nada, a concentração é total e o coeficiente é 1. Nenhuma sociedade real está em um desses extremos, mas todas se posicionam em algum ponto entre eles.

O índice foi formulado em 1912 pelo estatístico italiano Corrado Gini e é hoje o principal instrumento de comparação de desigualdade usado pelo IBGE, pelo Banco Mundial e pelo PNUD. No Brasil, o valor mais recente é de 0,511, referente a 2025 e divulgado pelo IBGE em maio de 2026.

Neste conteúdo você encontra:

Como se lê a escala de 0 a 1

Os valores 0 e 1 são situações teóricas que servem apenas como referência. Na prática, os países do mundo se distribuem em uma faixa bem mais estreita, e é dentro dela que a leitura precisa ser feita. Uma diferença de dois centésimos, que parece irrelevante, representa uma transferência enorme de renda entre grupos sociais.

Como referência de leitura:

Abaixo de 0,30 — desigualdade baixa. É a faixa dos países nórdicos e de parte do Leste Europeu, onde a renda do décimo mais rico não se distancia tanto da renda do décimo mais pobre.

Entre 0,30 e 0,40 — desigualdade moderada. Faixa típica da maior parte da Europa Ocidental, do Canadá e do Japão.

Entre 0,40 e 0,50 — desigualdade alta. Aparecem aqui os Estados Unidos e vários países da Ásia e da América Latina.

Acima de 0,50 — desigualdade muito alta. É onde se encontram o Brasil e boa parte da África Subsaariana e da América Latina.

Alguns órgãos publicam o mesmo indicador multiplicado por 100, na forma de percentual. Quando você vê "índice de Gini de 51,1", trata-se exatamente do mesmo dado que 0,511 — muda apenas a escala de apresentação.

A curva de Lorenz: de onde vem o número

O coeficiente de Gini não sai do nada: ele é calculado a partir de um gráfico chamado curva de Lorenz, criado pelo economista norte-americano Max Lorenz em 1905. Entender esse gráfico é a forma mais rápida de entender o índice.

No eixo horizontal, a população é ordenada da mais pobre para a mais rica, em percentuais acumulados: 10% mais pobres, 20% mais pobres, e assim por diante até 100%. No eixo vertical, aparece o percentual acumulado da renda que esses grupos recebem.

Se a distribuição fosse perfeitamente igualitária, 10% da população receberiam 10% da renda, 50% receberiam 50% e assim sucessivamente. O gráfico seria uma linha reta em diagonal, a 45 graus — a chamada linha de igualdade perfeita.

Gráfico do coeficiente de Gini com a curva de Lorenz

Como nenhuma sociedade funciona assim, a curva real fica sempre abaixo da diagonal: os 50% mais pobres recebem bem menos do que 50% da renda. A distância entre a diagonal e a curva é a representação visual da desigualdade, e o coeficiente de Gini é exatamente a medida dessa área. Quanto mais a curva "afunda" em direção ao canto inferior direito, maior a área, maior a concentração e maior o índice.

É por isso que, em uma questão de prova, você quase nunca precisa calcular o Gini: precisa saber que curva mais afastada da diagonal significa índice mais alto e sociedade mais desigual.

O coeficiente de Gini do Brasil

O IBGE calcula o coeficiente de Gini do rendimento domiciliar per capita brasileiro a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Os valores mais recentes mostram um movimento que precisa ser lido com atenção, porque ele tem duas direções ao mesmo tempo:

2019 — 0,543
2024 — 0,504, o menor valor já registrado na série
2025 — 0,511, o segundo menor valor da série

Na comparação de longo prazo, há uma melhora real: o país saiu de 0,543 para 0,511 em seis anos, o que significa que a distância entre os mais ricos e os mais pobres diminuiu. Mas, na comparação imediata, a desigualdade voltou a crescer de 2024 para 2025, porque a renda dos grupos de maior rendimento subiu mais rápido do que a dos demais.

Essas duas leituras não se contradizem: a primeira descreve uma tendência, a segunda descreve uma variação recente. Questões de vestibular costumam apresentar uma série como essa justamente para verificar se o estudante distingue os dois movimentos.

Vale lembrar que a desigualdade brasileira também tem recorte territorial: o coeficiente varia bastante entre as regiões e entre os estados, sendo em geral mais alto no Norte e no Nordeste. Para entender os fatores históricos que produziram esse quadro, leia sobre a desigualdade social no Brasil.

O Brasil comparado com outros países

Com um coeficiente acima de 0,50, o Brasil figura de forma recorrente entre os países mais desiguais do mundo — e, com frequência, entre os mais desiguais da América Latina, região que já é a mais desigual do planeta.

Nas comparações internacionais do Banco Mundial, a África do Sul aparece sistematicamente como o país com o maior coeficiente de Gini registrado, acima de 0,60, herança direta do regime de segregação racial do apartheid. No outro extremo, países como Eslováquia, Eslovênia, Bielorrússia e os países nórdicos costumam apresentar índices próximos de 0,25, resultado de sistemas de proteção social amplos e de tributação progressiva.

Duas advertências são importantes ao comparar países. Primeiro, os dados de cada país se referem a anos diferentes, porque nem todos realizam pesquisas domiciliares com a mesma frequência. Segundo, alguns países medem a renda antes dos impostos e das transferências sociais, e outros depois — o que pode alterar bastante o resultado. Por isso, rankings de Gini devem ser lidos como ordens de grandeza, e não como uma classificação precisa.

Ainda com dúvidas? Pergunta ao Ajudante IA do Toda Matéria

O que o coeficiente de Gini não mostra

Esta é a parte que mais rende em redação e em questões discursivas, porque é onde está o pensamento crítico sobre o indicador. O Gini é útil, mas tem limitações estruturais.

Ele não mede riqueza, apenas renda. O índice normalmente considera o que as pessoas recebem em determinado período, e não o que elas possuem. Imóveis, terras, ações e heranças ficam de fora. Como a concentração de patrimônio é muito maior do que a de renda, o Gini tende a subestimar a desigualdade real.

Ele não diz onde está a desigualdade. Um mesmo valor de 0,50 pode resultar de uma elite minúscula extremamente rica com o resto da população em situação parecida, ou de uma sociedade dividida em duas metades muito distintas. O número é idêntico; a realidade social, não.

Ele não distingue países ricos de países pobres. Um país onde todos são pobres de forma parecida pode ter um Gini baixo. Igualdade não significa bem-estar.

Ele depende da qualidade da pesquisa. Rendas muito altas costumam ser subdeclaradas em pesquisas domiciliares, e parte da renda informal escapa da medição. Isso significa que o Gini oficial é, quase sempre, um piso da desigualdade, e não o seu retrato completo.

Por causa dessas limitações, o coeficiente de Gini nunca deve ser usado sozinho. Ele é mais informativo quando combinado com outros indicadores, como a razão entre a renda dos 10% mais ricos e dos 40% mais pobres, a taxa de pobreza e o IDH.

Gini, IDH e renda per capita: não confunda

Três indicadores aparecem juntos nas provas e medem coisas diferentes. Saber separá-los evita o erro mais comum do conteúdo.

Coeficiente de Gini — mede como a renda está distribuída. Escala de 0 a 1, em que valores menores são melhores.

Renda per capita — mede quanta renda existe, em média, por habitante. Não diz nada sobre distribuição.

IDH — combina renda, expectativa de vida e escolaridade em uma medida de desenvolvimento humano. Escala de 0 a 1, em que valores maiores são melhores.

Repare que Gini e IDH usam a mesma escala numérica, mas em sentidos opostos: um Gini de 0,9 é péssimo, um IDH de 0,9 é excelente. Para revisar o terceiro indicador, consulte o conteúdo sobre IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

Principais pontos para estudar para a sua prova

1. O coeficiente de Gini mede a concentração da renda em uma escala de 0 (igualdade perfeita) a 1 (concentração total). Valores menores indicam sociedades mais igualitárias.

2. O índice é calculado a partir da área entre a curva de Lorenz e a linha de igualdade perfeita. Curva mais distante da diagonal significa Gini mais alto.

3. O Brasil tem coeficiente de 0,511 (2025, IBGE/PNAD Contínua), o que o coloca entre os países mais desiguais do mundo.

4. Entre 2019 e 2025, a desigualdade brasileira recuou na tendência de longo prazo, mas voltou a subir de 2024 para 2025.

5. O Gini mede renda, não patrimônio. Por isso subestima a desigualdade real, em que a concentração de riqueza é maior.

6. Dois países com o mesmo Gini podem ter níveis de riqueza completamente diferentes: o índice não mede riqueza, mede distribuição.

7. Gini e IDH usam a escala de 0 a 1 em sentidos opostos: no Gini, menor é melhor; no IDH, maior é melhor.

Perguntas frequentes

Qual é o coeficiente de Gini do Brasil hoje?

O coeficiente de Gini do rendimento domiciliar per capita do Brasil é de 0,511, referente a 2025, segundo o IBGE. O valor foi divulgado em maio de 2026, a partir da PNAD Contínua, e representa uma alta em relação a 2024 (0,504), ano que registrou o menor índice da série histórica.

Um coeficiente de Gini alto é bom ou ruim?

É ruim. Quanto mais alto o coeficiente, mais concentrada está a renda, ou seja, maior é a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres. O valor ideal, do ponto de vista da distribuição, é o mais próximo possível de 0.

Qual é a diferença entre coeficiente de Gini e índice de Gini?

Não há diferença conceitual: os dois termos designam o mesmo indicador. A expressão "coeficiente de Gini" costuma ser usada para o valor na escala de 0 a 1, e "índice de Gini" para o mesmo valor multiplicado por 100, em forma de percentual. Um coeficiente de 0,511 equivale a um índice de 51,1.

Quem criou o coeficiente de Gini?

O indicador foi criado em 1912 pelo estatístico e sociólogo italiano Corrado Gini, na obra Variabilità e mutabilità. Ele partiu da curva de Lorenz, formulada em 1905 pelo economista Max Lorenz, e propôs uma forma de resumir em um único número a desigualdade que a curva representa graficamente.

O coeficiente de Gini pode ser maior que 1?

Não, na sua definição usual. O índice é construído como uma proporção de área e, por isso, fica sempre entre 0 e 1. Valores negativos ou superiores a 1 só apareceriam em situações artificiais, como quando parte da população declara renda negativa por conta de prejuízos.

Exercícios

1. Dois países, A e B, apresentam o mesmo coeficiente de Gini: 0,45. A partir dessa informação, é correto afirmar que:

a) os dois países têm a mesma renda média por habitante.

b) os dois países têm o mesmo grau de concentração da renda, mas podem ter níveis de riqueza muito diferentes.

c) os dois países têm o mesmo Índice de Desenvolvimento Humano.

d) nos dois países, 45% da população vive abaixo da linha da pobreza.

e) os dois países distribuem a renda de forma perfeitamente igualitária.

Gabarito explicado

Resposta correta: b) os dois países têm o mesmo grau de concentração da renda, mas podem ter níveis de riqueza muito diferentes.

Explicação: O coeficiente de Gini mede apenas como a renda está distribuída, e não quanta renda existe. Um país rico e um país pobre podem ter exatamente o mesmo Gini, porque o índice compara cada sociedade consigo mesma. O erro mais comum é tratar o Gini como um indicador de riqueza ou de pobreza, quando ele é um indicador de concentração.

2. No gráfico da curva de Lorenz, a linha diagonal de 45 graus representa a igualdade perfeita na distribuição de renda. A curva de Lorenz de um país real fica sempre abaixo dessa diagonal. Quanto maior for a área entre a diagonal e a curva,

a) menor é a desigualdade e menor é o coeficiente de Gini.

b) menor é a desigualdade e maior é o coeficiente de Gini.

c) maior é a desigualdade e maior é o coeficiente de Gini.

d) maior é a desigualdade e menor é o coeficiente de Gini.

e) não há relação entre a área e o coeficiente de Gini.

Gabarito explicado

Resposta correta: c) maior é a desigualdade e maior é o coeficiente de Gini.

Explicação: O coeficiente de Gini é justamente a medida dessa área. Quando a curva de Lorenz se afasta da diagonal, significa que uma parcela pequena da população concentra uma parcela grande da renda — ou seja, a desigualdade aumentou, e o índice sobe. No limite, se a curva coincidisse com a diagonal, a área seria zero e o Gini também.

3. Em 2025, o coeficiente de Gini do rendimento domiciliar per capita do Brasil foi de 0,511, segundo o IBGE, contra 0,504 em 2024 e 0,543 em 2019. A leitura correta desses dados é que, entre 2019 e 2025, a desigualdade de renda no Brasil:

a) aumentou de forma contínua, atingindo o maior valor da série em 2025.

b) recuou em relação a 2019, mas voltou a subir de 2024 para 2025.

c) foi eliminada, já que o índice ficou abaixo de 1.

d) manteve-se exatamente estável, pois as variações são apenas estatísticas.

e) recuou de forma contínua, atingindo o menor valor da série em 2025.

Gabarito explicado

Resposta correta: b) recuou em relação a 2019, mas voltou a subir de 2024 para 2025.

Explicação: A comparação entre os três valores mostra dois movimentos diferentes. Na comparação longa, de 0,543 para 0,511, houve queda da concentração de renda. Na comparação curta, de 0,504 para 0,511, houve alta. Quem olha apenas para o último par de anos conclui que a desigualdade só piorou; quem olha apenas para as pontas conclui que só melhorou. O ENEM costuma cobrar exatamente essa leitura combinada de tendência e de variação recente.

Referências Bibliográficas

BARROS, Ricardo Paes de; CARVALHO, Mirela de; FRANCO, Samuel. A queda recente da desigualdade de renda no Brasil. Brasília, DF: Ipea, 2007. (Texto para Discussão, n. 1258). Disponível em: Repositório do Ipea – texto completo. Acesso em: 21 set. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Indicadores sociais mínimos. Rio de Janeiro: IBGE, [s. d.]. Disponível em: Indicadores Sociais Mínimos – IBGE. Acesso em: 21 set. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira 2025. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: Síntese de Indicadores Sociais – IBGE. Acesso em: 21 set. 2026.

Amanda Scofano
Amanda Scofano
Professora de Geografia, com Mestrado em Geografia e Meio Ambiente. Atua como professora desde 2013 e cria conteúdos educacionais online desde 2014.

Leitura Recomendada

Tópicos Relacionados