Corpo-seco

Márcia Fernandes
Márcia Fernandes
Professora licenciada em Letras

De acordo com a tradição popular, Corpo-Seco é o espírito de alguém que recebeu uma maldição pelo fato de ter cometido pecado imperdoável em vida.

A lenda é conhecida em Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, São Paulo e no nordeste do Brasil, mas com algumas diferenças. No Paraná, por exemplo, Corpo-seco é o espírito de um homem que não cumpriu uma promessa feita a Nossa Senhora Aparecida.

Apesar das diferenças de região para região, as lendas - transmitidas oralmente pelas gerações - servem como um ensinamento. Através da sensação do medo de fazer coisas erradas, tal como desrespeitar as pessoas e não cumprir as suas promessas, a ideia era inibir certos comportamentos.

Lenda do Corpo-seco

Quando um homem comete um pecado que não tem qualquer hipótese de ser perdoado, depois que morre o seu espírito não é aceito por Deus e nem pelo diabo. A própria terra rejeita esse corpo, como se tivesse nojo daquele pecador. Assim, seu corpo seco - só em pele e osso - sai do local onde está enterrado e fica vagando durante a noite.

Ao contar a lenda, os antigos tinham a intenção de alertar para o que acontecia com um filho que maltratasse os pais, ou o inverso. O mesmo acontecia com qualquer pessoa que maltratasse um padre, pois conforme era transmitido, os padres tinham que ser muito respeitados por todos.

Assim como se falava no aspecto seco do corpo de um pecador depois de morto, também se falava no oposto, uma vez que o corpo das pessoas que tinham sido muito boas mantinha-se conservado.

Lenda do Corpo-seco no Paraná

Em Cambira, município do estado do Paraná, a população conhece a lenda do Corpo-seco, que tem origem na década de 50.

Segundo os habitantes de Cambira, Corpo-seco era um homem que tinha prometido ir a pé à cidade Aparecida do Norte se ficasse rico.

Acontece que o homem, um imigrante alemão conhecido como Ervin Schindler, enriqueceu. Ele fundou a fazenda Ubatuba, que chegou a ser uma das maiores produtoras de café da sua região, e como prometido, foi à cidade da Aparecida do Norte, mas de avião, em vez de ir a pé.

Em outra versão, o homem teria morrido durante a viagem. Hoje, segundo os populares, no local onde o homem foi enterrado, os caminhoeiros que passam são surpreendidos com alguém batendo na janela, pedindo carona para Aparecida do Norte.

Mas, quando chegam ao local onde o Corpo-seco teve o acidente, o homem que tinha pedido carona desaparece do caminhão.

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Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. 1. ed. digital. São Paulo: Global, 2012.

RODRIGUES, João Paulo Pacheco. Crenças e percepção dos sujeitos: o Corpo Seco da cidade de Cambira (PR).

Márcia Fernandes
Márcia Fernandes
Professora, pesquisadora, produtora e gestora de conteúdos on-line. Licenciada em Letras pela Universidade Católica de Santos.