Exercícios sobre ceticismo (com gabarito comentado)
A gente costuma usar a palavra “certeza” com bastante facilidade. “Eu tenho certeza de que foi assim”, “tenho certeza de que isso é verdade”. Mas será que estar convencido de alguma coisa é o mesmo que realmente saber? Os filósofos céticos fizeram justamente esse tipo de pergunta. Eles desconfiavam das certezas muito rápidas e queriam entender até onde o ser humano consegue realmente conhecer alguma coisa.
Na Antiguidade, Pirro de Élis ficou conhecido por sua postura cética. Para ele e seus seguidores, quando não existem razões suficientes para escolher entre duas explicações, uma saída possível é suspender o julgamento. Isso não quer dizer simplesmente afirmar que “nada existe” ou que “ninguém sabe de nada”. A questão é mais simples e, ao mesmo tempo, bastante provocadora: se não temos boas razões para ter certeza, talvez seja melhor admitir a dúvida.
Vamos testar nosso conhecimento sobre ceticismo!
Questão 1
“Meu irmão disse que viu, então aconteceu exatamente desse jeito.”
Essa frase pode parecer suficiente em uma conversa do dia a dia. Um filósofo cético, porém, provavelmente não pararia aí. O que ele poderia perguntar?
A) “Seu irmão costuma contar histórias?”
B) “Quantas pessoas já ouviram essa versão?”
C) “Que motivos temos para considerar essa versão verdadeira?”
D) “Essa história é antiga?”
E) “As pessoas costumam acreditar no seu irmão?”
Gabarito: C
Comentário: O ponto do ceticismo não é desconfiar de uma pessoa específica. A questão é saber se temos razões suficientes para transformar uma afirmação em conhecimento. Mesmo alguém de confiança pode estar enganado.
Questão 2
Pense em uma situação bastante comum: você lembra perfeitamente de alguma coisa que aconteceu há alguns anos. Outra pessoa que estava presente conta uma versão diferente e também parece ter certeza do que está dizendo.
Uma situação assim poderia interessar aos filósofos céticos porque
A) mostra que a memória humana nunca funciona.
B) levanta dúvidas sobre a segurança das nossas próprias certezas.
C) prova que uma das duas pessoas está necessariamente mentindo.
D) demonstra que todas as lembranças são inventadas.
E) comprova que não existe conhecimento verdadeiro.
Gabarito: B
Comentário: O exemplo não prova que a memória seja inútil nem que toda lembrança seja falsa. Ele apenas mostra que podemos estar muito convencidos de alguma coisa e, ainda assim, ter cometido um engano. É justamente esse tipo de limite que interessa ao ceticismo.
Questão 3
Dois filósofos discutem uma questão. Os dois apresentam argumentos e, depois de bastante conversa, nenhum consegue demonstrar que sua posição é definitivamente superior à do outro.
Se eles adotassem uma postura cética, poderiam
A) escolher a opinião que parece mais agradável.
B) considerar as duas posições definitivamente verdadeiras.
C) continuar discutindo até que alguém simplesmente desista.
D) suspender o julgamento diante da falta de uma conclusão segura.
E) decidir que qualquer discussão filosófica é inútil.
Gabarito: D
Comentário: A suspensão do julgamento, conhecida na tradição cética como epoché, é justamente a possibilidade de não escolher uma resposta quando não existem fundamentos suficientes para fazê-lo. Permanecer na dúvida, nesse caso, não significa fracassar na discussão.
Questão 4
Leia esta situação:
Uma notícia aparece nas redes sociais dizendo que uma determinada cidade tomou uma decisão curiosa. A publicação recebe milhares de curtidas. Antes de acreditar, uma estudante procura a fonte original e percebe que a informação foi retirada de contexto.
O que essa estudante fez que combina com uma atitude cética?
A) Procurou verificar se havia motivos para acreditar na informação.
B) Decidiu que tudo publicado na internet é falso.
C) Acreditou na notícia porque ela tinha muitos compartilhamentos.
D) Escolheu a versão que combinava com sua opinião.
E) Considerou que nenhuma informação pode ser verdadeira.
Gabarito: A
Comentário: Uma postura cética não significa acreditar em nada. Significa ter cuidado antes de aceitar uma afirmação. Nesse caso, a estudante não rejeitou a notícia simplesmente por desconfiar; ela foi atrás de elementos que permitissem avaliá-la melhor.
Questão 5
Existe uma diferença entre dizer “isso é falso” e dizer “não tenho elementos suficientes para afirmar que isso é verdadeiro”.
Essa diferença é importante para compreender o ceticismo porque
A) o cético sempre acredita na primeira explicação que recebe.
B) negar e duvidar são exatamente a mesma coisa.
C) o cético considera impossível descobrir qualquer verdade.
D) toda dúvida deve terminar em uma resposta negativa.
E) o cético pode reconhecer que não possui conhecimento suficiente para chegar a uma conclusão definitiva.
Gabarito: E
Comentário: O cético não precisa trocar uma certeza por outra. Ele pode simplesmente reconhecer que, naquele momento, não existem razões suficientes para afirmar algo como verdadeiro. Essa posição é diferente de dizer que aquilo é necessariamente falso.
Questão 6
Um aluno diz:
“Eu não preciso ouvir os argumentos dos outros. Se eu mudei de opinião uma vez, já sei que estava errado antes e agora estou certo.”
O que há de curioso nessa fala?
A) O aluno está sempre disposto a questionar suas próprias ideias.
B) Ele reconhece que pode estar enganado novamente.
C) Ele transforma sua opinião atual em uma nova certeza absoluta.
D) Ele pratica a suspensão do julgamento.
E) Ele está recusando qualquer possibilidade de ter uma opinião.
Gabarito: C
Comentário: O problema está na certeza de que a opinião atual é definitivamente correta. Para o ceticismo, mudar de opinião não resolve necessariamente o problema se continuarmos tratando a nova posição como uma certeza incontestável.
Questão 7
Na filosofia de Pirro, a suspensão do julgamento aparece como uma resposta possível diante das dificuldades para determinar qual posição é verdadeira.
Isso quer dizer que o cético
A) não pode conversar ou discutir sobre nenhum assunto.
B) precisa considerar todas as opiniões falsas.
C) evita afirmar como certa uma posição quando não encontra razões suficientes para isso.
D) acredita que todas as opiniões possuem exatamente o mesmo valor.
E) abandona definitivamente a busca pelo conhecimento.
Gabarito: C
Comentário: Suspender o julgamento não significa abandonar o pensamento. É justamente o contrário: antes de afirmar alguma coisa como verdadeira, o cético considera se existem fundamentos suficientes para essa afirmação.
Questão 8
O ceticismo pode ser desconfortável. Afinal, estamos acostumados a procurar respostas e, quando encontramos uma, muitas vezes queremos encerrar a discussão. A Filosofia cética coloca um freio nessa pressa.
A partir disso, podemos dizer que uma das contribuições do ceticismo é
A) mostrar que duvidar pode ser uma forma de examinar melhor aquilo que acreditamos saber.
B) provar que o conhecimento humano não tem nenhuma utilidade.
C) substituir argumentos por opiniões pessoais.
D) ensinar que toda afirmação deve ser considerada falsa.
E) impedir que as pessoas procurem respostas para suas perguntas.
Gabarito: A
Comentário: A dúvida cética pode funcionar como uma espécie de “freio” para nossas certezas. Ao questionar aquilo que parece óbvio, somos levados a examinar melhor nossas razões e a reconhecer que podemos ter limites no conhecimento.
Saiba mais sobre o ceticismo.
Referências Bibliográficas
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
PORCHAT PEREIRA, Oswaldo. Rumo ao ceticismo. São Paulo: Editora UNESP, 2007.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga. São Paulo: Paulus, 2003. v. 1.
REZENDE, Antonio. Curso de filosofia: para professores e alunos dos cursos de segundo grau e de graduação. 15. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
SEXTO EMPÍRICO. Outlines of scepticism. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.
RODRIGUES, Érika. Exercícios sobre ceticismo (com gabarito comentado). Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/exercicios-sobre-ceticismo-com-gabarito-comentado/. Acesso em:
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