Exercícios sobre O Crime do Padre Amaro (com respostas comentadas)

Renata Romero
Renata Romero
Professora de Língua Portuguesa

O Crime do Padre Amaro é uma das obras mais conhecidas de Eça de Queirós e um marco do Realismo em língua portuguesa. Nesta seleção de exercícios, você poderá revisar os principais temas do romance, como a crítica à sociedade e ao clero, a construção das personagens e as características da narrativa realista. Ao final, confira as respostas comentadas para aprofundar sua compreensão da obra.

Questão 1

Leia o trecho de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós.

"Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aqueles períodos sonoros, túmidos de desejo; e no silêncio, por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amélia; o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça às costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vê-la em colete diante do toucador desfazendo as tranças; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir."

(Eça de Queirós. O Crime do Padre Amaro. cap. VI.)

Considerando o trecho e a crítica social desenvolvida ao longo do romance, é correto afirmar que Eça de Queirós sugere que:

A) a disciplina religiosa e as práticas de devoção constituem meios eficazes para eliminar os impulsos sexuais dos membros do clero.

B) o celibato clerical, ao reprimir impulsos inerentes à condição humana, favorece conflitos morais e intensifica desejos que a disciplina religiosa não consegue conter.

C) a queda moral de Amaro decorre exclusivamente da influência exercida por Amélia, personagem responsável por desviá-lo de sua vocação sacerdotal.

D) os desvios de conduta observados entre os membros do clero resultam principalmente de falhas individuais, sem relação com a organização e os valores da instituição religiosa.

E) a experiência de Amaro demonstra que a vocação religiosa, quando suficientemente sólida, prevalece sobre qualquer inclinação afetiva ou sexual.

Gabarito explicado

Resposta correta: B
Ao retratar o desejo crescente de Amaro durante a leitura de uma obra devocional, Eça de Queirós evidencia um dos principais alvos de sua crítica: a incompatibilidade entre o celibato imposto pela Igreja e os impulsos naturais do ser humano.

No romance, a repressão sexual não conduz ao domínio das paixões; ao contrário, intensifica o conflito psicológico e contribui para a degradação moral do protagonista. Assim, a obra critica não apenas as fraquezas individuais de Amaro, mas também uma instituição cujas normas favorecem a hipocrisia e a repressão dos desejos.

Questão 2

Considere o excerto:

"Entrou no seminário. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra um pouco úmidos, as lâmpadas tristes, os quartos estreitos e gradeados, as batinas negras, o silêncio regulamentado, o toque das sinetas – deram-lhe uma tristeza lúgubre, aterrada. [...] Lentamente, porém, com a sua natureza incaracterística, foi entrando como uma ovelha indolente na regra do seminário. Decorava com regularidade os seus compêndios; tinha uma exatidão prudente nos serviços eclesiásticos; e calado, encolhido, curvando-se muito baixo diante dos lentes – chegou a ter boas notas. [...] E em redor dele, sentia iguais rebeliões da natureza: os estudos, os jejuns, as penitências podiam domar o corpo, dar-lhe hábitos maquinais, mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como num ninho serpentes imperturbadas."

(QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. cap. III.)

Considerando o fragmento e a construção do protagonista ao longo do romance, é correto afirmar que a passagem evidencia:

A) a eficácia da disciplina seminarista na formação de uma vocação religiosa sólida, capaz de harmonizar plenamente fé, moral e desejo.

B) a predominância das escolhas individuais sobre as influências do meio, de modo que a trajetória de Amaro decorre exclusivamente de decisões pessoais.

C) a formação de um comportamento disciplinado e obediente no plano exterior, sem que os impulsos humanos sejam efetivamente transformados pela educação recebida.

D) a superação gradual dos conflitos interiores de Amaro, que substitui os desejos mundanos por uma espiritualidade autêntica e estável.

E) o desenvolvimento de uma personalidade crítica e independente, capaz de resistir às normas impostas pela instituição religiosa.

Gabarito explicado

Resposta: C

O fragmento evidencia que a formação seminarista atua principalmente sobre os comportamentos exteriores de Amaro, impondo-lhe disciplina, obediência e hábitos mecânicos ("hábitos maquinais", "ovelha indolente"), sem modificar sua interioridade. A imagem das "serpentes imperturbadas" sugere que os desejos permanecem latentes, apesar da repressão exercida pelo ambiente. Assim, Eça de Queirós critica uma formação religiosa baseada na disciplina externa, incapaz de transformar efetivamente a natureza humana.

Questão 3

Leia o trecho de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós.

"Ao meio-dia veio o Libaninho, o beato mais ativo de Leiria; e subindo a correr os degraus, já gritava com a sua voz fina:

— Ó S. Joaneira!

[...]

— Então, que tal, que tal? Tem bom feitio?

A S. Joaneira recomeçou a glorificação de Amaro: a sua mocidade, o seu ar piedoso, a brancura dos seus dentes...

— Coitadinho! Coitadinho! — dizia o Libaninho, babando-se de ternura devota."

(QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. cap. IV.)

Considerando o fragmento e a representação da sociedade provinciana ao longo do romance, é correto afirmar que a caracterização de personagens como Libaninho e S. Joaneira tem a função de:

A) valorizar a religiosidade popular como expressão de solidariedade, simplicidade e autenticidade das relações sociais na província portuguesa.

B) evidenciar a influência positiva da Igreja na formação moral da população de Leiria, promovendo valores éticos e coesão social.

C) demonstrar que a sociedade provinciana exerce fiscalização rigorosa sobre os membros do clero, impedindo desvios de conduta e preservando a autoridade religiosa.

D) construir uma imagem idealizada da vida em Leiria, caracterizada pela convivência harmoniosa entre os valores cristãos e a organização social.

E) satirizar uma comunidade em que a devoção religiosa se mistura ao culto das aparências, aos mexericos e à vigilância constante da vida alheia.

Gabarito explicado

Resposta correta: E

Ao retratar personagens como Libaninho e S. Joaneira, Eça de Queirós emprega a ironia e a caricatura para criticar a religiosidade superficial e o moralismo presentes na sociedade provinciana. A admiração exagerada pelo novo pároco, baseada em atributos exteriores como sua juventude e aparência, revela uma devoção mais preocupada com as aparências do que com a espiritualidade. Desse modo, o romance denuncia um ambiente em que a religião se associa aos mexericos, ao culto da imagem e à vigilância da vida privada, compondo uma sátira contundente da sociedade de Leiria.

Questão 4

Leia o trecho:

"— Hércules pela força — explicava sorrindo —, Frei pela gula.

No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cônegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra:

— É a última pitada que lhe dou!

Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado."

(QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. cap. I.)

O episódio contribui para a caracterização do clero no romance ao revelar:

A) uma comunidade religiosa profundamente comprometida com a solenidade dos ritos fúnebres e com a vivência dos princípios cristãos.

B) um ambiente clerical em que a irreverência e o apego às convenções sociais se sobrepõem à gravidade e ao espírito de recolhimento esperados de uma cerimônia religiosa.

C) um conflito doutrinário entre diferentes setores da Igreja portuguesa, responsável pelas tensões que atravessam a narrativa.

D) uma crítica à insuficiente formação intelectual do clero, incapaz de compreender plenamente o significado dos rituais litúrgicos.

E) uma demonstração de que o prestígio social dos sacerdotes decorre exclusivamente do rigor moral com que exercem suas funções religiosas.

Gabarito explicado

Resposta correta: B

Logo no início do romance, Eça de Queirós emprega a ironia para construir uma imagem crítica do clero. A piada feita durante o funeral e o riso compartilhado pelos cônegos contrastam com a solenidade própria do rito fúnebre, sugerindo um ambiente em que a formalidade religiosa convive com a superficialidade e a irreverência.

Esse episódio antecipa uma das linhas centrais da obra: a crítica à distância entre os valores que a instituição eclesiástica proclama e a conduta efetiva de muitos de seus representantes.

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Questão 5

Considere o fragmento:

"— Mas perdão, disse o ministro, Leiria, sede do bispado, uma cidade... O Sr. padre Amaro é um eclesiástico novo...

— Ora, Sr. Correia! — exclamou Teresa —, e o senhor não é novo?

O ministro sorriu, curvando-se.

[...]

— Sr. Correia — disse Teresa —, está entendido. O Sr. padre Amaro vai para Leiria!"

(QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. cap. III.)

A situação narrada no fragmento evidencia um dos aspectos centrais da crítica social desenvolvida por Eça de Queirós ao representar a sociedade portuguesa do século XIX. Nesse contexto, a nomeação de Padre Amaro para a paróquia de Leiria revela

A) um sistema de promoção eclesiástica baseado prioritariamente no mérito intelectual e na experiência pastoral dos sacerdotes.

B) a autonomia da Igreja em relação ao Estado e à aristocracia, assegurando que os cargos religiosos fossem ocupados exclusivamente por critérios espirituais.

C) a adoção de mecanismos democráticos de escolha dos párocos, fundamentados na participação da comunidade religiosa local.

D) a interferência das relações de prestígio e influência política na ocupação de cargos eclesiásticos, aproximando interesses da Igreja, da aristocracia e do Estado.

E) a resistência de Padre Amaro às recomendações da elite lisboeta, em defesa da independência da vida sacerdotal.

Gabarito explicado

Resposta correta: D

O episódio evidencia que a ascensão de Padre Amaro não decorre de sua experiência ou de seus méritos religiosos, mas da influência exercida por membros da elite junto ao Ministro da Justiça. Ao representar a proximidade entre Igreja, aristocracia e Estado, Eça de Queirós critica uma sociedade em que relações pessoais e interesses políticos interferem na ocupação de cargos eclesiásticos, comprometendo a autonomia moral das instituições.

Questão 6

Leia o fragmento a seguir:

"Amélia não se esqueceu das meias de lã do Tio Cegonha [...] Gostava tanto de festas de igreja e da convivência dos santos, que desejava ser uma ʼfreirinha, muito bonita, com um veuzinho muito brancoʼ. A mamã era muito visitada por padres [...] Foi assim crescendo entre padres."

(QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. cap. V.)

Ao reconstruir a infância de Amélia, o narrador atribui especial importância ao ambiente em que a personagem foi educada. Nesse contexto, o trecho sugere que sua formação foi marcada:

A) pelo desenvolvimento de uma religiosidade fundamentada na reflexão crítica e na autonomia moral, que lhe permite questionar a autoridade clerical ao longo do romance.

B) por uma formação predominantemente intelectual e laica, na qual a religião ocupa papel secundário em relação ao desenvolvimento de seu espírito crítico.

C) pela adoção de uma disciplina ascética rigorosa, responsável por fortalecer sua vocação religiosa e impedir conflitos entre fé e desejo.

D) por uma educação voltada à emancipação feminina, incentivando-a a romper com as convenções sociais e religiosas da sociedade portuguesa.

E) pela convivência constante com o universo religioso, favorecendo uma visão idealizada do clero e a assimilação dos valores predominantes em seu meio social.

Gabarito explicado

Resposta correta: E

Ao apresentar a infância de Amélia, Eça de Queirós evidencia a influência decisiva do meio na formação da personagem. Sua educação transcorre em estreita convivência com práticas religiosas, figuras do clero e um imaginário devocional idealizado, elementos que moldam sua percepção da realidade e de seus representantes religiosos. Assim, a reconstrução de sua infância contribui para explicar sua trajetória posterior e integra a crítica do romance aos mecanismos de formação social e moral presentes na sociedade portuguesa oitocentista.

Questão 7

Considere o excerto:

"— E a mim, o que me parece — continuou Amaro — é que nos dirijamos à autoridade!

— É o que eu tinha dito — acudiu Natário —, é necessário falar ao secretário-geral...

— Um cacete é que é! — rugiu o padre Brito. — Autoridade! O que é, é rachá-lo! Eu bebia-lhe o sangue!..."

(QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Cap. X.)

No contexto do romance, o diálogo ocorre após a divulgação de um texto jornalístico que denuncia a conduta de membros do clero de Leiria. A reação das personagens evidencia

A) a disposição dos sacerdotes para responder às acusações por meio do diálogo público e da defesa racional de sua atuação.

B) a dificuldade de aceitar as críticas da opinião pública, expressa por uma reação defensiva e hostil às denúncias feitas pela imprensa.

C) o reconhecimento da legitimidade das críticas recebidas, levando os sacerdotes a rever imediatamente suas práticas.

D) a confiança dos membros do clero na atuação imparcial das autoridades civis como meio adequado para solucionar o conflito.

E) a preocupação exclusiva dos sacerdotes com as consequências políticas da denúncia, sem que ela afete sua esfera pessoal ou institucional.

Gabarito explicado

Resposta correta: B

A denúncia publicada no jornal desencadeia uma reação marcada pela irritação e pela hostilidade dos padres, que veem na exposição pública uma ameaça ao prestígio e à autoridade do grupo. Ao construir essa cena, Eça de Queirós evidencia o caráter corporativo das relações entre os membros do clero e problematiza sua dificuldade em lidar com críticas provenientes da imprensa e da opinião pública. O episódio reforça, assim, a crítica realista às instituições e aos mecanismos de preservação de sua autoridade.

Questão 8

Leia a seguinte passagem:

"(Anos mais tarde, em Lisboa, Amaro encontra o Cônego Dias e observam a estátua de Camões e a praça cheia de vida).

— E dizer que foi aquele imbecil do barbeiro que fez tudo! — murmurava o cônego.

— O D. Diniz...

— Um imbecil!

E o padre Amaro, com o seu paletó de bom pano, a sua boa cor, olhando o movimento da Praça do Loreto, pensava com satisfação que tinha agora uma rica paróquia em Lisboa."

(Baseado no desfecho de O Crime do Padre Amaro, Cap. XXV)

O desfecho do romance mostra que, após o parto clandestino de Amélia, a morte trágica do recém-nascido (entregue à "tecedeira de anjos") e o falecimento da própria Amélia, Padre Amaro é transferido para Lisboa e continua sua carreira eclesiástica sem sobressaltos ou punições. Essa conclusão cumpre a função de:

A) mostrar a punição divina que recaiu sobre Amélia e a redenção espiritual alcançada por Padre Amaro através do arrependimento.

B) sugerir que a morte de Amélia foi um acidente inevitável da medicina da época, isentando Amaro e o Cônego Dias de qualquer responsabilidade moral ou ética.

C) apresentar um final feliz e moralizante, onde o amor trágico dos protagonistas é perdoado pela sociedade do século XIX

D) consolidar a crítica social do Realismo/Naturalismo, demonstrando que as instituições corrompidas (a Igreja e a hipocrisia burguesa) saem impunes, enquanto os mais fracos e alienados pagam com a vida.

E) exaltar a modernização da capital Lisboa em contraposição ao atraso definitivo da província de Leiria.

Gabarito explicado

Resposta correta: D

O desfecho é o ápice da crítica eciana. Não há "justiça poética" ou punição divina para os clérigos corruptos: Amélia morre, o bebê é eliminado clandestinamente, e Amaro e o Cônego Dias continuam desfrutando de boa saúde, prestígio e posições confortáveis em Lisboa. É a denúncia cabal da impunidade e da hipocrisia social.

Veja também: Exercícios de literatura para o 3º ano do Ensino Médio (com gabarito)

Referências Bibliográficas

QUEIRÓS, Eça de. O crime do Padre Amaro. 12. ed. São Paulo: Ática, 1998.

Renata Romero
Renata Romero
Professora de Língua Portuguesa, licenciada em Letras e bacharela em Estudos Literários pela UNICAMP, mestre em Teoria e Historiografia Literária e especialista em Estudos Brasileiros. Atua no Ensino Fundamental II, Ensino Médio e pré-vestibulares, produzindo e revisando conteúdos educacionais desde 2018.