Exercícios sobre Quincas Borba (questões resolvidas)

Renata Romero
Renata Romero
Professora de Língua Portuguesa

Teste seus conhecimentos sobre Quincas Borba, um dos romances mais importantes de Machado de Assis. Nesta seleção de exercícios, você revisará temas centrais da obra, como o Humanitismo, a ironia machadiana, a crítica social e a construção das personagens. Ao final, confira as respostas comentadas para compreender melhor cada questão e aprofundar seus estudos.

Questão 1

Considere o fragmento a seguir.

"— Há nas cousas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível [...]. Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. [...]

— Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. [...] Os indivíduos são essas bolhas transitórias. [...] Nada se perde, tudo é ganho."

(ASSIS, Machado de. Quincas Borba, cap. VI.)

Considerando o projeto literário de Machado de Assis e a construção da filosofia do Humanitismo no romance, é correto afirmar que o trecho:

A) apresenta a filosofia de Quincas Borba como uma verdade incontestável, reafirmando a confiança nas explicações científicas e positivistas para a organização da sociedade.

B) demonstra que Rubião compreende plenamente os princípios do Humanitismo, tornando-se capaz de aplicá-los criticamente às situações que vivencia ao longo da narrativa.

C) utiliza uma filosofia fictícia para satirizar discursos cientificistas e evolucionistas que pretendiam explicar racionalmente a sociedade, evidenciando os limites das pretensões de certeza dessas correntes de pensamento no século XIX.

D) aproxima Machado de Assis do Naturalismo, ao explicar o comportamento humano por fatores exclusivamente biológicos e hereditários.

E) confirma a defesa da competição e da eliminação dos mais fracos como princípios moralmente legítimos, posição compartilhada pelo narrador e pelo autor do romance.

Gabarito explicado

Resposta: C.

O Humanitismo é uma filosofia fictícia criada por Machado de Assis para satirizar correntes cientificistas, positivistas e evolucionistas em circulação no século XIX. Ao apresentar a guerra e a destruição como fenômenos "conservadores e benéficos", a obra ironiza discursos que procuram explicar racionalmente a sociedade e naturalizar a violência, relativizando o sofrimento humano em nome de uma suposta verdade universal.

Questão 2

Leia o fragmento a seguir.

"Rubião fitava a enseada, eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa. Cortejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas [...], para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade."

(ASSIS, Machado de. Quincas Borba, cap. I.)

A oposição entre o passado de Rubião e sua nova condição de capitalista contribui, na construção do romance, para:

A) evidenciar a vulnerabilidade do protagonista diante das relações sociais da Corte, tornando-o presa do oportunismo e da ambição de personagens que exploram sua ingenuidade.

B) demonstrar que a ascensão econômica garante a integração do indivíduo à elite carioca, assegurando-lhe reconhecimento social e realização pessoal.

C) representar o amadurecimento de Rubião, que passa a compreender os mecanismos de poder da sociedade e a utilizá-los em benefício próprio.

D) revelar a transformação ética do protagonista, que decide empregar sua fortuna em ações voltadas ao bem-estar coletivo e à justiça social.

E) simbolizar o sucesso da mobilidade social no Segundo Reinado, ao mostrar que a riqueza basta para eliminar as desigualdades entre indivíduos de diferentes origens.

Gabarito explicado

Resposta: A.

A herança recebida por Rubião possibilita sua ascensão social e sua mudança para a Corte, mas não elimina sua ingenuidade. Ao contrário, o sentimento de posse e o deslumbramento com a riqueza o tornam vulnerável às relações marcadas pelo interesse e pelo oportunismo. Personagens como Cristiano Palha e Sofia se aproximam de Rubião movidos por vantagens materiais e sociais, evidenciando a crítica machadiana à aparência, ao parasitismo social e às ilusões da ascensão econômica.

Questão 3

Considere o célebre trecho

"— Ao vencedor, as batatas! — bradava Rubião aos curiosos. — Aqui estou imperador! Ao vencedor, as batatas!"

(ASSIS, Machado de. Quincas Borba, cap. CXCIX.)

A identificação de Rubião com um imperador, associada à repetição do lema "Ao vencedor, as batatas!", desempenha, no desfecho do romance, a função de:

A) representar a recuperação emocional do protagonista, que encontra na imaginação uma forma de superar definitivamente os sofrimentos da vida.

B) demonstrar o triunfo da filosofia do Humanitismo, apresentada por Machado de Assis como uma explicação válida para o comportamento humano.

C) simbolizar a degradação psicológica de Rubião e a ironia trágica de sua trajetória, evidenciando o fracasso de suas ilusões de ascensão social e de poder.

D) expressar uma crítica direta de Machado de Assis ao governo de Napoleão III e ao imperialismo francês do século XIX.

E) indicar que Rubião simula a loucura para escapar das consequências de sua ruína financeira.

Gabarito explicado

Resposta: C.

Nos capítulos finais, Rubião perde a fortuna, o prestígio social e o equilíbrio mental. Ao proclamar-se imperador e repetir o lema "Ao vencedor, as batatas", ele incorpora de forma delirante a filosofia do Humanitismo, revelando a ironia do romance: quem acreditou ocupar a posição de vencedor termina completamente derrotado. A loucura funciona, assim, como o desfecho simbólico da crítica machadiana às ilusões da riqueza, da ambição e do poder.

Questão 4

Leia o fragmento a seguir.

"Rubião sócio do marido de Sofia, em uma casa de importação, à Rua da Alfândega, sob a firma Palha e Compa. Era o negócio que este ia propor-lhe, naquela noite, em que achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo. Apesar de fácil, Rubião recuou algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos de réis, não entendia de comércio, não lhe tinha inclinação. [...] Rubião não podia compreender os algarismos do Palha, cálculos de lucros, tabelas de preço, direitos da alfândega, nada; mas, a linguagem falada supria a escrita. Palha dizia cousas extraordinárias, aconselhava ao amigo que aproveitasse a ocasião para pôr o dinheiro a caminho, multiplicá-lo."

(ASSIS, Machado de. Quincas Borba, cap. LXIX.)

A relação entre Cristiano Palha e Rubião constitui um dos principais instrumentos da crítica social desenvolvida por Machado de Assis no romance. Essa relação caracteriza-se, sobretudo, pela

A) construção de uma sociedade comercial baseada na confiança mútua e na cooperação, permitindo a ascensão econômica de ambos os personagens.

B) exploração oportunista, em que Cristiano Palha se aproveita da ingenuidade e da inexperiência de Rubião para ampliar seu patrimônio e consolidar sua posição social.

C) rivalidade entre dois sócios que disputam o controle dos negócios e divergem quanto à administração do capital investido.

D) relação de amizade sincera, na qual Cristiano Palha administra os bens de Rubião com o objetivo de preservar sua fortuna diante dos riscos do mercado.

E) aproximação motivada pela afinidade intelectual entre os dois personagens, que compartilham os princípios do Humanitismo e procuram colocá-los em prática.

Gabarito explicado

Resposta: B.

Cristiano Palha representa um dos personagens mais oportunistas do romance. Ao perceber a ingenuidade e a inexperiência de Rubião nos negócios, aproxima-se dele para obter vantagens econômicas e ampliar seu prestígio social. Ao lado de Sofia, manipula o protagonista em benefício próprio, evidenciando a crítica machadiana às relações sociais pautadas pelo interesse, pela aparência e pelo parasitismo.

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Questão 5

Leia o trecho a seguir.

"Nunca, entretanto, lhe passou pela cabeça que o amigo chegasse a declarar amor a alguém, menos ainda a Sofia, se é que era amor deveras; podia ser gracejo de intimidade. Rubião olhava para ela muita vez, é certo; parece também que Sofia, em algumas ocasiões, pagava os olhares com outros... Concessões de moça bonita! Mas, enfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios deles."

(ASSIS, Machado de. Quincas Borba, cap. L.)

A caracterização de Sofia no romance evidencia que a personagem:

A) representa o modelo feminino passivo, alheio aos sentimentos de Rubião e às convenções sociais que regulam as relações da elite carioca.

B) rejeita o jogo de aparências característico da sociedade burguesa, orientando suas ações exclusivamente pela sinceridade afetiva e pelos deveres conjugais.

C) movimenta-se com habilidade no universo das convenções sociais, preservando as aparências e correspondendo de forma ambígua à admiração de Rubião, sem romper explicitamente os limites impostos pela etiqueta da época.

D) rompe com as expectativas sociais ao abandonar o casamento e assumir publicamente um relacionamento amoroso com Rubião.

E) simboliza a defesa explícita da emancipação feminina, contestando os papéis sociais atribuídos às mulheres na sociedade oitocentista.

Gabarito explicado

Resposta: C.

Sofia é uma personagem marcada pela ambiguidade. Embora preserve as convenções da sociedade burguesa, ela percebe a admiração de Rubião e, em alguns momentos, corresponde discretamente a essa atenção, sem ultrapassar os limites socialmente aceitos. Machado de Assis utiliza essa postura para retratar uma sociedade em que as relações são mediadas pela vaidade, pela aparência e pelos interesses, evitando construir personagens inteiramente virtuosos ou inteiramente condenáveis.

Questão 6

Leia o fragmento a seguir.

"Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vai então deitar-se a um canto, e fica ali muito tempo, calado; [...] a figura vaga do finado amigo passa-lhe acaso ao longe, muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se à do amigo atual, e parecem ambas uma só pessoa; depois outras ideias...
Mas já são muitas ideias, são ideias demais; em todo caso são ideias de cachorro, poeira de ideias, menos ainda que poeira, explicará o leitor. [...] Pobre língua humana!"

(ASSIS, Machado de. Quincas Borba, cap. XXVIII.)

A presença do cão Quincas Borba, que herda o nome de seu antigo dono, desempenha, no romance, a função de:

A) reafirmar a superioridade intelectual dos animais sobre os seres humanos, aproximando a narrativa das teorias evolucionistas do século XIX.

B) ampliar a ironia do romance ao relativizar as fronteiras entre razão e animalidade, satirizando as pretensões filosóficas do Humanitismo.

C) denunciar os maus-tratos sofridos pelos animais domésticos, fazendo dessa temática o principal eixo da crítica social machadiana.

D) recuperar um ideal romântico de fidelidade absoluta, representado pelo vínculo incondicional entre o cão e seu dono.

E) simbolizar a permanência da filosofia de Quincas Borba, plenamente compreendida e respeitada pelos demais personagens.

Gabarito explicado

Resposta: B.

Ao atribuir ao cão o mesmo nome do filósofo e, em seguida, descrever seus pensamentos com a intervenção irônica do narrador ("ideias de cachorro" e "Pobre língua humana!"), Machado de Assis desfaz a fronteira rígida entre razão e animalidade. O recurso reforça a dimensão satírica do Humanitismo e ridiculariza as pretensões de sistemas filosóficos que se apresentam como capazes de explicar integralmente a existência humana.

Questão 7

Considere o trecho

"Explicações comem tempo e papel, demonstram curiosidade do leitor, podem enfunar o autor. O melhor é ler com atenção."

(ASSIS, Machado de. Quincas Borba, cap. CVI.)

A partir do fragmento e da leitura do romance, é correto afirmar que o narrador de Quincas Borba caracteriza-se por:

A) manter uma postura estritamente objetiva, limitando-se a narrar os acontecimentos sem emitir comentários ou juízos sobre os personagens.

B) adotar uma perspectiva moralizante, recompensando as personagens virtuosas e punindo aquelas que agem de forma antiética.

C) estabelecer um diálogo constante com o leitor, recorrendo à ironia, à metalinguagem e à onisciência para problematizar as ações das personagens e as convenções sociais.

D) restringir a narrativa ao ponto de vista de Rubião, acompanhando exclusivamente sua percepção dos acontecimentos.

E) privilegiar uma linguagem sentimental e nostálgica, voltada à idealização da sociedade brasileira do Segundo Reinado.

Gabarito explicado

Resposta: C.

O narrador de Quincas Borba é um narrador em terceira pessoa que frequentemente interrompe a narrativa para dialogar com o leitor, comentar o próprio processo de narração e lançar observações irônicas sobre os personagens e a sociedade. Essa postura metalinguística e crítica é uma das marcas da prosa machadiana e contribui para questionar as aparências e as certezas do leitor, em vez de oferecer uma interpretação única dos fatos.

Questão 8

Leia o fragmento.

"— Não há morte. Encontram-se duas tribos famintas. Uma tribo de duas mil almas habita um pequeno campo que dá para mil. A outra tribo, de mil almas, habita outro pequeno campo adjacente. As duas tribos não podem viver no mesmo espaço sem destruir as poucas batatas existentes. Que faz a tribo de duas mil almas? Atravessa o campo vizinho e devora os habitantes da outra tribo. A destruição desta é a salvação daquela. Daí a alegoria: Ao vencedor, as batatas!"

(ASSIS, Machado de. Quincas Borba, Cap. VI)

Com base no fragmento e em seus conhecimentos sobre a filosofia do Humanitismo, apresentada por Quincas Borba a Rubião, assinale a alternativa correta.

A) Defender o positivismo de Auguste Comte e a seleção natural de Charles Darwin como caminhos legítimos para o progresso moral da humanidade.

B) Construir uma crítica paródica e irônica ao cientificismo e às teorias evolucionistas e ao darwinismo social, desmascarando a justificativa filosófica da barbárie e do egoísmo.

C) Propor uma nova ética religiosa fundada na solidariedade entre os povos, na qual a dor dos vencidos é superada pela compaixão universal.

D) Demonstrar a superioridade intelectual de Rubião, que consegue compreender os dogmas filosóficos do amigo e aplicá-los com sucesso em sua vida financeira.

E) Criticar o capitalismo agrário do Segundo Reinado ao utilizar a batata como metáfora para a fragilidade da economia cafeeira brasileira.

Gabarito explicado

Resposta: B.

O Humanitismo é uma invenção satírica de Machado de Assis para ridicularizar as teorias cientificistas da época (Positivismo, Darwinismo Social, Utilitarismo). Ao afirmar que a guerra e o massacre são "harmoniosos" porque alimentam o princípio universal ("Humanitas"), Machado satiriza a tentativa da elite oitocentista de racionalizar a exploração e a crueldade em nome do "progresso".

Para continuar praticando: Exercícios sobre a literatura de Machado de Assis (com gabarito)

Referências Bibliográficas

ASSIS,Machado de. Quincas Borba. Cotia, SP:Ateliê Editorial, 2016. 416 p. (Clássicos Ateliê)

Renata Romero
Renata Romero
Professora de Língua Portuguesa, licenciada em Letras e bacharela em Estudos Literários pela UNICAMP, mestre em Teoria e Historiografia Literária e especialista em Estudos Brasileiros. Atua no Ensino Fundamental II, Ensino Médio e pré-vestibulares, produzindo e revisando conteúdos educacionais desde 2018.