Exercícios sobre Durkheim (com gabarito e comentários)
Émile Durkheim (1858–1917) foi um dos fundadores da Sociologia como ciência. Professor na França, defendeu que os fenômenos sociais têm existência própria e devem ser estudados com método, “como coisas”. Suas obras sobre divisão do trabalho, suicídio e religião estabeleceram conceitos e procedimentos que até hoje orientam pesquisas sobre coesão, normas e instituições.
Questão 1
“Fato social é uma maneira de pensar, sentir e agir que exercem uma força externa (uma coerção) sobre os indivíduos. Para Durkheim, a sociedade precederia os indivíduos e agiria sobre eles, determinando a maneira de ser deles. Assim, um fato social poderia ser reconhecível com base na coerção social imposta a um ou mais indivíduos.”
(Igor José de R. Machado, Sociologia)
Segundo Durkheim, um exemplo adequado de “fato social” é:
A) a lei penal que se aplica a todos e impõe sanções.
B) sentimentos privados que ninguém conhece.
C) preferências pessoais de lazer que mudam diariamente.
D) gostos musicais de um pequeno grupo de amigos.
E) decisões individuais sobre acordar cedo ou tarde.
A lei penal é geral, externa ao indivíduo e coercitiva, exatamente os três critérios que Durkheim usa para identificar um fato social (generalidade, exterioridade e coerção), presentes de modo claro no direito penal, que se impõe aos indivíduos independentemente de sua vontade.
Questão 2
“Na análise dos fenômenos sociais como “coisas”, o pesquisador deve abandonar as pré-noções e a pressuposição do significado ou caráter de uma prática ou instituição social. Deve ser objetivo e estabelecer, por meio da investigação, o próprio significado do fenômeno estudado[...] Para explicar um fenômeno social, deve-se procurar a causa que o produz e a função que desempenha.”
(Eva Maria Lakatos e Marina de Andrade Marconi, Sociologia Geral).
Do ponto de vista metodológico, Durkheim propõe que o sociólogo:
A) apoie-se em opiniões comuns para ganhar tempo.
B) parta de valores pessoais para julgar os fatos.
C) abandone pré-noções e busque causas e funções sociais.
D) compare apenas relatos individuais.
E) interprete símbolos sem evidências empíricas.
O método durkheimiano exige objetividade: tratar os fatos sociais “como coisas”, evitar pré-noções e investigar causas (em fatos anteriores) e funções (efeitos sociais).
Questão 3
“A solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica são diferentes estratégias de integração[...] Na primeira, a regulação moral decorre da consciência coletiva; na segunda, a moralidade social emana da própria divisão do trabalho[...] [Elas] correspondem a modelos jurídicos: direito repressivo (mecânica) e restitutivo (orgânica).”
(Carlos Eduardo Sell, Sociologia clássica)
Assinale a alternativa que melhor diferencia os dois tipos de solidariedade.
A) Mecânica = diversidade; Orgânica = semelhança.
B) Mecânica = contratos; Orgânica = punições exemplares.
C) Ambas dependem de pouca divisão do trabalho.
D) Mecânica = consciência coletiva forte; Orgânica = interdependência funcional pela divisão do trabalho.
E) Ambas usam apenas sanções repressivas.
Conforme Durkheim, solidariedade mecânica é a coesão pela semelhança e consciência coletiva. Já a solidariedade orgânica é a coesão pela diferenciação funcional (cada parte depende das outras) e o predomínio do direito restitutivo. Em sociedades modernas, a coesão depende mais da divisão do trabalho do que de todos pensarem da mesma forma.
Questão 4
“A especialização das funções acarreta o declínio da consciência coletiva que ainda não havia sido substituída por novos valores adaptados aos diversos órgãos da sociedade. [Na obra A divisão do trabalho social], Durkheim sustenta que a anomia seria um fenômeno passageiro, fruto de um desajuste temporário na integração das tarefas econômico-sociais. Em momento posterior, na obra O Suicídio, Durkheim reformula o conceito como um problema endêmico do mundo moderno, resultado do enfraquecimento da regulação moral das condutas sociais.”
(Carlos Eduardo Sell, Sociologia clássica)
No quadro durkheimiano, a anomia se relaciona a:
A) excesso de valor atribuído a condutas éticas.
B) fragilidade de normas que regulam desejos e condutas.
C) punições mais severas no direito penal.
D) retorno da consciência coletiva tradicional.
E) crescimento do altruísmo em sociedades desiguais.
Anomia (do gregom, privado de nomos, ou de "regras") é sinônimo de desregramento: quando faltam normas estáveis para orientar expectativas e desejos, cresce o risco de conflito e desagregação social. Um exemplo seriam as crises econômicas que mudam a sociedade rapidamente.
Questão 5
“a primeira regra e a mais fundamental é a de considerar os fatos sociais como coisas […] Devemos, portanto, considerar os fenômenos sociais em si mesmos, desligados dos sujeitos conscientes que, eventualmente, possam ter as suas representações; é preciso estudá-los de fora, como coisas exteriores, porquanto é nesta qualidade que eles se nos apresentam.”
(Émile Durkheim, As regras do método sociológico)
Segundo Durkheim, a orientação metodológica expressa no trecho implica que o sociólogo deve:
A) priorizar interpretações subjetivas dos agentes.
B) explicar fatos sociais por causas psicológicas individuais.
C) abandonar qualquer comparação histórica.
D) tratar os fatos sociais como objetos externos, analisando-os com objetividade.
E) reduzir a análise sociológica a opiniões comuns.
No trecho, Durkheim estabelece sua “primeira regra”: considerar os fatos sociais como coisas, isto é, objetos exteriores e coercitivos que devem ser analisados “de fora”, com método objetivo, sem se confundir com representações subjetivas dos indivíduos. Isso afasta explicações psicológicas ou opiniões do senso comum e fundamenta a autonomia científica da Sociologia.
Questão 6
“Durkheim, ao estabelecer as regras de distinção entre o normal e o patológico, propôs: um fato social é normal, para um tipo social determinado, quando considerado numa determinada fase de seu desenvolvimento, desde que se apresente na média das sociedades da mesma categoria, e na mesma fase de sua evolução.”
(Eva Maria Lakatos e Marina de Andrade Marconi, Sociologia Geral)
Para Durkheim, algo considerado “patológico” em uma sociedade:
A) é patológico sempre que desagrada moralmente.
B) depende do julgamento individual do pesquisador.
C) não pode ser verificado por meio da investigação sociológica.
D) é definido temporal e espacialmente em cada sociedade
E) torna-se patológico quando excede níveis médios esperados em sociedades comparáveis.
Para Durkheim, a distinção entre normal e patológico é comparativa e estatística. Um fato social é normal quando se apresenta na média das sociedades do mesmo tipo e estágio de evolução. Ele torna‑se patológico quando excede essa média, desestabilizando a vida coletiva.
Questão 7
“Segundo Durkheim, o desenvolvimento da divisão do trabalho pode ser de tipo anômico, ou seja, em que conflitos e tensões entre as classes sociais ou mesmo crises econômicas seriam expressões de que a divisão do trabalho estaria fugindo de seu desenvolvimento normal e precisaria de regulamentações sociais que restituíssem a sua funcionalidade.”
(Igor José de R. Machado, Sociologia)
O papel das corporações profissionais, na proposta de Durkheim, é:
A) abolir sindicatos de trabalhadores e negociações laborais.
B) mediar conflitos e reforçar normas para restaurar a funcionalidade social.
C) substituir o Estado por um conjunto de regras ligadas a cada ofício.
D) promover competição sem regras.
E) privatizar as leis do trabalho, de modo que cada categoria possa definir suas regras.
No contexto do que Durkheim trata por “anomia” (falta de regras), as corporações (sindicatos/associações de trabalhadores) reconstroem normas, negociam interesses e reduzem tensões entre grupos profissionais.
Questão 8
Na obra Formas Elementares da Vida Religiosa, Durkheim entende a religião como um fato social: um sistema de crenças e práticas que distingue sagrado e profano e integra o grupo (rituais, símbolos). O foco não é provar a verdade de crenças, mas explicar sua função na coesão social.
Segundo essa perspectiva, a religião é interpretada como:
A) uma experiência individual, cuja dimensão social não pode ser plenamente compreendida.
B) um conjunto de dogmas cuja verdade científica não pode ser comprovada.
C) um sistema coletivo de práticas e crenças que cria coesão ao separar sagrado e profano.
D) uma escolha privada de líderes religiosos, com poucos efeitos no grupo.
E) uma prática irracional e não científica.
Durkheim analisa a religião funcionalmente. Para o sociólogo, rituais e crenças produzem solidariedade ao delimitar o sagrado (respeito/proibição) e o profano (vida comum). Para Durkheim, ao venerar o sagrado, o grupo venera a si mesmo, reforçando o caráter coletivo da religião.
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Referências Bibliográficas
ALLEN, Kieran; O’BOYLE, Brian. Durkheim: A Critical Introduction. London: Pluto Press, 2019
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2003
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. In Coleção Os Pensadores, Durkheim. São Paulo: Abril Cultural, 1978
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1999
DURKHEIM, Émile. O suicídio. Trad. Monica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 2000
MACHADO, Igor José de R. (Org.). Sociologia. São Paulo: Saraiva Educação, 2026
LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Sociologia geral. São Paulo: Atlas, 2001
SELL, Carlos Eduardo. Sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber. Petrópolis: Vozes, 2013
ORSI, Diogo. Exercícios sobre Durkheim (com gabarito e comentários). Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/exercicios-sobre-durkheim-com-gabarito-e-comentarios/. Acesso em: