Exercícios sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas (com gabarito explicado)
Publicado em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas inaugura o Realismo brasileiro e representa uma profunda ruptura com os modelos narrativos do Romantismo.
Ao criar um narrador que escreve suas memórias após a morte, Machado de Assis constrói uma narrativa inovadora, marcada pela ironia, pela fragmentação, pelas constantes digressões e pelo diálogo direto com o leitor. Mais do que contar a história de um homem, o romance analisa criticamente a sociedade brasileira do século XIX, expondo suas contradições, sua hipocrisia e o vazio moral das elites.
As questões a seguir exigem leitura atenta da obra e compreensão de seus aspectos formais e temáticos.
Questão 1
Leia o trecho adaptado.
"A obra se inicia pela morte do protagonista. Somente depois de morto, Brás Cubas decide narrar sua própria vida, justificando que, livre das conveniências sociais, poderá dizer aquilo que os vivos normalmente ocultam."
A escolha do defunto-autor como narrador produz um efeito literário que ultrapassa a simples originalidade estrutural. Considerando o projeto estético do Realismo machadiano, assinale a alternativa que melhor interpreta essa estratégia narrativa.
A) A morte do narrador aproxima a narrativa do romance fantástico, deslocando o foco da crítica social para o sobrenatural.
B) O narrador assume uma posição de aparente independência diante dos valores sociais, utilizando a morte como recurso para ironizar indivíduos, instituições e a própria condição humana.
C) A condição de morto confere ao narrador absoluta objetividade, eliminando qualquer traço de subjetividade na narrativa.
D) O narrador busca convencer o leitor de que sua história constitui um documento histórico fiel da sociedade brasileira.
A figura do defunto-autor constitui uma das maiores inovações da literatura brasileira. Ao narrar sua vida após a morte, Brás Cubas afirma estar livre das convenções sociais, o que lhe permite analisar criticamente a si mesmo, os demais personagens e a sociedade do Segundo Reinado. A morte funciona como um recurso estético que amplia a ironia e fortalece a crítica social, e não como elemento fantástico.
Questão 2
Leia o fragmento.
"Machado de Assis frequentemente interrompe o desenvolvimento da narrativa para que Brás Cubas dialogue com o leitor, comente a escrita do próprio romance ou reflita sobre acontecimentos aparentemente secundários."
Considerando esse procedimento, é correto afirmar que as digressões
A) representam falhas na organização do romance, prejudicando sua unidade narrativa.
B) constituem um recurso típico do Romantismo, empregado para intensificar o sentimentalismo da narrativa.
C) colaboram para a construção de uma narrativa autorreflexiva, na qual o ato de narrar torna-se tão importante quanto os acontecimentos narrados.
D) servem apenas para retardar o desenlace da história, sem produzir efeitos interpretativos.
As digressões interrompem a sequência narrativa para que o narrador dialogue com o leitor, reflita sobre a escrita do romance ou comente questões filosóficas e existenciais. Dessa forma, o ato de narrar torna-se parte da própria narrativa, rompendo com o modelo tradicional do romance oitocentista.
Questão 3
A ironia constitui um dos principais mecanismos discursivos de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Em vez de formular críticas diretas, Machado de Assis frequentemente permite que o próprio narrador revele, por meio de suas atitudes e comentários, as contradições da elite oitocentista.
Nesse contexto, a ironia machadiana consiste, sobretudo,
A) na ridicularização exclusiva das classes populares.
B) na construção de um narrador cujas confissões frequentemente desmentem a imagem positiva que ele pretende construir de si mesmo.
C) na exaltação moral da burguesia brasileira.
D) na substituição da análise psicológica pela descrição objetiva dos ambientes.
A ironia machadiana nasce, muitas vezes, da distância entre aquilo que Brás Cubas afirma sobre si e aquilo que suas atitudes revelam ao leitor. O narrador tenta justificar seus comportamentos, mas acaba expondo sua vaidade, egoísmo e superficialidade. Essa estratégia transforma o leitor em participante ativo da construção do sentido da obra.
Questão 4
Ao longo do romance, Brás Cubas altera constantemente a ordem cronológica dos acontecimentos, antecipando fatos, retomando lembranças e interrompendo episódios para comentar suas próprias escolhas narrativas.
Essa estrutura evidencia,
A) a permanência do modelo narrativo clássico, baseado na linearidade temporal.
B) a influência exclusiva do Naturalismo francês.
C) uma ruptura deliberada com a organização cronológica tradicional, reforçando o caráter reflexivo da narrativa.
D) uma tentativa de aproximar o romance da narrativa histórica.
A narrativa rompe deliberadamente com a ordem cronológica dos acontecimentos. Machado organiza o romance por meio de capítulos curtos, constantes retomadas, antecipações e interrupções, privilegiando a reflexão em detrimento da sequência temporal linear. Trata-se de uma importante inovação formal do Realismo brasileiro.
Questão 5
Leia.
Virgília mantém um relacionamento extraconjugal com Brás Cubas durante parte significativa da narrativa. Embora ambos demonstrem afeição, suas escolhas são frequentemente orientadas por interesses sociais e pessoais.
A representação dessa relação amorosa revela uma concepção de personagem característica do Realismo porque:
A) idealiza o amor como força capaz de superar qualquer conflito social.
B) apresenta personagens psicologicamente contraditórios, cujas ações são determinadas por desejos, ambições e conveniências.
C) transforma Virgília na heroína virtuosa típica do Romantismo.
D) elimina completamente os conflitos morais presentes na narrativa.
O relacionamento entre Brás Cubas e Virgília rompe com a idealização amorosa do Romantismo. Ambos são personagens complexos, movidos por interesses, desejos pessoais, ambições políticas e conveniências sociais. Machado substitui o amor idealizado pela investigação psicológica das motivações humanas.
Questão 6
Quincas Borba desempenha papel fundamental na construção da visão de mundo apresentada por Machado de Assis. Além de amigo de Brás Cubas, torna-se responsável pela formulação do Humanitismo, filosofia marcada por forte tom satírico.
No contexto do romance, essa filosofia deve ser compreendida como:
A) uma defesa sincera do progresso científico e das teorias positivistas.
B) uma crítica irônica às teorias filosóficas e científicas que buscavam justificar as desigualdades sociais como fenômenos naturais.
C) um sistema religioso destinado à regeneração moral da humanidade.
D) uma explicação metafísica que resolve os conflitos existenciais do protagonista.
O Humanitismo, elaborado por Quincas Borba, constitui uma filosofia fictícia construída por Machado de Assis para satirizar as teorias científicas e filosóficas do século XIX que pretendiam explicar ou justificar as desigualdades humanas. Ao exagerar seus princípios, Machado revela o caráter absurdo dessas concepções.
Questão 7
Diversos estudiosos afirmam que Brás Cubas não é um narrador plenamente confiável. Essa afirmação decorre, principalmente,
A) da presença constante de contradições, omissões, autojustificativas e comentários que colocam em dúvida a sinceridade de suas memórias.
B) do fato de o narrador desconhecer os acontecimentos de sua própria vida.
C) da utilização predominante do discurso indireto livre.
D) da ausência de qualquer análise psicológica das personagens.
Brás Cubas é considerado um narrador não confiável, pois frequentemente manipula os fatos, omite informações, contradiz a si mesmo e tenta convencer o leitor de determinadas interpretações. Cabe ao leitor perceber as incoerências entre o discurso do narrador e suas ações, realizando uma leitura crítica da obra.
Questão 8
Leia o texto crítico.
"Ao romper com a idealização romântica, Machado de Assis desloca o interesse da narrativa para a investigação das motivações humanas, revelando personagens marcados pela vaidade, pelo egoísmo e pela instabilidade moral."
A leitura do romance permite concluir que o triângulo Brás Cubas – Virgília – Quincas Borba ultrapassa a função de mero conflito amoroso porque:
A) organiza uma narrativa de aventuras centrada exclusivamente no entretenimento do leitor.
B) evidencia diferentes formas de compreender a existência humana, articulando desejo, poder, ambição, filosofia e crítica à sociedade brasileira do Segundo Reinado.
C) reafirma os valores morais tradicionais defendidos pela literatura romântica.
D) limita-se à caracterização psicológica de três indivíduos, sem relação com a crítica social presente na obra.
O triângulo envolvendo Brás Cubas, Virgília e Quincas Borba ultrapassa o simples conflito amoroso. Enquanto Brás Cubas representa a elite ociosa e vaidosa, Virgília evidencia as relações condicionadas pelas conveniências sociais e Quincas Borba amplia a reflexão filosófica da narrativa por meio do Humanitismo. Em conjunto, essas personagens contribuem para a crítica às estruturas sociais, políticas e morais do Brasil oitocentista.
Veja também:
Resumo e análise de Memórias Póstumas de Brás Cubas
Exercícios sobre Dom Casmurro para o ENEM (com gabarito explicado)
Referências Bibliográficas
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 52. ed. São Paulo: Cultrix, 2017.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: Ministério da Educação, 2018.
CANDIDO, Antonio. Esquema de Machado de Assis. In: ______. Vários Escritos. 6. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. 15. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2017.
CEREJA, William Roberto; VIANNA, Carolina Dias. Português: Linguagens – Ensino Médio. 10. ed. São Paulo: Atual, 2020.
GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
SCHWARZ, Roberto. Um Mestre na Periferia do Capitalismo: Machado de Assis. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2000.
MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira: Realismo e Simbolismo. São Paulo: Cultrix, 2016.
SAMPAIO, Mariana. Exercícios sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas (com gabarito explicado). Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/exercicios-sobre-memorias-postumas-de-bras-cubas-com-gabarito-explicado/. Acesso em: