Exercícios sobre O Alienista para o ENEM (com respostas explicadas)

Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Português e Literatura

Confira a seguir os exercícios sobre o texto de Machado de Assis "O Alienista". Treine seus conhecimentos sobre a obra com a ajuda das respostas comentadas.

Questão 1

– Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas, se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós em comissão dos outros a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos nem a rebeldes.

ASSIS, Machado. O Alienista.

A defesa insistente da ciência realizada por Simão Bacamarte ao longo da narrativa contribui para construir uma crítica à

a) valorização dos conhecimentos populares.

b) racionalidade cega como forma de explicar a vida social.

c) influência religiosa sobre a medicina oitocentista.

d) ausência de métodos científicos no século XIX.

e) valorização das experiências subjetivas.

Gabarito explicado

Machado constrói Bacamarte como representação caricatural do cientificismo do século XIX. A questão exige perceber que o problema não é a ciência em si, mas sua aplicação excessivamente rígida e autoritária. O romance ironiza a crença de que todos os comportamentos humanos poderiam ser classificados e controlados por métodos científicos.

Questão 2

E tinha razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus realces de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! Um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!

A ampliação progressiva do número de internados na Casa Verde evidencia que a definição de loucura apresentada na obra é

a) objetiva e biologicamente comprovável.

b) limitada aos casos clínicos graves.

c) instável e dependente dos critérios de quem exerce poder.

d) fundamentada exclusivamente em princípios religiosos.

e) baseada apenas na opinião popular.

Gabarito explicado

À medida que Bacamarte amplia seus critérios diagnósticos, a narrativa mostra como categorias aparentemente científicas podem tornar-se arbitrárias. A obra questiona quem possui legitimidade para definir normalidade e desvio.

Questão 3

Sobre o lábio fino e discreto do alienista rogou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. A ciência contentou-se em estender a mão à teologia com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução.

O exagero presente nesse tipo de construção narrativa produz um efeito característico da obra machadiana ao

a) intensificar a objetividade científica.

b) reforçar o sentimentalismo romântico.

c) aproximar a narrativa do Naturalismo.

d) eliminar ambiguidades interpretativas.

e) construir humor crítico por meio da ironia.

Gabarito explicado

Machado utiliza exageros calculados para expor o absurdo das situações. O contraste entre a pequena Itaguaí e a dimensão universal do conflito cria comicidade e crítica social simultaneamente.

Questão 4

Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. Cárcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itaguaí a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu à captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas, duas ou três de consideração, foram recolhidas à Casa Verde. O alienista dizia que só eram admitidos os casos patológicos, mas pouca gente lhe dava crédito. Sucediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio médico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguaí qualquer gérmen de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e míngua daquela cidade, mil outras explicações, que não explicavam nada, tal era o produto diário da imaginação pública.

A atuação de Simão Bacamarte permite interpretar a Casa Verde como símbolo de

a) liberdade intelectual.

b) democratização do conhecimento médico.

c) mecanismos de vigilância e controle social.

d) valorização das diferenças individuais.

e) autonomia política da população.

Gabarito explicado

A instituição psiquiátrica torna-se espaço de autoridade e disciplinamento. A narrativa questiona o uso do discurso científico para legitimar práticas de exclusão e controle.

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Questão 5

Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara; acrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que ele os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido entusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial manifestação e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as crônicas que D. Evarista a princípio tivera ideia de separar-se do consorte, mas a dor de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer ressentimento de amor-próprio e o casal veio a ser ainda mais feliz do que antes.

Expressões como “Dizem as crônicas” contribuem para que o narrador construa uma postura de

a) valorização exclusiva da oralidade.

b) participação emocional intensa.

c) defesa explícita de Bacamarte.

d) distanciamento irônico dos acontecimentos.

e) neutralidade absoluta.

Gabarito explicado

O narrador frequentemente parece relatar fatos com distância, mas essa postura cria ironia. Esse recurso permite questionar personagens e acontecimentos sem recorrer a críticas diretas.

Questão 6

O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:

—Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.

Ao satirizar instituições e personagens, a obra aproxima-se de uma crítica voltada para

a) estruturas políticas, científicas e sociais do período.

b) acontecimentos exclusivamente familiares.

c) conflitos amorosos individuais.

d) tradições indígenas brasileiras.

e) aventuras heroicas nacionalistas.

Gabarito explicado

A sátira de Machado ultrapassa indivíduos específicos e questiona instituições, discursos científicos e relações de poder presentes na sociedade oitocentista.

Questão 7

A assembléia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o Padre Lopes. explicou tudo com este conceito digno de um observador:

—Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras:—a modéstia.

Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato continuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.

O encerramento da narrativa produz efeito crítico porque

a) confirma definitivamente as teorias científicas do protagonista.

b) inverte a lógica construída anteriormente.

c) abandona o humor presente na obra.

d) elimina ambiguidades interpretativas.

e) transforma Bacamarte em herói romântico.

Gabarito explicado

Quando Bacamarte passa a considerar a si próprio objeto de estudo, a narrativa radicaliza sua crítica. O desfecho produz circularidade e ironia, colocando em dúvida todas as classificações anteriores.

Saiba mais em: O Alienista

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Rodrigo Luis
Rodrigo Luis
Professor de Língua Portuguesa e Literatura formado pela Universidade de São Paulo (USP) e graduando na área de Pedagogia (FE-USP). Atua, desde 2017, dentro da sala de aula e na produção de materiais didáticos.