Marx, Weber e Durkheim: como cada um explica o trabalho

Érika Rodrigues
Érika Rodrigues
Professora de Filosofia e Sociologia

O trabalho ocupa um lugar central na vida em sociedade. É por meio dele que os seres humanos produzem bens e serviços, garantem sua sobrevivência e participam da organização da vida coletiva. No entanto, trabalhar não significa apenas produzir ou receber um salário. As relações de trabalho também envolvem poder, desigualdade, cooperação, valores e formas de organização da sociedade. Por isso, o trabalho se tornou uma questão importante para os primeiros grandes pensadores da Sociologia.

Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber analisaram essas transformações a partir de perspectivas diferentes. Marx procurou compreender as relações de exploração e alienação presentes no trabalho capitalista; Durkheim investigou como a divisão do trabalho poderia contribuir para a integração social; e Weber buscou entender os sentidos e valores que orientam as ações dos indivíduos, inclusive sua relação com o trabalho.

Comparar os três autores ajuda a perceber que um mesmo fenômeno social pode ser explicado a partir de perguntas e conceitos diferentes.

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O trabalho como problema sociológico

A industrialização transformou profundamente o mundo do trabalho. A expansão das fábricas, o crescimento do trabalho assalariado e a divisão cada vez maior das tarefas modificaram as relações entre trabalhadores, proprietários e demais grupos sociais

O trabalho passou a ocupar um lugar central na sociedade moderna, mas também trouxe questões que precisavam ser compreendidas: por que existem relações de exploração? A especialização das tarefas aproxima ou separa as pessoas? Por que determinados indivíduos consideram o trabalho um dever ou uma vocação?

É justamente a partir dessas questões que Marx, Durkheim e Weber desenvolveram interpretações diferentes.

Para Marx, o principal problema está nas relações de classe e na possibilidade de o trabalhador perder o controle sobre aquilo que produz.

Para Durkheim, é preciso compreender como a divisão do trabalho modifica os vínculos entre os indivíduos e contribui para a organização da sociedade.

Já Weber chama atenção para os significados, valores e crenças que orientam as ações humanas, mostrando que o trabalho também pode ser entendido como uma atividade à qual as pessoas atribuem determinado sentido.

Marx: o trabalho que aliena

Karl Marx entende o trabalho como uma atividade fundamental para a existência humana. Por meio dele, os seres humanos transformam a natureza, produzem objetos e criam as condições necessárias para sua vida.

O problema, para Marx, aparece nas relações de produção do capitalismo, nas quais o trabalhador não controla os meios de produção nem decide livremente sobre o resultado de sua atividade. Ele vende sua força de trabalho em troca de um salário, enquanto os produtos e os meios de produção pertencem aos proprietários.

É nesse contexto que Marx desenvolve o conceito de alienação. O trabalhador pode se tornar separado do produto que produz, da própria atividade de trabalho e, em sentido mais amplo, de sua própria realização humana. Em uma fábrica, por exemplo, uma pessoa pode executar repetidamente uma pequena etapa da produção sem controlar o processo como um todo e sem se apropriar do objeto produzido.

A crítica de Marx está relacionada, portanto, às relações entre trabalho, propriedade, classes sociais e exploração, incluindo o conceito de mais-valia, que ajuda a explicar como o trabalho participa da produção de valor no capitalismo.

Veja também: O que é a Alienação do Trabalho para Marx?

Durkheim: o trabalho que integra

Émile Durkheim parte de uma preocupação diferente. Em vez de perguntar principalmente quem se apropria do resultado do trabalho, ele procura compreender como uma sociedade formada por indivíduos cada vez mais diferentes consegue permanecer unida.

Em Da Divisão do Trabalho Social, Durkheim mostra que a especialização das atividades não possui apenas uma função econômica: ela também cria relações de dependência entre as pessoas. Um médico, por exemplo, depende de profissionais de outras áreas para que um hospital funcione, assim como diferentes trabalhadores dependem uns dos outros em uma sociedade complexa.

Essa forma de organização está relacionada à solidariedade orgânica, característica das sociedades modernas, nas quais a coesão social depende mais da interdependência entre indivíduos que desempenham funções diferentes.

Durkheim também reconhece que a divisão do trabalho pode apresentar problemas quando as relações sociais não são adequadamente reguladas. É nesse contexto que aparece o conceito de anomia, associado ao enfraquecimento ou à insuficiência das normas capazes de orientar as relações entre os indivíduos.

Weber: o trabalho que ganha sentido

Max Weber acrescenta outra perspectiva à análise do trabalho: a necessidade de compreender o sentido que os indivíduos atribuem às suas ações. Para Weber, não basta observar que uma pessoa trabalha; é importante investigar por que ela age daquela maneira e quais valores, crenças ou objetivos orientam sua conduta. Essa preocupação aparece em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, obra na qual o autor analisa a relação histórica entre determinadas formas de protestantismo ascético e uma conduta marcada pela disciplina, pela valorização do trabalho e pela ideia de vocação.

A palavra alemã Beruf, utilizada por Weber, pode ser relacionada tanto à profissão quanto à ideia de vocação ou chamado. Nesse contexto, o trabalho poderia ser compreendido como uma atividade que deveria ser realizada de maneira disciplinada, metódica e responsável.

Weber não afirma simplesmente que o protestantismo criou o capitalismo; sua análise procura mostrar como determinados valores religiosos contribuíram historicamente para uma forma de conduta que se relacionou com o desenvolvimento do capitalismo moderno. Por isso, sua análise do trabalho envolve conceitos como ação social, sentido, racionalização, vocação e ética protestante.

Marx, Durkheim e Weber: quadro comparativo

Quadro comparativo
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Uma maneira simples de diferenciar os três autores é observar a pergunta que cada um coloca diante do trabalho.

Marx concentra sua análise nas relações de produção, no conflito entre classes e na possibilidade de alienação e exploração.

Durkheim chama atenção para a especialização das funções e para as relações de interdependência que podem contribuir para a coesão social.

Weber, por sua vez, procura compreender os significados e valores que orientam as ações dos indivíduos e ajudam a explicar determinadas formas de organização da vida profissional.

Como esse tema cai no ENEM

No ENEM, Marx, Durkheim e Weber podem aparecer em questões que apresentam situações do cotidiano, transformações no mundo do trabalho, textos de autores ou exemplos de relações profissionais.

Muitas vezes, a questão não apresenta diretamente o nome do conceito: o estudante precisa identificar a ideia sociológica presente no enunciado. Por isso, mais importante do que decorar definições isoladas é reconhecer qual problema está sendo discutido.

Se o foco estiver na exploração, na desigualdade entre classes, na propriedade dos meios de produção ou na perda de controle do trabalhador sobre sua atividade, a questão provavelmente estará relacionada a Marx e ao conceito de alienação.

Se aparecer a especialização das funções, a interdependência entre trabalhadores ou a integração da sociedade, pense em Durkheim e na solidariedade orgânica.

Já quando o enunciado destacar valores, crenças, sentidos atribuídos às ações, vocação ou racionalização, a referência pode estar relacionada a Weber.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação. Orientações curriculares para o Ensino Médio: Ciências Humanas e suas Tecnologias. Brasília: MEC/SEB.

DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Currículo do Estado de São Paulo: Ciências Humanas e suas Tecnologias – Sociologia. São Paulo: SEE, 2012.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.

Érika Rodrigues
Érika Rodrigues
Professora de Filosofia, licenciada e com experiência na rede pública do Estado de São Paulo. Atua na educação básica há mais de 5 anos, com foco em práticas críticas e formação cidadã.

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