O Ateneu de Raul Pompeia: resumo e análise da obra

Daniela Diana

O Ateneu é uma obra do escritor Raul Pompeia (1863-1895) que foi publicada em folhetins no ano de 1888.

Ela faz parte do movimento realista no Brasil, sendo uma das mais importantes do período.

Personagens da obra

  • Sérgio: protagonista e narrador da história.
  • Senhor Aristarco: pedagogo e rígido diretor do colégio.
  • Dona Ema: esposa do diretor.
  • Rebelo: aluno muito aplicado do colégio.
  • Sanches: colega de Sérgio e estudante do colégio.
  • Franco: colega travesso de Sérgio e estudante do colégio.
  • Barreto: colega beato de Sérgio e estudante do colégio.
  • Egbert: amigo verdadeiro de Sérgio.
  • Américo: novo aluno do colégio e possível responsável pelo incêndio.
  • Ângela: bela funcionária espanhola do colégio.
  • Bento Alves: bibliotecário do colégio e amigo de Sérgio.

Resumo da obra O Ateneu

Sérgio é o protagonista da história. A obra narra a trajetória dele (cerca de 2 anos) desde quando foi matriculado no colégio interno chamado Ateneu, com 11 anos.

A história, que se passa no século XIX no Brasil, tem como espaço o Rio de Janeiro, mais precisamente o bairro do Rio Comprido.

O romance tem início com a visita de Sérgio ao colégio. Nas palavras de seu pai: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”

Ao lado de seu pai ele conhece primeiramente a esposa do diretor, Dona Ema.

Nesse momento ele já nota o tipo de educação do colégio, de modo que a senhora lhe pede para cortar o cabelo.

Mediante a pressão do novo ambiente, no momento em que Sérgio é apresentado à turma, ele desmaia.

Ali, ele aprende desde cedo mediante uma rígida disciplina, voltada para o desenvolvimento da educação moral.

Com o tempo, ele vai conhecendo melhor o local e seus colegas. Primeiramente, teve uma amizade com o bom aluno Sanches.

No entanto, uma briga entre eles fez com que se separassem. A partir desse momento, Sérgio, que estudava com Sanches, passa a tirar notas baixas.

Sérgio conhece Franco, outro aluno do colégio. Este sempre estava se metendo em encrenca e, como resultado de uma de suas ações, os dois são chamados pelo diretor de meninos travessos.

Enquanto Franco estava jogando lascas de vidro na piscina, Sérgio se afasta dele, mas acaba levando a culpa também.

Mais tarde, começa a se aproximar do estudante Barreto. Este possuía uma grande fé, o que acaba influenciando Sérgio.

Por influência do colega, ele começa a jejuar e rezar, mas mesmo assim suas notas continuam baixas.

Diante disso, ele se revolta contra Deus e começa a se afastar de todos os colegas. Mais tarde, aproxima-se de Egbert, um bom aluno do colégio e seu verdadeiro amigo.

A amizade deles estava alicerçada na sinceridade e na compreensão mútua. Quase no fim do romance, Sérgio revela seu amor platônico por Ema, a esposa do diretor do colégio.

A história termina com um incêndio no colégio e a fuga de Ema, a esposa do diretor. Esse evento pôs fim a história do Ateneu.

Confira a obra na íntegra, fazendo o download do PDF aqui: O Ateneu.

Características da obra

O Ateneu é dividido em 12 capítulos e possui o subtítulo “Crônica de saudades”. A obra está repleta de descrições físicas e psicológicas, tal qual o local em que se passa a história e os personagens que envolvem a trama.

A linguagem é densa, rebuscada e repleta de descrições, bem como de figuras de linguagem (metáforas, hipérboles, comparação). O espaço principal é o colégio, embora existam algumas passagens fora dele.

Sérgio é o narrador que já adulto revela suas experiências quando era interno do colégio Ateneu.

Portanto, a obra possui um narrador-personagem que é o protagonista da história. Por isso, a narração é feita em primeira pessoa.

Embora apresente características do realismo (linguagem objetiva e descrições minuciosas), notam-se aspectos da estética naturalista.

Algumas das características naturalistas presente na obra são: aspectos animalescos das personagens e o determinismo.

O enredo foi inspirado na própria história do escritor Raul Pompeia que esteve num colégio interno.

Sendo assim, a obra é considerada um romance autobiográfico o qual revela o moralismo e o ambiente corrupto em que ele próprio viveu.

De tal modo, o escritor critica diversos aspectos da sociedade, aliados ao moralismo e à perversão das instituições de ensino do século XIX no País.

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Trechos da obra

Para conhecer melhor a linguagem e os estilo utilizado por Raul Pompéia, veja abaixo alguns trechos da obra:

"Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regímen do amor doméstico; diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora, e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo - a paisagem é a mesma de cada lado, beirando a estrada da vida.

Eu tinha onze anos."

"Duas vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação.

Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de última remessa; o Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios.

O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o Império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à sustância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. E engordavam as letras, à força, daquele pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, íntima ou nacional, festas do colégio ou recepções da coroa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos berloques."

Daniela Diana
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.