O Totalitarismo

Juliana Bezerra

Totalitarismo é um regime político que se caracteriza pelo controle da sociedade e do indivíduo, através da ideologia de um partido político e terror permanente.

O regime totalitarista surgiu após a Primeira Guerra Mundial na Alemanha, Itália e União Soviética. Posteriormente seria adotado na China, Coreia do Norte e Camboja.

Atualmente, o único Estado totalitário do mundo é a Coreia do Norte.

Origem do Totalitarismo

A palavra “totalitário” surgiu na Itália, em 1923, quando o jornalista e político Giovani Amendola, descreveu o governo de Bento Mussolini com este conceito. Adversário de Mussolini nas eleições legislativas, Amendola seria um dos seus principais opositores. Com esta definição, Amendola alertava que Mussolini queria dominar a Itália de forma anti-democrática.

Embora o termo fosse usado para criticá-lo, Mussolini passou a utilizá-lo para descrever seu regime. Posteriormente, Amendola seria assassinado pelos “camisas negras” fascistas em 1926.

Também Lenin, na União Soviética, empregava o termo para definir as transformações que estavam acontecendo na Rússia.

Surgimento do Totalitarismo na Europa

O totalitarismo surgiu na Europa no período entre as duas guerras mundiais ou seja entre 1919-1939. Neste momento, a democracia liberal é rejeitada em três países que se veem tocados pela guerra: Itália, Alemanha e Rússia.

A crise econômica e a desilusão com a democracia levaram a população acreditar numa solução autoritária para os problemas que enfrentavam.

Na Rússia, ocorre a Revolução Bolchevique, em outubro de 1917, a Itália elege o dirigente fascista Benito Mussolini em 1925 e o partida Nacional-Socialista (nazista), na Alemanha, conquista cada vez mais cadeiras no Parlamento alemão.

Características do Totalitarismo

O totalitarismo é um regime que busca dominar a sociedade em todos os aspectos. Por isso, o controle é exercido na esfera política, social, econômica e individual.

O governo totalitarista possui as seguintes características:

Ideologia: as ideias do Estado totalitário são revolucionárias e tem o objetivo de construir uma nova sociedade. A ideologia é sempre divulgada por um líder carismático que encarna seus valores.

Exemplo: tanto o fascismo como o comunismo prometiam isso. O fascismo queria a construção de uma nação onde as classes seriam harmônicas. Por sua parte, o comunismo pretendia montar uma sociedade onde as classes sociais seriam extintas.

Partido político único: como o líder sabe o que é melhor para todos, no totalitarismo só está permitido a existência de um único partido político. O partido domina toda a administração do governo e todos os cidadãos são convidados a se filiar no partido. Alguns o fazem de forma espontânea, mas muitos são coagidos.

Exemplo: quem não é filiado ao partido político perde o emprego.

Terror: no totalitarismo, a população está constantemente vigiada. Assim o terror é um caminho e não o fim, pois ele nunca terminará. Primeiro, escolhe-se um inimigo concreto como os judeus ou capitalistas, depois, todos aquele que não se enquadre na ideologia dominante será considerado inimigo.

A própria sociedade que vive sob regime totalitário é levada a espiar parentes, amigos, colegas de trabalho, professores, etc. Isso gera um estado de permanente tensão onde é difícil confiar no governo e nas relações sociais.

Fim da individualidade: no totalitarismo, o sistema está correto e não pode ser questionado. Neste caso, quem está equivocado é o indivíduo e ele deve se adequar à ideologia vigente. Para aqueles que não se adaptam, existe a “reeducação”, onde os indivíduos são levados a campos de concentração ou isolados em fazendas a fim de aprender os valores dos camponeses. Aqueles que são reincidentes são humilhados em cerimônias públicas ou mandados à prisão.

Igualmente, aqueles que participam do poder também não podem dizer que estão a salvo, pois há expurgos, autocríticas e qualquer atitude pode ser classificada como traição, como consequência, caírem em desgraça.

Regimes totalitários na Europa

Três regimes totalitários se instalaram no continente europeu: a Itália fascista, governada por Benito Mussolini; a Alemanha nazista, dirigida por Adolf Hitler; e a União Soviética socialista, liderada por Joseph Stalin.

Itália: o governo totalitarista italiano coincide foi implantado por Benedito Mussolini, em 1922. Neste período, a Itália institui a censura, impõe a militarização da sociedade, nacionaliza a economia, além de controlar os trabalhadores através de sindicatos. O Estado totalitário só teria fim em 1943.

União Soviética: a chegada do poder de Joseph Stalin, em 1922, supôs a centralização política e a criação de controles que não permitissem o surgimento de nenhuma contestação por parte da sociedade. Com o objetivo de aumentar a produtividade do campo e da indústria, Stalin lançou mão de políticas de terror que incluíam a deportação, trabalhos forçados nas prisões e a criação do culto ao líder. Com sua morte, em 1953, a União Soviética deixa de ser um Estado totalitário.

Alemanha: a ascensão de Adolf Hitler ao poder, em 1933, significou a adoção do nazismo como forma de fazer política. Isto significou a eleição da "raça ariana" como a única autorizada para viver na Alemanha e a eliminação física de judeus, ciganos, deficiente físicos e mentais, comunistas, e outros grupos. Com o fim da Segunda Guerra, em 1945, o regime totalitário da Alemanha desapareceu.

Veja também: Regimes totalitários na Europa

Regimes totalitários na Ásia

Na Ásia, alguns países que adotaram as ideias socialistas, acabaram se transformando em governos totalitários. Foi o caso da China, sob a liderança de Mao Tsé Tung (1949-1976) e o Camboja, governado por Pol Pot entre 1976 a 1979.

Por outra parte, na Coreia do Norte, o totalitarismo é iniciado por Kim Il-Sung em 1948 e continua até hoje com seu neto, Kim Jong-un. Trata-se do único país no mundo que, atualmente, possui um governo com estas características.

China: Mao Tsé-Tung governou o país com mão de ferro. Deixava a sociedade numa condição de alerta permanente ao promover expurgos a fim de "limpar" a sociedade de influências burguesas. Um exemplo claro foi a "Revolução Cultural" promovida nos anos 60, onde professores e artistas foram acusados de não serem suficientemente revolucionários e, desta forma, muitos foram presos e até mortos.

Coreia do Norte: após o fim da Guerra da Coreia (1950-1953), a Coreia do Norte se fechou ao mundo e implantou as ideias socialistas na forma de uma ditadura. Isto provocou a perseguição de opositores políticos, trabalhos forçados, controle da vida diária dos cidadãos e o culto ao líder.

Camboja: o ditador Pol Pot, governou o país entre 1976 e 1979, e quis transformar o ex-colônia francesa numa sociedade rural. Para isso, ordenou a migração de famílias inteiras para o campo. Para isso, recorreu a assassinatos e prisões em massa. O resultado foi a miséria e a fome generalizada no país que pode ter matado de entre 1,5 e 2 milhões de pessoas.

Totalitarismo no Brasil

O Brasil sofreu várias ditaduras ao longo de sua história, porém nenhuma delas pode ser caracterizada de totalitária.

O Estado Novo (1937-1945), de Getúlio Vargas, se utilizava do controle político e da censura, mas em nenhum momento adotou o princípio de uma política do terror para controlar a população.

O governo varguista foi uma ditadura nacionalista e autoritária que não permitia a participação política dos cidadãos pelo voto. Contudo, não pode ser considerada totalitária, porque havia uma Constituição, não havia campos de reeducação política e tampouco um "outro" para odiar.

Também a ditadura militar (1964-1985) foi um regime autoritário e não totalitário. Exemplo disso foi a própria perseguição aos comunistas ou pessoas que estavam contra a ditadura militar. Uma vez que as organizações foram sendo desmanteladas, o próprio regime iniciou sua abertura política.

Totalitarismo e Autoritarismo

Os termos totalitarismo e autoritarismo são semelhantes e descrevem regimes não-democráticos. No entanto, existem importantes diferenças entre eles.

O autoritarismo não pretende dominar a sociedade globalmente através do terror permanente e nem de uma ideologia coesa. Também não é anti-liberal e às vezes até incorpora elementos do liberalismo como eleições para nível municipal, por exemplo.

Desta maneira, as ditaduras de Oliveira Salazar (1932-1974), em Portugal e de Francisco Franco (1936-1975), na Espanha, não são considerados regimes totalitários e sim autoritários. Da mesma forma, as ditaduras militares ocorridas na América Latina dos anos 60 a 80 são autoritárias e não totalitárias.

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Referências Bibliográficas

Documentários:

"Qu'est-ce que le totalitarisme?" Storia Voce. Consultado em 31.07.2020.

"Hannah Arendt: The Origins of Totalitarianism" Literature World. Consultado em 30.07.2020

"Hannah Arendt (1973) Full Interview (English & French)". Philodophy Overdose. Consultado em 24.07.2020

Juliana Bezerra
Juliana Bezerra
Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.