Decolonialismo: o que é, pensamento decolonial e principais autores
Quando pensamos na independência de um país, a primeira imagem que vem à mente é a assinatura de um tratado, a retirada de tropas estrangeiras e a criação de uma nova bandeira. No entanto, os pensadores da vertente decolonial alertam que o fim da dominação política e jurídica não significa, necessariamente, o fim da colonização.
O decolonialismo é um movimento teórico, político e cultural que surge, principalmente na América Latina, para mostrar que as estruturas de poder, a economia e, sobretudo, a nossa forma de pensar continuam colonizadas. O pensamento decolonial busca libertar a sociedade da visão de que o padrão europeu e norte-americano é a única régua válida para medir o conhecimento, a cultura, o desenvolvimento e a própria humanidade.
Neste conteúdo você vai encontrar:
- Colonialismo e colonialidade
- Principais autores do pensamento decolonial
- O que é o epistemicídio?
- Decolonialismo no Brasil
- Decolonialismo no ENEM e vestibulares
Colonialismo e colonialidade
Para compreender essa teoria, o primeiro passo é desatar um nó conceitual importante: a diferença entre colonialismo e colonialidade. Embora pareçam sinônimos, eles operam em tempos e dimensões diferentes.
Colonialismo: Refere-se ao período histórico e ao processo político-militar em que uma metrópole domina um território estrangeiro explorando suas riquezas. O Brasil viveu o colonialismo sob o domínio de Portugal até 1822. Esse processo tem um fim histórico definido quando o país se torna independente.
Colonialidade: É o legado deixado pelo colonialismo, uma herança invisível que sobrevive muito tempo após a independência. A colonialidade dita as hierarquias sociais atuais, o racismo estrutural, a desvalorização de saberes locais e a dependência econômica. Em suma: o colonialismo acabou, mas a colonialidade continua ditando como o mundo funciona.
Principais autores do pensamento decolonial
O pensamento decolonial ganhou força a partir dos anos 1990, especialmente por meio do grupo Modernidade/Colonialidade, formado por intelectuais latino-americanos. Os nomes mais influentes dessa vertente incluem:
Aníbal Quijano (1928–2018): Sociólogo peruano que cunhou o termo "colonialidade do poder". Ele demonstrou como a ideia de "raça" foi inventada pelos colonizadores para justificar a divisão do trabalho e colocar os povos colonizados em posições de inferioridade.
Walter Mignolo (1941–presente): Semiólogo argentino que discute a "colonialidade do saber e do ser". Mignolo defende o desprendimento das categorias de pensamento eurocêntricas e a valorização de outras cosmologias.
Catherine Walsh: Intelectual radicada no Equador que foca na pedagogia decolonial e na interculturalidade crítica, pensando em como o sistema educacional pode ser um espaço de libertação.
Frantz Fanon (1925–1961): Embora anterior ao grupo, o psiquiatra da Martinica é a grande referência de base. Em sua obra Os Condenados da Terra, ele analisa os impactos psicológicos devastadores da colonização na mente do colonizado.
O que é o epistemicídio?
O conceito de epistemicídio — amplamente discutido por intelectuais como o filósofo português Boaventura de Sousa Santos e, no Brasil, pela filósofa Sueli Carneiro — refere-se à destruição, negação ou invisibilização das formas de conhecimento produzidas por povos colonizados ou marginalizados.
Ao longo da história, a ciência ocidental impôs-se como a única detentora da verdade e da racionalidade. Tudo o que vinha de matrizes indígenas, africanas ou tradicionais foi rotulado como "superstição", "folclore" ou "atraso". O epistemicídio ocorre quando uma universidade estuda a filosofia grega, mas ignora a filosofia africana, ou quando a medicina tradicional de matriz indígena é deslegitimada pelo conhecimento médico hegemônico.
Decolonialismo no Brasil
No cenário brasileiro, aplicar o decolonialismo significa reescrever a narrativa histórica oficial, que por séculos colocou os colonizadores europeus como heróis civilizadores. A perspectiva decolonial desloca o olhar para os sujeitos históricos que foram subalternizados:
Povos Indígenas: A luta decolonial indígena passa pela demarcação de suas terras e pelo reconhecimento de suas cosmovisões (formas de se relacionar com a natureza e com o tempo) como ciências válidas e vitais para frear a crise climática mundial. Autores como Ailton Krenak e Davi Kopenawa são vozes centrais desse processo.
Afrodiáspora: O pensamento decolonial brasileiro é indissociável das lutas do movimento negro. Intelectuais como Lélia Gonzalez trouxeram contribuições brilhantes, como o conceito de Amefricanidade, apontando como a experiência dos negros nas Américas construiu uma identidade cultural única que recusa tanto a submissão ao europeu quanto o apagamento de suas raízes africanas.
Decolonialismo no ENEM e vestibulares
Nos vestibulares e no ENEM, o decolonialismo e suas ramificações (como o pós-colonialismo) aparecem com muita frequência nas questões de História, Sociologia, Geografia e Linguagens. A prova costuma cobrar a capacidade crítica do estudante diante de textos informativos ou manifestações artísticas. Fique atento aos seguintes temas recorrentes:
Revisão do processo de colonização: Questões que problematizam o "descobrimento" do Brasil, evidenciando o etnocídio e a violência contra as populações nativas.
Valorização das culturas marginalizadas: Textos que destacam a literatura negra, a força do jongo, do samba, das manifestações quilombolas e a preservação das línguas indígenas locais.
Eurocentrismo cultural: Questões de linguagens que criticam a imposição de padrões estéticos ocidentais e celebram a estética afro-brasileira ou periférica.
Veja também: Exercício sobre a Democracia (com gabarito)
Referências Bibliográficas
CARNEIRO, Sueli. A Construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. São Paulo: Feusp, 2005. (Tese de Doutorado que discute o conceito de epistemicídio no Brasil).
GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. Diáspora Africana: Editora Filhos de África, 2018.
MIGNOLO, Walter. Histórias Locais/Projetos Globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
RODRIGUES, Érika. Decolonialismo: o que é, pensamento decolonial e principais autores. Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/decolonialismo-o-que-e-pensamento-decolonial-e-principais-autores/. Acesso em: